Garcia Rodrigues Paes e o Caminho Novo

Na primeira comunicação do encontro, Francisco Eduardo de Andrade buscou relacionar o espaço e o tempo, abordando a rota do Rio de Janeiro e as minas do ouro. Falando sobre Garcia Rodrigues Paes, considerado o ‘abridor’ do Caminho Novo, Andrade informou que ele ‘investiu nas promessas régias sobre os descobrimentos das minas de ouro e alegou ter sido o descobridor’, requerendo títulos, privilégios e honrarias. Além disso, atrelou as investidas de seu pai Fernão Dias Paes Leme ao descobrimento das minas, dizendo que eles ‘foram a causa primária’ do enriquecimento da Fazenda Real e responsáveis pela abertura de caminhos para as minas. Ou seja, ele, Garcia Paes, dizia-se a pessoa adequada para abrir nova rota ligando o Rio de Janeiro à região de mineração.

Andrade discorreu sobre várias atitudes de Garcia Paes, como o pedido que fez ao Rei de Portugal para abrir um caminho “junto ao rio Paraíba do Sul” e o pedido de privilégios sobre um determinado território, em recompensa aos serviços prestados. Tal espaço estaria limitado de um lado pela Serra dos Órgãos e de outro pela saída para os ‘Campos Gerais’, com dez léguas de testada.

Ao longo das negociação, Garcia Paes obteve o cargo de Guarda-Mor Geral das Minas. Entretanto, “o que Garcia procurava era aproveitar as amplas oportunidades advindas do trânsito comercial em volta do Rio de Janeiro, ou seja, do interior do Rio”. Naquele momento valorizava-se mais o acesso aos campos de criação de gado bovino, que depois se tornaram conhecidos como Campos Gerais, do que as minas de aluvião.

Francisco Andrade lembrou, também, que mais de 90 anos antes da descoberta do ouro, o Governador do Rio de Janeiro já mencionara a intenção de abrir o caminho para os Campos Gerais. E que Pedro Taques de Almeida citou tentativas dos moradores do Rio de fazer a obra, abrindo nova fronteira para a criação de gado.

Andrade faz questão de frisar que Caminho Novo significa um caminho recente, não uma novidade, mas um caminho mais moderno em relação ao Caminho Velho que saía de São Paulo. Em seus estudos o autor observou que já existiam ‘picadas’ na Serra dos Órgãos, abertas pelos índios. Portanto, o Caminho Novo, no sentido de uma nova forma de atingir o sertão desconhecido, é uma ilusão.

Na última década do século XVIII, “havia um verdadeiro confronto de topônimos”, os quais garantiriam a primazia da entrada, através da associação dos nomes dados aos locais, disse o palestrante. Frisando que já existia a intenção de abrir uma outra via, em substituição ao ‘Caminho Velho’ para daí auferir lucros com o trânsito comercial pelo local, Andrade mencionou outros bandeiristas que haviam solicitado autorização da Coroa para abrir Caminho que levasse ao sertão dos Campos Gerais, mas apenas a Garcia teria sido permitido tal empreitada. Entre as recompensas que todos pediam, estava a concessão de ‘vila na altura do Paraíba’.

Obtida a concessão, “Garcia Rodrigues Paes transferiu sua família para o Paraíba e montou uma grande fazenda para abastecer os viajantes que se dirigiam para as minas. Embora tivesse obtido o cargo de Guarda Mor Geral das Minas, nomeou um substituto para o seu lugar.” Estaria, portanto, muito mais interessado no ‘negócio de ocasião’ que era o Caminho Novo. A prática de nomear substituto tornou-se comum posteriormente.

Nesta primeira comunicação do Encontro, o professor Francisco Andrade nos mostrou que ‘caminhar é a oportunidade de descobrir o que a terra esconde’ e que a descoberta das minas foi uma decorrência do trânsito e não que o ‘descobrimento do ouro teria produzido o caminho. Pelo contrário, as minas é que são resultados dos caminhos’.  O Caminho Novo representou muito mais do que uma via de acesso às minas, com destaque para a formação de roças para produção dos gêneros vendidos aos caminhantes que por ali passavam. 

Resta-nos a indicação do livro:
ANDRADE, Francisco Eduardo de. A Invenção de Minas Gerais. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. 

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