Homenagem de um descendente

APÓS OS 40

Eu nasci lá na roça
foi lá que me criei.
Lá na Boa Sorte.
Tive toda a sorte.
Em Leopoldina nas Gerais,
terra fértil, gente fina.
E saudade hoje tenho demais.

Quanta saudade lá da roça,
dos meninos, dos amigos, das peladas,
do campo de futebol, do córrego, do riacho,
do cavalo e da carroça.

Lembro-me ainda da primeira escola.
Da Dona Aparecida, do queijo e do embornal.
Da infância toda vivida.
Das pescadas do meu irmão,

do lambari, traíra, do bagre e do piau.

Recordo da estrada poeirenta e deserta.
Do curral dos bois, do touro “minuto”
com a estrela branca na testa.
Da vaquinha “conquista”
toda esquisita, mas muito bonita.

Ainda ouço o chiado do carro de bois,
dos porcos e do galinheiro.
Saudade do Mané padeiro,
da venda do Sr. “Timbira”,
dos primos Kim, Cyro, Mave e da Nira.

Recordo-me ainda dos meus dez anos de idade,
que não voltam jamais.
Saudade às vezes dói muito, dói demais.
Lembro-me do nosso cachorro Bali.
Saudade do Antônio, do Paulinho e da Lilí.

Recordo ainda do pé de abacate,
do vendedor turco mascate,
dos morros, do luar do grande coqueiro.
Dos bons trabalhadores, dos biscateiros,
do cheiro do mato, da árvore sombria,
do trabalho, da enxada do pai e sua alegria.

Saudade não tem idade.
Lembro também da subida na goiabeira,
da grande e verde mangueira,
de todo o milharal , do arrozal,
depois na escola da Onça,
da igrejinha de S. Antônio,
da festa do padroeiro, do pipoqueiro,
do leiloeiro e da missa mensal.

Recordo também das caçadas do pai.
Da paca, do iambú e do jacu.
Da macarronada da minha mãe,
e aos domingos lá de casa ninguém sai.

Saudade dos anos dourados de “cinqüenta”.
Da criancice, das brigas e intrigas.
Parece que foi ontem, já tem “quarenta”
e às vezes o coração não agüenta.

Saudade das chuvas de verão, do trovão,
da enchente, que a gente até gostava,
da minha pequena bicicleta,
que voava pra casa da tia Maria.
Saudade dos bailes, do arrasta pé, das festas,
da alegria e.t.c., e.t.c.

Da fogueira junina na casa do “João Bonim”,
do terço, da procissão do “Anjo Colli”,
dos versos, da prosa, dos contos enfim,
do cantar do galo preto cedo,
e dos passarinhos, João peneném,

do João de barro,do melro, tisiu, do anu,

chamchão, do beija flor, da cambaxirra e do colerim.

Recordo também do cheiro da flor de laranjeira,
saudade do grupo velho “Ribeiro Junqueira”,
do padrinho “Antônio Carraro”, poeta, meu amigão,

fazia versos como tal, contava histórias, era intelectual.

Tenho saudade da Boa Sorte,
de todos, foi lá que me criei,
sem violência, sem maldade
e com toda liberdade.
Sem medo, sem segredo, sem malícia,
saudade do Zé do Pedro, de suas trovas,
de seus versos e de sua preguiça.

Foi lá na roça que eu andei.
Lembro-me do colo da Vó Olívia,
do carinho do Vô Paschoal.
Dormia com eles, na casa grande,
muito grande, parecia senzala sem igual,

É bom ter raízes e ter vínculos,
É bom ter parentes, ser pai.

Ter pais, é bom ter referencial,

é preciso ser capaz,

é imprescindível ter paz, é bom ser paz e ter paz.
Paz aqui na serra, paz na terra,

paz na roça e na cidade.

E paz total.

Portanto estou saudoso de todos,
dos ausentes e dos presentes da família,
da primeira bola da madrinha “Cecília”.
Saudade do leite fresquinho de manhã,
do bonito “caminhão” do leiteiro,
que meu pai colocava na estrada de manhã.
Saudade da bilosca e do pique no terreiro.

Ainda me lembro mesmo do vaga-lume,
do grande lampião e da lamparina,
do queijo puro e da rapadura,
do doce de leite, da gordura,
do melaço da garapa,
do pessoal da “D.Marcelina”.

Recordo ainda da Mina de água fresca,
Do moinho de fubá, do cafezal, da ponte
que a gente mergulhava e empurrava os outros.

Das grandes caminhadas, do alto cupim,
do roçado e do verde canteiro,
da horta, das alfaces, da couve,

da abóbora gigante, das batatas doces,

do tacho do torresmo, do grande pé de aipim.

 

Não sou importante,

sou apenas “Mineiro”

Graças a Deus.

 

José Edison Fofano
Declaro ainda a total fidelidade da frase: “Recordar é viver”.
Petrópolis, fevereiro de 2001.

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