Josepha Dias

Os viajantes estrangeiros, que estiveram em Minas no século XIX, deixaram suas impressões sobre os povoados por onde passaram. Uma descrição interessante que nos faz refletir sobre a origem de nossas cidades é a de Richard Burton, que aqui esteve em 1867. Em seu livro Viagem do Rio de Janeiro ao Morro Velho, reeditado pelo Senado Federal em 2001, nas páginas 69-70 encontramos a seguinte descrição:

“A igreja de costume fica na frente da praça, a casa grande de costume fica no fundo da praça e o chafariz de costume no meio da praça; daí o ditado: ‘O chafariz, João Antônio e a matriz’, que descreve a constituição dessas localidades. Em torno da grande praça, vêem-se chácaras, utilizadas pelos fazendeiros ricos nos domingos e dias-santos; durante o resto do ano, ficam fechadas. Há meia dúzia de vendas, que não vendem nada. Como é costume no Brasil, o cemitério ocupa uma elevação bem visível, e as moradas dos mortos estão muito mais bem situadas que as dos vivos”.

Os nossos povoados tomaram esta feição por terem sido formados, na maioria dos casos, em torno da Igreja Matriz. Mas este não é o caso de Recreio que, conforme sabemos, surgiu a partir da Estação da Estrada de Ferro da Leopoldina. E foi em torno dela que os primeiro moradores se localizaram.

Na medida em que vamos registrando a ocupação daqueles pioneiros, podemos perceber que o Arraial Novo atraiu prestadores de serviços variados. Como é o caso de Josepha Dias, cuja casa avizinhava-se pela esquerda com Candido Neves, pela frente com a pequena rua fronteira à estação, pelos fundos com terrenos da Fazenda Laranjeiras e pela direita com a linha férrea da estrada Alto-Muriaé. Segundo se depreende dos registros, Dona Josepha foi autorizada a ocupar o terreno de 7 metros e 70 centímetros por 10 metros de fundos com o fim de prestar seus serviços de lavadeira numa pequena casa coberta de telhas, construída por ordem do proprietário da Fazenda. E quando o Banco do Brasil autorizou Ignacio Ferreira Brito a celebrar os contratos de aforamento, Josepha Dias assinou o seu a 9 de abril de 1885, aceitando pagar anualmente 26.180 réis.

Presença Feminina

Muitas devem ter sido as mulheres que participaram da urbanização de parte das terras da Fazenda Laranjeiras, transferindo residência para o local onde nascia um povoado. Poucas, entretanto, aparecem como responsáveis por contrato de aforamento. Uma delas foi IGNEZ MARIA DE MAGALHÃES, costureira.Interessante observar que, diferentemente dos outros moradores, a casa em que ela residia era coberta de sapê. O terreno era pequeno: 9 metros por 4 metros de fundo. Os vizinhos: Julio de Moraes Tavares à esquerda, os outorgantes à direita, os trilhos junto da estação nos fundos. Na frente de sua casa passava a pequena rua, já citada, e que parece ser a via de acesso à plataforma de embarque.

Outro Negociante

Conforme vimos até aqui, entre os primeiros moradores do Arraial Novo alguns eram empregados da Estrada de Ferro da Leopoldina, um era hoteleiro e um outro trabalhava a jornal. Havia ainda um outro negociante: SERAFIM TEIXEIRA DA LUZ. Entretanto, não consta do registro o tipo de atividade a que se dedicava, informando apenas que o aforamento referia-se a um terreno de 20 metros por 20 metros e 95 centímetros de fundos, contendo uma “ […] casa térrea coberta de telhas que devisa pela frente com a Estação, pelos lados com terrenos dos outorgantes, pelos fundos com o pasto da Fazenda das Larangeiras pertencente aos mesmos outorgantes”.

Trabalhador Jornaleiro

Sabe-se que, naquela época, as pessoas que alugavam sua força de trabalho por períodos determinados eram conhecidas comojornaleiras”, ou seja, recebiam pagamento por jornada. Este era o caso de ANTONIO POETA, que ocupava uma “casa térrea coberta de telhas que devide pela frentecom os trilhos da Alto-Muriahé, pelos lados e fundos com terrenos dos outorgantes”, num terreno de 4 metros e 70 centímetros por 5 metros e 40 centímetros de fundos. No dia 10 de abril de 1885, no hotel de propriedade de Ignacio Ferreira Brito, localizado no Arraial Novo, Antonio Poeta assinou o contrato de aforamento comprometendo-se a pagar 8.629 réisanuais.

Recreio, MG: Provável limite do povoado

O quarto e último ferroviário a assinar o termo de aforamento foi Joaquim Pereira Leitão. O terreno que ocupava, com 10 metros e 30 centímetros por 20 metros de fundos, divisava exclusivamente com terras da Fazenda das Laranjeiras, na estrada “que vae para Conceição Arrayal” conforme indica o registro. Sendo assim, acreditamos que este seria o ponto limítrofe, a sudeste, do perímetro do Arraial Novo.

Outro ferroviário: José Vaz da Silva

Em sua obra Formação de Cidades no Brasil Colonial, Paulo Santos lembra que a maioria das cidades brasileiras surgiu de maneira espontânea: “Não se cogitou de fundá-las. Simplesmente nasceram”. (2001, p. 49). Mais adiante, ao tratar das cidades brasileiras do século XV ao XIX, o autor lista algumas causas para o nascimento de nossas áreas urbanas, como “cidades de conquista do interior, do café, da borracha, da indústria”, etc.

Recreio nasceu nos anos finais do Império do Brasil e talvez seja adequado dizer que foi uma “cidade da ferrovia”. Não teria havido uma intenção direta em sua fundação. Ela foi formada a partir de uma estação da estrada de ferro construída para escoar a produção agrícola. Cremos não ser adequado defini-la como “cidade do café” porque, ao tempo em que a estrada passou a operar efetivamente, um outro objetivo tinha sido agregado à ferrovia: transportar os imigrantes que vinham substituir o braço escravo.

De todo modo, nada nos é lícito afirmar sobre as intenções de Ignacio Ferreira Brito ao conceder o direito de uso das terras de sua Fazenda Laranjeiras aos primeiros moradores do que se denominou Arraial Novo. Entre eles, JOSÉ VAZ DA SILVA, empregado da Estrada de Ferro da Leopoldina, ocupava “uma casa térrea coberta de telhas que devide pela frente com a Estação, pela direita e esquerda com terrenos dos outorgantes, e pelos fundos com cafezais dos outorgantes”. O terreno com 10 metros e 70 centímetros por 10 metros de fundos, assim como a casa nele construída por Ignacio Ferreira Brito, foi aforado no dia 9 de abril de 1885 por 36.380 réis anuais.

O ferroviário Ignacio Fernandes

Empregado da linha férrea, o morador de São José do Alem Parahyba Ignacio Fernandes ocupava, com autorização dos proprietários da Fazenda Laranjeiras, um pequeno lote de terras que media 3 metros e 80 centímetros de frente por 7 metros e cinquenta centímetros de fundos. Segundo o registro, no terreno existia “uma casa terrea coberta de telhas, que devide pela direita com a casa de Julio de Moraes Tavares, pela esquerda com terrenos dos outorgantes, pela frente com a rua fronteira à Estação e pelos fundos com os trilhos da Estrada de Ferro da Leopoldina”. O contrato foi estabelecido através da contrapartida de um foro anual de 4.845 réis.

Conforme se observa, os terrenos variavam bastante de tamanho. Provavelmente não foi planejado um loteamento no entorno da Estação e as ocupações teriam sido autorizadas na medida da necessidade de acomodar os operários da construção da ferrovia e os prestadores dos serviços essenciais.