Família Cantoni

Família Cantoni Carolina Vespignani, Emília Cantoni, João Cantoni e Giuseppe Cantoni em fotografia do início do século XX.

Pesquisar a genealogia da família Cantoni trouxe informações que se tornaram fundamentais para um projeto iniciado alguns anos depois. Tantas foram as dificuldades iniciais que a busca de soluções resultou na construção de um conhecimento importante para compreender a imigração em Leopoldina e, por consequência, a História da Colônia Agrícola da Constança, cujo estudo foi esboçado em 1994.

Ainda na década de 1980, uma entrevista com Emília Cantoni foi ao mesmo tempo rica e intimidante. Planejada para ser realizada segundo o modelo teórico de entrevista não estruturada, foi a primeira experiência formal na aplicação do método para obtenção de dados genealógicos. Considerando que os membros da pequena família eram conhecidos e que a matriarca contava mais de oitenta anos de idade, além do equipamento de gravação e de uma conversa inicial para o convite, na preparação foram listados alguns tópicos que permitissem manter o foco no objetivo proposto.

O primeiro desafio foi conduzir o processo de maneira que a entrevistada ficasse  livre para abordar assuntos paralelos, pois dali poderiam surgir pistas para a busca de fontes que documentassem a trajetória que se pretendia pesquisar. No entanto, era preciso atenção para cada nova informação que necessitasse esclarecimento adicional, sem que a interposição de uma pergunta fizesse “perder o fio da meada”. A transcrição das falas reforçou a impressão de que seria extremamente difícil realizar a pesquisa por absoluta falta de conhecimento do contexto em que os fatos ocorreram.

O resultado que se apresentará a seguir começou a ser escrito alguns anos depois da entrevista por ter sido necessário, antes, estudar diversos assuntos e refazer algumas perguntas. Infelizmente a entrevistada faleceu antes que se iniciasse a escrita. E depois da primeira edição, em 1997, novas informações foram encontradas e inseridas no trabalho.

Nossos agradecimentos a

  • Carlos Cruz, do Cartório de Registro Civil do 1º Subdistrito de Juiz de Fora, pela pesquisa dos registros civis e de óbito;
  • João Vianey Belgo, um amigo de Juiz de Fora, que nos ajudou a localizar o batismo de Emília Cantoni; e,
  • Valderez Rosa Garcia, uma amiga de Belo Horizonte, que encontrou o registro da família no Arquivo Público Mineiro.

Embora sem podermos citar seus nomes, devemos agradecimentos a incontáveis pessoas que nos atenderam nas secretarias paroquiais, cartórios e prefeituras de Matias Barbosa, Recreio, Bicas e Juiz de Fora entre 1991 e 1997. Por falta de experiência, escaneamos os cadernos de anotações da época e salvamos em formato que não foi reconhecido quando preparamos a primeira edição deste trabalho.


A Chegada

Emília Cantoni nunca soube que seu avô paterno também veio para o Brasil, nem que sua família passou por Guarará, pois somente depois de sua morte conseguimos fazer buscas no Arquivo Público Mineiro e obter a Certidão de Desembarque. Assim, descobrimos que o núcleo que passou ao Brasil procedia de Lugo di Ravenna, tendo desembarcado no Porto do Rio de Janeiro, em agosto de 1896, procedente de Genova.

No dia 22.08.1896 deram entrada na Hospedaria de Imigrantes de Juiz de Fora, tendo dali saído a 25 do mesmo mês, com destino a Espírito Santo do Mar de Espanha, atual Guarará, contratados por Joaquim Fabiano Nogueira Alves. Além de Giuseppe e da esposa Carolina Vespignani, veio também Giovanni Cantoni, então com 73 anos, pai de Giuseppe.

Praticamente nada se conseguiu apurar em Guarará por falta de arquivos organizados e de acesso a fontes cartorárias, paroquiais e da administração municipal. Mesmo que desde a primeira visita ao município tenha sido percebida a dificuldade em conseguir informações, outras tentativas foram realizadas nos vinte anos seguintes. O que se conseguiu das investigações em outras fontes foi apenas descobrir usuários dos sobrenomes Cantoni e Vespignani que haviam se estabelecido em cidades próximas.

Por não tê-los mencionado, Emília Cantoni não deve ter tido conhecimento da existência dos parentes que encontramos nos registros de entrada no Brasil. Um dos grupos era chefiado por Giovanni Cantoni, nascido por volta de 1857, sua esposa Ottavia e seis filhos menores. Chegaram em 1897 e foram para Matias Barbosa, contratados por Antonio Ferreira Monteiro da Silva. Outro grupo era composto por Giacomo Vespignani e suas filhas Maria Assunta e Colomba Maria, chegados em 1896 e contratados  por Francisco Bastos José de Campos para trabalharem em Bicas. E o grupo chefiado por Francesco Vespignani, que chegou em 1897 com a mulher Virginia Linari e os filhos Anna, Antonio, Giuseppina e Igino, saiu da hospedaria sob contrato com Teofilo Barbosa da Fonseca para trabalhar em Recreio, na época distrito de Leopoldina.


Os primeiros tempos

Segundo Emília Cantoni, seus pais teriam trabalhado na Fazenda São Mateus, entre as cidades mineiras de Juiz de Fora e Matias Barbosa. Tal passagem pela conhecida propriedade não foi confirmada nas fontes disponíveis. Tampouco encontramos o óbito de Giovanni Cantoni, que deve ter falecido antes do nascimento da neta.

Emília informou ter sido batizada na Igreja de Santa Terezinha, em Juiz de Fora, e seus documentos davam como 1902 o ano de seu nascimento. Depois de alguns anos de busca, nosso amigo Vianey localizou seu batismo na Igreja da Glória, em Juiz de Fora, no dia 27 de novembro de 1901. A partir daí, foi mais fácil encontrar seus registros civis. Sim, no plural mesmo. Porque seu pai a registrou um dia após o nascimento mas a certidão deve ter se perdido. Em 1932, preparando documentos para o casamento civil, foi realizado novo registro, onde consta que Emília nasceu em 1902. Ressalte-se que o casamento religioso dela foi realizado em 1924, provavelmente em Juiz de Fora, e o casamento civil em Matias Barbosa.  E embora tenhamos uma antiga certidão de casamento, emitida pelo Cartório de Matias Barbosa, não conseguimos encontrar o livro em que foi feito o assentamento.

Por ocasião do nascimento de Emília, a família residia na localidade denominada “Tapera”, em Juiz de Fora. Segundo apuramos, na virada do século era reduto de imigrantes que abandonavam a lavoura.

O segundo filho do casal Giuseppe e Carolina recebeu o nome de João, como o avô paterno. Nasceu em 1905 e foi batizado em Matias Barbosa. Casou-se em Piraúba, cidade próxima a Juiz de Fora.

Carolina Vespignani morreu queimada em 1912, deixando aos pequenos órfãos apenas uma vaga lembrança de sua figura. Nenhum documento, nenhuma carta.

Giuseppe morreu em 1917. Seus tímidos filhos, assustados, não participaram do processo burocrático de seu enterro. Sabiam apenas informar que a morte ocorreu na Santa Casa de Misericórdia, em Juiz de Fora. E falavam de uma segunda esposa, cujo nome foi esquecido.

Nas poucas lembranças dos filhos, o casal de italianos teria sido escravizado na Fazenda São Mateus e tão logo pôde, escapou dali. Sem dinheiro, sem parentes, sem qualquer condição de sobrevivência, reuniram forças para plantar verduras no terreiro de uma casa que alugaram na Grota dos Macacos, em Juiz de Fora.

Com a morte dos pais, os filhos foram morar “de favor” na casa de pessoas tão humildes quanto eles. E claro que logo arranjaram jeito de trabalhar. João, na Fiação e Tecelagem Antônio Meurer.

Emília se tornou ajudante de uma costureira que exigia permanecer toda a semana em sua casa. A tímida Emília não suportava a saudade do irmão que era toda a sua família. Por isto, logo depois estava trabalhando na Companhia Fiação e Tecelagem Moraes Sarmento.

Os dois filhos do casal de italianos deram origem a uma família brasileira bem pequena. A falta de informações sobre os Cantoni e o conhecimento da origem humilde, poderiam se constituir em motivo suficiente para caírem no esquecimento. Entretanto, nós pensamos diferente. Buscamos contar sua história para que permaneça na memória dos descendentes.


SUMÁRIO
Análise dos Nomes de Família
Ravenna, província de origem
Genealogia

3ª edição do trabalho publicado em 1997.

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