Remessas para a Italia

Frequentemente encontramos referências ao dinheiro que os imigrantes remetiam para a Italia. Infelizmente não conseguimos reunir informações consistentes sobre tal prática entre os que viveram em Leopoldina. Talvez não tenha ocorrido ou, o que é bem provável, a “tenacidade com que os emigrados permanecem ligados às tradições italianas”, mencionada em Relatório de um parlamentar em 1911, tenha sido praticada aqui através das festas religiosas.Para períodos posteriores, encontramos publicações que mencionam os diversos motivos por trás das remessas que os nossos imigrantes faziam: desde o pagamento de um empréstimo obtido com a própria família, passando pela promessa que fizeram de continuar ajudando-os até as doações para a paróquia na qual nasceram. É possível que a devoção dos emigrados tenha se transferido para o padroeiro local, como parece indicar a compra do terreno e a construção da Igreja de Santo Antonio de Pádua, atualmente mais conhecida como Igreja da Onça. Segundo Constantino Ianni, no livro Homens sem Paz, o interesse do Vaticano na emigração esteve ligado à poupança daqueles trabalhadores que poderia ser remetida para a Igreja.

No caso de Leopoldina, levantamos a hipótese de tal poupança ter sido direcionada, pelos padres do município, para as Igrejas que passaram a frequentar. Só não podemos nos manifestar sobre uma informação Comissariado da Emigração de 1908, dando conta de que “o padre italiano passa a vida no meio de uma riqueza invejável, promovida pelo caráter eminentemente religioso dos colonos”. A este respeito, não encontramos indícios.

Campana e Campagna são famílias distintas

Conforme publicamos em novembro de 2008 no jornal Leopoldinense, colunas 45 e 46, em Leopoldina viveram os Campana e os Campagna. Recebemos consulta sobre Agostinho, filho de Angelo, mas o sobrenome veio invertido. Abaixo os ancestrais de Agostinho de Oliveira Campana que viveram em Leopoldina.

Italianizar-se em terra estrangeira

Olhar os nossos colonos apenas como imigrantes, ou seja, como estrangeiros vivendo em nosso país, parece-nos um risco considerável. Acreditamos ser fundamental analisar o contexto em que viveram antes de decidirem deixar a pátria e a família, ou seja, pensá-los como emigrantes. Neste momento em que estamos próximos do Centenário da Colônia Agrícola da Constança, rever capítulos de nossos estudos tem sido nossa forma de comemoração. A releitura nos faz refletir sobre muitas questões que ainda não tinham sido discutidas pelos descendentes dos imigrantes que viveram em nossa cidade.

É sempre oportuno lembrar que, embora a Constança tenha sido oficializada no dia 10 de abril de 1910, a maioria dos colonos já vivia em Leopoldina há bastante tempo. Entre os adquirentes dos lotes, muitos chegaram ao Brasil entre 1888 e 1895. E embora tenha havido uma certa dispersão pelo município, observamos a formação de uma comunidade bastante representativa dentro da população local. Entre outros indicativos para esta conclusão, temos o compadrio que surge nos livros paroquiais. A região onde existiu a Colônia Santo Antônio, e depois a Constança, tornou-se quase uma área urbana em função dos imigrantes que ali viveram.

Conforme temos citado algumas vezes, o sentimento de nacionalidade entre os italianos nasceu da consciência, já no estrangeiro, de que procediam de um mesmo país. Um relatório do Comissariado para a Emigração italiano, de 1926, menciona diversas formas de exploração a que foram submetidos os candidatos a deixarem o país, desde as últimas décadas do século XIX. São citados casos de emigrantes encaminhados para lugar diferente daquele ao qual pretendiam ir, fato de que só tomaram conhecimento quando desembarcaram. E a falta de serviços assistenciais, por parte da Itália, obrigou os emigrantes a se unirem e se organizarem. Ou seja: italianizaram-se em terra estrangeira.

Nostalgia do pequeno paese

Della emigrazione e del pauperismo, obra de Ernesto Comucci publicada em 1885, é citada por diversos autores como referência para o efeito da nostalgia na saúde mental do emigrante que, sentindo-se solitário em terra estrangeira, vê o sonho de prosperidade se diluir na dura realidade. Se para alguns isto resultou em profunda mágoa da terra natal, por considerarem-se expulsos, em outros casos o desequilíbrio mental foi muito grave, extraindo-o completamente do convívio social. Há relatos, pelo interior do Brasil, de inadaptação de “nostálgicos” mesmo quando vivendo próximo a outros italianos. E aí está o segundo problema.

Sabe-se que os camponeses que emigraram no final do século XIX não eram propriamente italianos como entendemos hoje. Nos primeiros tempos após a unificação, só uma pequena parcela da população – a elite, estendeu o sentimento de nacionalidade para além do território do estado a que pertenceu até então. Os demais continuaram se sentido calabreses, lombardos ou sicilianos muito mais do que italianos. Antigos jornais mencionam um político que teria declarado que a “Italia foi construída e agora precisamos construir os italianos”.

Ainda seguindo opiniões populares, do Piemonte teria sido irradiada a “italianização” que não atingiu os camponeses porque logo emigraram. Donde os nossos imigrantes não se reconheciam como parte de uma comunidade nativa, quando instalados em colônias onde viviam naturais de outras regiões da sua terra natal.

Abordamos ligeiramente o assunto no texto “O Sentimento de Nacionalidade Italiana” publicado em janeiro de 2007. Sem, contudo, mencionar o desabafo de um descendente sobre a tristeza de seus avós por conviverem com pessoas de hábitos culturais diferentes, embora todos provenientes do “mezzogiorno”. Para o informante, o desequilíbrio mental de um parente próximo seria “hereditário” e acrescentou que seus tios também sentiam profunda saudade do “paese” onde nasceram.

Bolzoni, da Lombardia

Em 1897, pelo vapor Les Alpes, chegou a família de Luigi Bolzoni, procedente da Lombardia. Seus filhos Pietro, Carolina, Angelo e Grazia casaram-se e tiveram filhos Leopoldina. Em 1942, pelo menos a família de Pietro Bolzoni vivia Colônia Agrícola da Constança.

Condições de vida do italiano no exterior

O livro The Italian Emigration of our times, de Robert Foerster, publicado em Cambridge em 1919, traz algumas informações sobre a vida dos italianos no Brasil, nos capítulos XV e XVI. Embora mencione algumas colônias brasileiras, não há dados específicos sobre Minas Gerais. De todo modo, é uma obra importante para conhecer a visão de estudiosos do início do século XX sobre o assunto.

É de Foerster a informação a respeito da diminuição do número de proprietários na Basilicata, Calabria e Sicilia entre 1882 e 1901, época em que os pequenos vendiam seu patrimônio para buscar melhores condições no exterior. Esta informação está presente na memória familiar dos Lamarca, Lammoglia e Schettini que vieram para Leopoldina.

De igual modo, o desconhecimento da língua como causa de dificuldades variadas é perceptível em nossos estudos. Mas não podemos afirmar, como fez Foerster, que seria a causa do rebaixamento das condições sociais dos imigrantes italianos e de inúmeros acidentes de trabalho.

Diga-se, aliás, que o Documenti di Vita Italiana, publicado em Roma na década de 1950 pela Presidenza del Consiglio dei Ministri, relaciona os países que repatriaram imigrantes italianos por problemas de saúde, incluindo o Brasil. Para períodos mais remotos, temos informação de procedimento desta natureza anteriores a 1927, segundo Estatística do Comissariado, que inclui os números daqueles que foram rejeitados nos portos de desembarque. Em nossas buscas nos livros da Hospedaria Horta Barbosa, encontramos sim, repatriações, mas não por problemas de saúde. Os poucos casos ali registrados referem-se a “desordeiros”, sem especificar que tipo de tumulto teriam causado.

Bonini e Colle, duas famílias da Constança

Temos recebido pedidos para publicar os nomes de antepassados imigrantes aqui no blog. Pedimos que nos informem o tipo de vínculo, por conta de alguns homônimos. Sempre que os tivermos no banco de dados, publicaremos.

O quadro abaixo responde a consulta sobre a filiação de João Bonin, filho de Jacinto e neto de Fortunato Bonini, que adquiriu o lote número 23 da Colônia Agrícola da Constança.

Ascetismo da Poupança

Expressão utilizada em alguns estudos, parece ter sido importada dos Estados Unidos onde foi utilizada para condenar o comportamento dos imigrantes italianos que, ao retornarem para seu país, estavam em boas condições econômicas e extremamente debilitados fisicamente. 

De fato não são poucas as referências, nas entrevistas que realizamos, à dureza imposta pelos imigrantes a si e à família, tendo em vista amealhar uma poupança que permitisse adquirir um pedaço de terra. Conforme já mencionamos, no início poderiam pensar em voltar para a Italia e se estabelecerem em melhores condições, a partir da poupança feita aqui no Brasil. Entretanto, não temos dados que nos permitam abordar o decréscimo da condição física em função dos sacrifícios a que se submeteram. Sabemos, sim, de perda de visão ou de algum membro. Entretanto, desconhecemos a causa e por isto não podemos imputar o fato a determinada prática ou comportamento.

Lemos referências a óbitos causados pela mesma situação, ou seja, determinados pelo excesso de trabalho em condições adversas. No que toca a Leopoldina, temos um caso de óbito considerado como resultado de trabalho no brejo, cultivando arroz. Entretanto, analisando a trajetória do falecido, descobrimos que no final de todas as tardes ele se dirigia para a “venda”, um estabelecimento comercial próximo do local de residência. Ali o imigrante passava muitas horas bebendo, indo para casa já com noite fechada. Quase sempre chegava com o vestuário bastante úmido pelo sereno. E, bêbado, não cuidava de trocar a vestimenta e aquecer-se adequadamente. Tampouco permitia que a mulher interferisse. Nos primeiros tempos, quando ela insistia em fazê-lo trocar de roupa e tomar um chá quente, o imigrante costumava agredi-la verbal e fisicamente.

Passados alguns anos, este imigrante começou a apresentar características de tuberculose mas não buscou tratar-se. Pelo contrário, mudou-se para o sítio do sogro onde foi plantar arroz. Ao fim de 10 anos de casado, foi a óbito. Na memória familiar, ficou a informação de que a causa foi o trabalho no brejo.

Estimular a Emigração

Descendente de Luigi Barbaglio e Rosa Bertini, que fez o caminho de volta e vive há bastante tempo na Toscana, há alguns anos Maria Angela presenteou-nos com um texto muito interessante. Havíamos pedido ajuda sobre a região, interessados que estávamos em contextualizar a história da família Prosperi, originária de Lucca, e dos Pierotti, de Firenze. Segundo ela, Ernesto Comucci, em 1885, publicou um livro denominado Della emigrazione e del pauperismo, della riforma agraria e tributaria, no qual consta o seguinte comentário:

Criar a miséria pública é estimular a emigração, um recurso abominável que impede o desenvolvimento da força e da coragem para combater as causas dos problemas locais.

E Maria Angela informa que a classe dirigente estimulava a emigração por ser um instrumento que permitiria manter a ordem social, abalada na década de 1880. A reforma tributária de Crispi não teria tido por objetivo eliminar a miséria, mas impulsionar a saída do “excesso de contingente” que traria prosperidade ao país, especialmente através das remessas em dinheiro que fariam.

Nem todo colono era agricultor na Italia

Simplificações são sempre arriscadas. Uma delas, encontrável em alguns autores, é a que se refere ao trabalho de nossos colonos antes de decidirem vir para o Brasil, muitas vezes afirmando que todos eram agricultores. Já tivemos oportunidade de discutir o assunto numa coluna do jornal Leopoldinense. Além daqueles que vieram antes do período da Grande Imigração, ou seja, entre 1888 e 1898, temos referência a outros imigrantes que não trabalhavam na lavoura. Entre estes, podemos citar os Moroni e Zanetti.

Procedentes de Bergamo, na Lombardia, os Moroni chegaram em 1899 e foram trabalhar numa fazenda do distrito de Abaíba. Três filhos do casal Giuseppe Moroni e Lucia Filipoli casaram-se com filhas de Giovanni Lupatini e Maria Zanetti, grupo que chegara em 1895 e também trabalhava em fazenda do mesmo distrito de Leopoldina. Os Lupatini provinham de Castrezzato, Lombardia. Na época dos casamentos, o casal Lupatini já se vinculava à Colônia Agrícola da Constança, da qual Giovanni adquiriu os lotes números 30 e 39. Acredita-se que o financiamento de duas unidades para um mesmo colono seja fruto de acordo entre ele e seus agregados, de modo a reunir os requisitos exigidos pelo governo para a venda.

Mas um dos novos casais não residiu na Constança. Giuseppe Abramo Moroni e Giulia Francesca Lupatini haviam se casado em janeiro de 1908 e em julho do ano seguinte tiveram a filha Maria Assunta. Provavelmente no mesmo ano resolveram voltar para a Italia. Giulia faleceu na Brescia em 1967. Buscando informações sobre a trajetória do casal, descobrimos que os Zanetti faziam parte da Camera di Commercio e Industria di Brescia, entre eles havendo diretores daquela instituição entre 1910 e 1920. Já na família Moroni havia técnicos e engenheiros radicados em Milão, e alguns familiares de Giuseppe Abramo Moroni eram proprietários de uma Tipografia que publicava jornais sobre o assunto desde o final do século anterior. Sendo assim, Giuseppe Abramo decidiu retornar e seus descendentes seguiram a trajetória das duas famílias, trabalhando no comércio, na indústria e em tipografia.