Pelos 108 anos da Colônia Agrícola da Constança

O interesse inicial pela pesquisa sobre a imigração em Leopoldina surgiu no decorrer de estudo sobre antigas famílias leopoldinenses, quando foi observada, nos livros das paróquias, uma grande incidência de sobrenomes não portugueses entre os noivos, os pais e os padrinhos das crianças. Constatou-se que 10% dos noivos do período de 1890 a 1930 eram imigrantes e, destes, 9% eram italianos. O 1% restante era composto de portugueses, espanhóis, sírios, açorianos, franceses, egípcios e nativos das Ilhas Canárias.

Observou-se que um contingente significativo de habitantes de Leopoldina carecia de um estudo melhor sobre suas vidas e importância para o município. E não se tinha notícia de qualquer movimento permanente no sentido de manter viva a memória daqueles conterrâneos por adoção.

Descobriu-se que os próprios descendentes haviam perdido a lembrança de muitos detalhes sobre a trajetória de seus antepassados, o que demandou um cuidadoso levantamento de fontes que pudessem comprovar ou corrigir o que era senso comum.

Assim, as primeiras informações foram organizadas em 1994 e começaram a ser publicadas cinco anos depois, após documentadas em outras fontes.

E desde então, contar a história do indivíduo para se chegar à da cidade passou a ser o carro de primeira classe deste imaginário Trem de História. Desde o começo das primeiras viagens. Desde o início da pesquisa sobre a imigração em Leopoldina, quando se observou que o esquecimento da história da cidade era favorecido pela falta de elementos que alimentassem a memória coletiva.

Conforme ensina Le Goff, “o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado”, mas os “materiais de memória”, ou seja, os monumentos e os documentos. Para o autor francês, “monumento é tudo aquilo que pode evocar o passado” e o interesse da memória coletiva que se desloca da história dos grandes homens e dos acontecimentos de impacto geral para aquilo que diz respeito mais de perto à coletividade.

Apreendidos estes ensinamentos, para alimentar a memória dos leopoldinenses, trazendo-lhes de volta a trajetória dos conterrâneos que aqui viveram na época analisada, entendeu-se necessário oferecer-lhes instrumentos adequados. Razão pela qual foi encaminhada em 2008, para a Câmara Municipal de Leopoldina, uma sugestão para nomear como “Caminho do Imigrante” parte do trajeto que eles faziam quando, de seus lotes na Colônia Agrícola da Constança demandavam a Igrejinha de Santo Antônio e a Casa Timbiras. Uma forma simples e de pequeno custo para perpetuar a gratidão a estes bravos. O que finalmente, no dia 10 de outubro de 2017, mereceu aprovação pela Câmara Municipal. Desta forma, mais um Monumento de Memória veio se juntar ao que foi construído a partir de 23.10.99, quando os autores da pesquisa começaram a publicar, na Gazeta de Leopoldina, uma série de artigos sobre a Colônia Agrícola da Constança.

Na verdade a ideia destes artigos havia tomado forma um ano antes, na edição de nov/dez 1998 do jornal Equipe, a primeira tentativa de levar ao conhecimento dos leitores um pouco da história da Colônia Agrícola da Constança e da sua parte que forma hoje o Bairro Boa Sorte. O objetivo era relembrar a importância dos imigrantes italianos para Leopoldina e o grande exemplo deixado por esta iniciativa de distribuição de terras. A partir daí, foram publicados 13 artigos na Gazeta e 79 no Jornal Leopoldinense, formando um grande conjunto de informações sobre os imigrantes que viviam em Leopoldina entre 1880 e 1930.

Da mesma forma, por ocasião das comemorações do Centenário da Colônia Agrícola da Constança e dos 130 anos de Imigração Italiana em Leopoldina, em abril de 2010, falou-se na inclusão, no calendário comemorativo da cidade, do dia 21 de fevereiro, Dia Nacional do Imigrante Italiano, criado pela Lei Federal nº 11.687, de 02.05.2008. Ideia que, ao que parece, não sensibilizou os administradores municipais. Mas este ano foi adotada pela ACIL, com uma bela festa em fevereiro.

Com a inauguração do Centro Cultural Mauro de Almeida Pereira, em julho de 2016, mais um Monumento se concretizou através de coleção de fotografias, obtidas no decorrer da pesquisa, que foram entregues para a Superintendente de Cultura, professora Amanda Almeida, e foram reproduzidas em sala daquele importante equipamento cultural leopoldinense.

Agora, com o sentido de aprimorar o conhecimento adquirido, a pesquisa sobre os imigrantes continua em outro patamar. E para alegria dos autores, n’alguns pontos da cidade notam-se embrionários movimentos familiares e sociais no sentido de se valorizar o tema “imigração italiana”, dando a devida importância aos descendentes e preservando o pouco da lembrança que ainda resta dos primeiros que chegaram ao município.

E é muito bom que seja assim, para que mais adiante se possa continuar a contar a história deles e, por via de consequência a de Leopoldina que, entende-se melhor agora, não é apenas a lenda do caldeirão de Feijão Cru.

No mais, parabéns descendentes dos Imigrantes que ajudam a construir uma Leopoldina cada vez melhor para todos.


Referência bibliográfica:

LE GOFF, Jacques. História e Memória. 5 ed. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003. p.525-541

RODRIGUES, José Luiz Machado e CANTONI, Nilza. Leopoldina: 2010. Disponível em <http://cantoni.pro.br/blog/2010/04/imigracao-em-leopoldina/>

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 353 no jornal Leopoldinense de 16 de abril de 2018

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