Centenário de Morte de Augusto dos Anjos – I

Coluna Trem de História no jornal Leopoldinense

DESENTENDIMENTO COM O GOVERNADOR DA PARAÍBA

O Trem de História de hoje toma o rumo do nordeste e vai ao Engenho do Pau D’Arco, no município de Sapé e a João Pessoa, na Paraíba, para homenagear o poeta Augusto dos Anjos no centenário de sua morte. Desvia por ora da história da Imprensa em Leopoldina para contar um pouco sobre a vida do Poeta da Morte. Mais especificamente, para falar sobre um episódio aparentemente corriqueiro, mas que contribuiu para a vinda do poeta para o Rio de Janeiro e, dali, para Leopoldina, onde mais tarde seu corpo foi sepultado.

Como é sabido, Augusto dos Anjos nasceu no Engenho do Pau D’Arco, na zona rural do município de Sapé, na Paraíba, onde existe hoje a Comunidade Usina Santa Helena que conserva o Memorial Augusto dos Anjos, no dia 20 de abril de 1884 e foi batizado na Igreja de Nossa Senhora dos Anjos em São Miguel de Taipu.

Aprendeu as primeiras letras com o pai, advogado, ainda no Engenho onde moravam. Posteriormente estudou no Lyceu Paraibano. Segundo o seu biógrafo, Órris Soares, em Elogio de Augusto dos Anjos, na página 23 do livro Eu e Outras Poesias, o menino Augusto “Descia do Pau d’Arco, sombrio engenho de açúcar plantado na aba do Rio Una, vindo prestar exame no Lyceu”. Cursou a Faculdade de Direito do Recife onde se bacharelou em 1907, mas nunca advogou. Retornou para João Pessoa onde passou a lecionar português no Lyceu e a dar aulas particulares de literatura brasileira.

Em 1910, devido a um desentendimento com o governador teria se afastado do cargo de professor do Lyceu Paraibano. Embora não se tenha, ainda, a razão exata deste desentendimento, faz sentido supor ter tido origem em algum fato decorrente das medidas de João Lopes Machado, que governou a Paraíba de 28.10.08 a 22.10.12, e que atingiram diretamente o Lyceu Paraibano.

Por este modo de pensar, a leitura da Mensagem do Presidente da Paraíba João Lopes Machado, para a Assembleia Legislativa do Estado em 01 de setembro de 1909, na qual ele aborda as medidas que julga necessárias para melhorar a qualidade do ensino no estado, talvez possa trazer alguma luz. Este documento está disponível na Hemeroteca Nacional <http://memoria.bn.br&gt;.

Destaque-se que o problema no Lyceu foi posterior à pretendida reforma sugerida por João Machado, a qual tratava tão somente da realocação do ensino primário, secundário e profissional, estabelecendo critérios que determinavam o que seria de alçada do município e o que ficaria a cargo do estado.

Dois anos depois veio a denominada “reforma federal” que pretendia reorganizar o ensino para que voltasse a ter as garantias da equiparação do Lyceu com o Ginásio Nacional. Na mensagem de 01 de setembro de 1911, na pag. 21, consta que estava em processo a “recente reforma federal” que intentava “adaptá-lo a um instituto inteiramente preparado para ministrar um ensino fundamental e prático, de maneira que se torne aproveitável aos que pretenderem se matricular nos cursos superiores e aos que aspirarem somente as noções indispensáveis para o exercício de qualquer profissão”.

Da leitura desses relatórios vê-se que pode estar por aqui o motivo do desentendimento de Augusto dos Anjos com o governador. Do relatório seguinte, de 1913, página 8, extrai-se: “O corpo docente corresponde em toda a altura às exigências do ensino moderno, sendo que as últimas nomeações dos Drs. Álvaro Pereira de Carvalho, Manoel Tavares Cavalcanti, Afonso Rodrigues de Souza Campos e Coronel João de Lyra Tavares não mentiriam à mais rigorosa expectativa, se tivessem de lecionar nos mais adiantados centros do país.” E do jornal O Paiz, de 23 de novembro de 1912, página 6, complementa-se: “Em virtude da reforma, o governo nomeou hoje lentes do Lyceu Parahybano o coronel João Lyra, para a cadeira de contabilidade comercial; o Dr. Ascendino Cunha, para inglez; o Dr. Alvaro de Carvalho, para italiano, e o Dr. Tavares Cavalcanti, para direito comercial e economia política. As demais cadeiras foram preenchidas pelos lentes antigos,”

É verdade que nas listas de pessoal efetivo do Lyceu, publicadas no Almanaque da Paraíba, Augusto dos Anjos não aparece como professor da Instituição em 1911 e 1912. Diz a autora do romance A Última Quimera que o poeta concorreu na seleção para a cadeira de história da literatura em 1912 e não foi escolhido, sendo o lugar dado a um apaniguado de Cazuza Trombone que parece ser apelido de algum político. Segundo a romancista, o escolhido jamais tomou posse e Augusto foi chamado para exercer o cargo como interino.

Fato é que, com o ocorrido, perdeu a Paraíba e ganhou a terra do Trem de História que recebeu o poeta de braços abertos na estação de verdade da Estrada de Ferro da Leopoldina, e entregou a ele a direção do Grupo Escolar que posteriormente recebeu o nome Ribeiro Junqueira.

Mas a continuação do assunto virá em outra viagem a ser contada no próximo Jornal.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA
Publicado no jornal Leopoldinense de 16 de outubro de 2014

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