A divisão de Conceição da Boa Vista

É voz corrente que o desenvolvimento do distrito de Conceição da Boa Vista começou a declinar a partir do impasse com um fazendeiro que não queria a ferrovia cortando suas terras. Com a distância no tempo, sempre correremos o risco de uma leitura anacrônica dos fatos que então se passaram. Com esta ressalva, permitimo-nos suspeitar que não teria sido um único proprietário de terras a desencadear a revisão do traçado da ferrovia. Talvez tenha havido interferência de várias pessoas. Quem poderia nos afirmar que aquele proprietário não assumiu tal postura depois de ser convencido por seus vizinhos e amigos, com argumentos que foram perdidos no tempo? Acreditamos ser prudente não tomar como verdade absoluta as informações em torno daquele fazendeiro que passou à história como uma espécie de anti-herói, ou seja, como símbolo do atraso em que o distrito se viu mergulhado nos anos seguintes.

Já tivemos oportunidade de mencionar a dificuldade da abertura da estrada até Santa Isabel, hoje Abaíba. O terreno devia ser realmente difícil para as teconologias da época, ou não teria recebido este nome uma das primeiras fazendas do lugar. Segundo Joaquim Ribeiro Costa, em Toponímia de Minas Gerais, “abaíba” seria uma palavra da língua tupi para referir-se a difícil, trabalhoso ou íngreme.  E se observamos uma carta topográfica, perceberemos que os tributários São Vicente e Duas Pontes, que vão alcançar o ribeirão dos Monos um pouco acima de Conceição da Boa Vista, atravessam um terreno mais acidentado do que o entorno do percurso escolhido para a estrada de ferro.

Onde nos afiançarmos para analisar a atitude daqueles que desencadearam a revisão do trajeto da ferrovia? No momento queremos apenas observar que o ano de 1876 representou uma tomada de decisão importante: a partir daí, o escoamento da produção agrícola seria através da estação Santa Isabel ou Recreio. Portanto, muitas providências foram certamente tomadas com o objetivo de permitir o deslocamento até a estação. Quem pode nos garantir que os fazendeiros não tenham decidido em conjunto, talvez porque fosse difícil abrir novos caminhos carroçáveis de forma a que todas as propriedades chegassem com facilidade ao ponto de embarque em Conceição da Boa Vista?

Queremos ressaltar que a divisão de Conceição da Boa Vista se insere entre as conseqüências da abertura da Estrada de Ferro da Leopoldina, devendo ser analisada também sob o aspecto de outras possíveis forças que a determinaram. O surgimento dos distritos de Providência (maio 1890), Recreio (junho 1890), Santa Isabel e São Joaquim (novembro 1890) nos remetem a todo um movimento político que se desenvolvia há, pelo menos, uma década. Não foram estes os únicos distritos criados em Minas no seguimento de importantes mudanças, quais sejam a abolição gradual da escravatura oficializada em 1888 e a mudança no sistema de governo no ano seguinte.

2 opiniões sobre “A divisão de Conceição da Boa Vista”

  1. Negar o direito ao progresso de uma regiao, para preservar as filhas ou filhos, mas preservar do que? De conhecerem o mundo, é certo. Tenho visto em outras regioes e outras épocas coisas do tipo, progresso por aqui nem pensar, com esta mentalidade o Brasil ainda estaria fazendo transporte em carros de boi. Quando se pede que nao comente sobre pessoas, penso eu que coisa boa esta ou estas pessoas nao devem ter feito.Um abraço. cantarigv@hotmail.com

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  2. O fazendeiro que não quis a estrada de ferro nas suas teras não pode ser chamado de anti-heroi,ele só não queria sua privacidade e suas terras abertas pára todos, e isso era um direito dele,e era uma forma ter as filhas preservadas das invasões de estranhos nas suas terras, digo isso pois sou tataraneta dele, e acho muito chata ser conhecido asssim, um abraço a todos.

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