Procuração de um casal de italianos

Documento extraído do Livro do Cartório de Notas de Pirapetinga, MG, relativo ao período 12.1879 a 07.1880, folhas 29 verso e 30.

Procuração de Giuseppe Vincenzo Mercadante e sua mulher, Marina Dause, para que Miguel Delvick os represente na Italia, autorizando o casamento de seu filho Antonio Mercadante.

Procuração de um casal de imigrantes italianos

Transcrição:

Procuração bastante que fazem José Mercadante e sua mulher Dona Marianna Dause como abaixo se declara. Saibão quantos este publico instrumento de Procuração bastante virem que no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oito centos e oitenta aos dose dias do mes de Março do dito anno, nesta Freguesia de Santa Anna do Pirapetinga, termo de Leopoldina Provincia de Minas em meu cartorio perante mim escrivão de Paz deste Freguesia comparecerão como Outhorgantes José Mercadante e sua mulher Dona Marianna Dause moradores deste Freguesia e reconhecidos de mim Escrivão e das duas testemunhas ao diante assignadas ao que dou fé; perante ao quaes por elles me foi dito que nomeavão seu bastante Procurador na Italia a Mighel Detrick para por elles Outhorgantes passar e assignar conseção e licença que elles Outhorgantes consedem para seu filho Antonio Mercadante casar-se com Dona Rosa Demark filha de Vicente Dimak e Francisca Ragaon por ser muito de suas vontades para que lhe consede os poderes que forem precisos. Assim o disserão ao que dou fé; e me pedirão este instrumento que lhe li aceitarão e por elles Outhorgantes não saberem escrever pedirão a Antonio Botelho de Lima que a seus rogos asssignasse com as testemunhas presentes e abaixo assignadas, deste Freguesia e reconhecidas de mim José Victor Ramos, escrivão que a escrevi e assigno em publico e raso. Em ttº de verd. José Victor Ramos Antonio Botelho de Lima Testª Serafim Alves da Costa Francisco Jose Pires

Acrescente-se que o novo casal posteriormente passou ao Brasil, residindo no distrito de Itapiruçu, por volta de 1887, conforme se vê no livro de Notas do Cartório daquele distrito relativo ao ano de 1886, folhas 7 e verso, quando passam procuração para serem representados em batismo a ser realizado em São Paulo.

Além disso, conforme o Alistamento Eleitoral de Leopoldina de 1892, o casal continuava residindo no município. Por este documento apuramos que o nome completo do pai de Antonio Mercadante era Giuseppe Vicenzo Mercadante.

FONTE: Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina

Nossa Senhora das Dores do Monte Alegre do Rio Pomba

Segundo Joaquim Ribeiro Costa, Itapiruçu significa “a grande pedra elevada ou empinada”, resultado da aglutinação de “itá-apira”, ou pedra empinada e “açu”, grande. O “distrito policial de Tapirussú” conforme consta em sua lei de criação pertencia ao município de Leopoldina e permaneceria com as “actuaes divisas”. Ou seja, em 1883 já existia um povoado com o nome de Tapirussú.

No início de 2000 um visitante do site escreveu pedindo informações sobre Itapiruçu, especialmente sobre a família Vieira Pires. Informei que não tinha estudos sobre famílias da região, embora meu grande interesse pelo antigo distrito do Tapiruçu, terra onde viveram alguns de meus antepassados. Do sobrenome citado eu conhecia apenas um nome: Manoel José Vieira Pires, Solicitador em Palma, por volta de 1890. Não era o nome procurado pelo correspondente. Por conta disso trocamos diversas mensagens até que não mais recebi respostas. Daquele contacto ficou a vontade de conhecer a história do lugar.

Itapiruçu, distrito de Palma

Segundo Joaquim Ribeiro Costa[i], Itapiruçu significa “a grande pedra elevada ou empinada”, resultado da aglutinação de “itá-apira”, ou pedra empinada e “açu”, grande. O “distrito policial de Tapirussú” conforme consta em sua lei de criação[ii] pertencia ao município de Leopoldina e permaneceria com as “actuaes divisas”. Ou seja, em 1883 já existia um povoado com o nome de Tapirussú.

De fato podemos comprovar que a antiga Capela das Dores do Monte Alegre do Rio Pomba já é citada em livros paroquiais de Conceição da Boa Vista em data bem anterior à criação do distrito policial. Como exemplo citamos o casamento de Antonio Vicente Ferreira e Ana José Rodriguez, realizado naquela capela no dia 10 de abril de 1875.[iii] Prosseguindo na busca de informações sobre a construção da Igreja de Itapiruçu nos deparamos com dados que podem interessar a todo estudioso da história da região.

Segundo a memória familiar o casal Antonio Vicente Ferreira e Ana José Rodriguez vivia no território do distrito de Itapiruçu desde o nascimento. Antonio Vicente nasceu a 13 de junho de 1862 e foi batizado no dia 21 de junho[iv] do mesmo ano. Ana José nasceu no dia 1º de agosto de 1858 e foi batizada no dia 19 de setembro[v] seguinte. Os pais de ambos procediam da região da Serra da Ibitipoca e migraram para a zona da mata por volta de 1830. Vejamos pois, alguns detalhes sobre estas famílias.

José Rodrigues Carneiro Ferreira, também conhecido por José Rodrigues Carneiro de Bem, descendia de Manoel José de Bem e Tereza Maria de Jesus, ela filha da ilhoa Maria Teresa de Jesus e de Inácio Franco. Migrado para a zona da mata ainda criança, radicou-se no território do que veio a se constituir na Freguesia de Conceição da Boa Vista, onde se casou com Mariana Esméria de Sena, filha de João Gualberto Ferreira Brito e Maria Venância de Almeida. José e Mariana tiveram, pelo menos, 4 filhos batizados no Curato de Conceição da Boa Vista. O segundo destes filhos foi Ana José Rodriguez.

Vicente Rodrigues Ferreira era filho de  Bento Rodrigues Gomes e Ana Joaquina de Jesus, tendo migrado de Santana do Garambeo para a zona da mata por volta de 1830. Em Conceição da Boa Vista casou-se com sua prima Luciana Francelina da Anunciação, filha de Antônio Rodrigues Gomes e Mariana Bernardina de São José. O novo casal residia na margem direita do Rio Pomba, a meio caminho entre São Joaquim (hoje Angaturama) e a atual divisa entre Palma e Santo Antônio de Pádua. É ainda a memória familiar que dá notícia da presença de eclesiásticos na fazenda onde residiam, nas diversas visitações realizadas pelo Bispado do Rio de Janeiro àquelas terras. Ainda não localizamos documentos sobre tais visitações, embora alguns autores as mencionem e citem como fonte o Arquivo da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Entre outras referências, Oswaldo Ribeiro[vi] informa que em 1851 Frei Bento, de Santo Antônio de Pádua, obteve provisão para a Capela de São Francisco da Capivara, atualmente Palma. Parece-nos que para atingir seu destino o padre teria forçosamente que passar por Itapiruçu. E provavelmente também visitasse alguns fazendeiros vizinhos ao casal que, segundo contam, seriam os doadores do patrimônio da Capela de Itapiruçu e dos quais falaremos adiante. Importa registrar ainda que os batismos dos 10 filhos de Vicente e Luciana podem ser encontrados nos livros paroquiais de Miracema, Santo Antônio de Pádua e Conceição da Boa Vista. O sétimo destes filhos foi Antônio Vicente Ferreira.

Analisando os mais diferentes documentos a que tivemos acesso, observamos que o antigo distrito de Tapiruçu pode ter ficado relegado pela autoridades em função das disputas ocorridas entre os Minas e Rio de Janeiro. Ou, hipótese levantada por um de nossos correspondentes, ter sido criado justamente para permitir melhor controle do território disputado. É sabido que não foi sem traumas que o atual município de Palma conseguiu firmar-se, havendo registros de desentendimentos do mais variado calibre com os povoados vizinhos. Entre outros transcrevemos parte de uma ata eleitoral que demonstra a dúvida existente entre os moradores do lugar. [vii]

“… Deu o Presidente conhecimento da Portaria do Governo que em seguida vai transcrita. Palácio da Presidência da Província de Minas Gerais Ouro Preto em 13 de Agosto de 1866. 1ª Sessão. Declaro a vossamercê para a devida inteligência e publicidade que essa paroquia criada pela Lei nº 1239 de 1864 deve dar na proxima Eleição se a esse tempo já tiver sido Canonicamente provida, três Eleitores para o território de que se compõe abrange cento e setenta e sete votantes e foi desmembrada da Paróquia da Meia Pataca que deu quinze Eleitores na Legislatura que vai findar e qualificou naquele ano novecentos e cinquenta e oito votantes. Conquanto a Lei citada anexa a essa Freguesia do Distrito do Laranjal devem os votantes nele compreendidos concorrer na Eleição na Freguesia da Meia Pataca, visto pertencer esta e o dito distrito ao Bispado de Mariana, e essa nova Freguesia a do Rio de Janeiro. … Joaquim José de Santa’Ana. Snr. Juiz de Paz mais votado da Paróquia do Capivara….”

Cartão de Visitas

Temos tentado levantar documentos sobre a doação do terreno onde foi construída a primeira Capela de Nossa Senhora das Dores do Monte Alegre do Rio Pomba, com vistas a confirmar ou não as hipóteses formuladas a partir da memória familiar. Consta que o casal Antonio Vicente e Ana José tinha como vizinhos as famílias Amorim, Felix, Melo, Menezes e Vieira. Curiosamente encontramos, dentro do Breviário da Missa que pertenceu a uma nora de Antonio Vicente e Ana José, o cartão de visitas acima, de Manoel José Vieira Pires.

Verso do Cartão de Visitas

Como se pode observar, no verso do cartão é feito um pedido de cópia da escritura de compra de terras realizada pelo Padre Manoel Martins Lopes, em março de 1890. Sabendo que a Capela existia desde pelo menos 1875, procuramos os livros do Cartório de Notas de Itapiruçu em busca de esclarecimentos. Infelizmente só pudemos encontrar um deles, do qual extraímos as seguintes informações:

–         21.03.1887 o Padre Manoel Lopes Martins compra uma sorte de terras anexas ao Patrimônio de Nossa Senhora das Dores [viii]. Vendedor: Antônio José de Menezes.

–         06.04.1887 o mesmo Padre compra terras no Porto das Madeiras[ix]. Vendedores: Francisco Joaquim dos Reis e sua mulher Virgínia Maria da Conceição.

Os vizinhos das terras compradas em março eram Francisco Joaquim dos Reis, José Francisco do Amorim, herdeiros de Luiz de Souza Melo e herdeiros de Nicolau Antonio Lombardo. A compra de abril foi de 2,5 alqueires na divisa com Balbino Teixeira Ramos, Rio Pomba, José Francisco de Amorim, Serafim José da Costa e a Fazenda Cachoeira Alegre. Em outra escritura do mesmo livro, folhas 37, vimos que Balbino Teixeira Ramos e sua mulher Vitalina Maria de Jesus haviam comprado terras de Francisco Joaquim dos Reis no Porto das Madeiras, e as revendem em setembro de 1887. Na escritura consta que os vizinhos eram José Francisco de Amorim, o Rio Pomba, herdeiros de Nicolau Antonio Lombardo e o patrimônio de Nossa Senhora das Dores do Monte Alegre do Rio Pomba.

Portanto, as famílias mencionadas nas memórias familiares estavam realmente presentes no distrito de Itapiruçu na época em que ali viveram Antonio Vicente Ferreira e Ana José Rodriguez. As compras realizadas pelo Padre Manoel Lopes Martins parecem indicar que ele pretendia ampliar as posses da Igreja, deixando claro que já havia um patrimônio regularmente inscrito. Resta-nos encontrar a doação inicial e assim nos aproximarmos da data em que foi construída a primeira Capela de Nossa Senhora das Dores do Monte Alegre do Rio Pomba.


Fontes:

[i] in Toponímia de Minas Gerais, Editora Itatiaia Ltda, 1993, Belo Horizonte, MG, página 262

[ii] Lei n. 3171 de 18.10.1883

[iii] Primeiro Livro de casamentos da Igreja de Conceição da Boa Vista, folhas 70 verso

[iv] Transcrição do Livro de Batismos de Conceição da Boa Vista no Livro 1 de batismos da Matriz de São Sebastião de Leopoldina, folhas 86, termo 464

[v] idem, folhas 38, termo 201

[vi] in História de Santo Antônio de Pádua, Edição do Autor em 1999, página 23

[vii] in Livro de Atas da Freguesia da Capivara, Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina, folhas 1 e verso

[viii] in Livro de Notas do Distrito de Tapirussu, Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina, folhas 9 verso

[ix] idem, folhas 16 verso

Três Jovens do Concelho de Óbidos

Pesquisando a origem de Antônio de Almeida Ramos, na tentativa de descobrir um pouco sobre sua vida antes de passar ao Brasil, entramos em contacto com o vigário da Freguesia do Espírito Santo do Landal, Freguesia do Espírito Santo, Concelho de Óbidos, Lisboa, Portugal.

Por indicação do Padre, passamos a trocar correspondência com moradora de Caldas da Rainha, autora de um livro sobre a Câmara de Oliveira do Bairro e outro sobre a Freguesia do Espírito Santo do Landal. O que se verá a seguir é um resumo das informações recolhidas até agosto de 2001.

Por volta de 1740 passaram ao Brasil três jovens portugueses, nascidos na Freguesia do Espírito Santo do Landal, então Termo e Concelho de Óbidos, hoje Concelho de Caldas da Rainha. Foram eles:

1 – Antonio de Almeida Ramos, nascido entre 1722 e 1737;

2 – Agostinho de Almeida Ramos, nascido entre 1700 e 1730;

3 – Francisco Farto de Almeida, nascido entre 1715 e 1735.

Os dois últimos eram filhos de Francisco Farto e Maria Almeida, parentes próximos. O pai do primeiro, nosso biografado, era primo e cunhado de Francisco Farto, pois era irmão de Maria Almeida. A mãe de nosso biografado, Teresa Maria, era também parente de Francisco Farto.

A pesquisadora portuguesa escreveu:

A Freguesia do Espírito Santo do Landal é metade, a nascente, da grande freguesia de São Silvestre, a partir de 1147 dividida entre três Hospitalários e Cavaleiros Francos (todos cruzados), que ficaram na metade Poente, a que se chamou “Dos Francos”.

Landal, onde havia um curato, etimologicamente vem de “terra landeira”, ou montado de sobreiros espontâneos (nascidicos), cujo frunto é landa – ou bolota. E só teve a sua independência paroquial em princípios do século XVI. Desanexou-o de São Silvestre dos Francos um Comendador de Malta, residente, de apelido Abreu Peixoto.

Landal foi couto, que começava onde acabavam os coutos de Alcobaça – e ia até ao termo do território de Óbidos.

Desde o início, era cabeça desta Comenda dos Hospitalários de São João Batista de Jerusalém, sediada no Landal de Óbidos, Nossa Senhora de Todo o Mundo, ou do Ar – que é a padroeira da aviação portuguesa (e quiçá mundial), embora ainda não reconhecida como tal.

Por sua vez, esta Comenda era cabeça das Comendas da mesma ordem, situadas em Torres Vedras, Caixaria, Leiria, Torres Novas e Alenquer, cujos Tombos se guardavam no Landal.

Os seus habitantes formavam a 4ª Companhia de capitão e subalternos. Entre eles, destacam-se:

– Almeidas – ainda hoje há muitos. Num tombo dado às terras desta Comenda, em 1742, fala-se do seu vigário, Reverendo Frei Domingos de Almeida. Também o procurador da Comenda se chamava João de Almeida.

– Ramos – No inventário da ermida de Nossa Senhora do Rosário, do lugar dos Ameais, cita-se o seu fundador, Capitão de Malta Pedro Manoel Ramos. Em 1742, o seu administrador deve ser um descendente: João Manoel Ramos.

– Maria Teresa – assim se chamavam a mulher do Capitão Alexandre de Abreu Velho Coutinho e uma sua sobrinha, que faleceu no Landal – isto já em 1750

Tudo acabou em 1834! Depois, a sede da freguesia, o lugar do Landal, foi-se despovoando pouco a pouco – e hoje poucos habitantes tem. Os habitantes da freguesia rondam os 1800 a 2000.

Nossa correspondente fez diversos contactos com o Arquivo Nacional na Torre do Tombo, não tendo tido sucesso nas buscas de demais documentos. Fez também um “Aviso aos Moradores”, que foi colocado na Igreja do Espírito Santo, pedindo aos paroquianos que enviassem informações a respeito dos três jovens portugueses e suas famílias. Além disso, ela guarda uma cópia do tombo dado em 1742 a uma parte das terras da Comenda e um manuscrito de seu próprio pai, com dados dos livros antigos, antes de os retirarem em 1834, para a Provedoria de Torres Vedras.

Eis os nomes de Capitães da Ordem de Malta por ela apurados:

– Manoel Ramos – casou, em 1694, com D. Victoria Maria de Seixas;

– Pedro Manoel Ramos – que mandou erigir a ermida dos Ameais;

– Alexandre de Abreu Velho Coutinho – casou, em 1750, com D. Teresa Maria de Seixas Abreu e Oliveira;

– João Rebelo – falecido em 1769;

– Domingos Rodrigues de Oliveira – falecido em 1796;

– Correia Fialho Lobo da Silveira – família conhecida de Alenquer, freguesia próxima;

– Antonio Manoel de Seixas, que foi testemunha no tombo dado a algumas terras da Comenda, em 1742.

Promotores do tombo:

– Juiz, Dr. Félix Francisco da Silva;

– Vigário, Frei Domingos de Almeida;

– Escrivão, José Leonardo de Seixas;

– Delegado da Comenda, João Almeida;

– Porteiro, Antonio dos Reis;

– Testemunhas, Capitão de Malta Antonio Manoel de Seixas e Frei Doutor João de Abreu e Oliveira (que , em 1759, veio a ser Vigário da Igreja Paroquial do Espírito Santo do Landal

Escreve ainda a pesquisadora:

Em 1742 não há Comendador residente no Landal. O Comendador era o Venerando Bailio Frei Fernando Correia de Lacerda, de Leca do Bailio. Não havendo Comendador residente é aqui que aparece, em 1742, o Procurador da Comenda João de Almeida. Era ele que, por natureza do cargo, se ocupava da administração directa e da contabilidade da Comenda da Ordem de Malta na Freguesia do Espírito Santo do Landal. Nada da confusões: o tombo é iniciado por um inventário à Igreja Paroquial e às capelas e, em 1742, não há referência alguma à Irmandade do Santíssimo Sacramento, cuja alusão só encontro em 1759, e sem grande relevo.

Reparo que há muitas repetições de apelidos (Seixas, Ramos, Almeida), sendo bem natural que os que de fora iam, por lá se fixassem durante gerações. Assim, deve ter havido algum Comendador residente, um Frei qualquer coisa Almeida, cujos parentes por lá ficaram e ocuparam vários cargos. E é natural que, mais tarde, um neto ou bisneto do tal Comendador Almeida, tivesse muita honra e prosápia (especialmente sendo um rapagote novo) na sua ascendência e dela falassse por forma que os seus conhecidos lhe chamassem “o Comendador”.

Sobre os motivos da viagem dos três primos ao Brasil, lembro-lhe que no fim do reinado de D. Pedro II se descobriram, no Brasil, ricas minas de oiro e diamantes. Foi no tempo de seu filho, D. João V (1706-1750), que entraram em exploração. Esta foi a época em que embarcaram para o Brasil três moços da freguesia do Espírito Santo do Landal.

Assim, os três, sem mais nem menos?! Não. Eles sabiam ao que iam, o que os esperava. Alguém os chamou ou os mandou ir. Também convém não esquecer que a extinta Ordem do Templo se tornou, por obra de D. Dinis, Ordem de Cristo e teve à frente o Infante D. Henrique (1394-1460). Além disso, certo remanescente da O. do Templo reverteu para os então Hospitalários – O. de Malta. Sabe-se que os Templários há muito conheciam o Brasil – até antes de P. Alvares Cabral (100 anos antes), já os mesmos templários conheciam e praticavam essas rotas, segundo lendas quase históricas.

De uma maneira ou de outra, deve ter havido um Frei da O. de Malta que aliciou os moços para uma aventura que lhes traria fortuna certa. De outra forma, os três moços de famílias mais ou menos abastadas (ligadas à Ordem, que era riquíssima), não iam à tôa por esses mares fora, sem uma certeza a esperá-los do lado de lá. Sim, porque não creio que todos eles tivessem cometido crimes que os obrigassem a fugir.

Demais, D. João V confirmou os poderes e regalias da O. de Malta em 1728. Estava, portanto, tudo organizado para que o futuro dos moços atingisse o nível que atingiu. E sabemos que esses títulos obtidos implicam grandes contrapartidas – esforço, valor e… muito dinheiro.

Outros dados fornecidos pela pesquisadora portuguesa referem-se à população da Freguesia do Espírito Santo do Landal: 1527 – 135 moradores; 1759 – 263 moradores; 1960 – 1483 moradores; 1981 – 1331 moradores; 1999 – 1800 moradores.

Desta forma, embora sem termos descoberto muitos dados sobre os três jovens, pudemos conhecer um pouco sobre a região de origem de Antonio de Almeida Ramos, Agostinho de Almeida Ramos e Francisco Farto de Almeida.

Já nos arquivos brasileiros conseguimos verificar a presença dos nomes destes portugueses em diversas fontes. Numa delas, o Abecedário dos Moradores da Comarca do Rio das Mortes, documento da Coleção Casa dos Contos arquivado na Biblioteca Nacional, levantamos os moradores da Comarca que, de alguma forma, se vinculam aos povoadores de Leopoldina.

Esclareçamos que este documento é um conjunto de cinco cadernos tamanho ofício sem pauta, onde são listados os moradores de cada região da comarca. Até o momento não foi possível, a nenhum historiador, especialista ou técnico em grafoscopia, identificar a data em que a listagem foi organizada. No entanto, considerando que o primeiro caderno informa que seu autor foi Joaquim Silvério dos Reis, e sabendo que tal personagem arrematou o contrato das entradas entre 1782 e 1784, tendo permanecido no controle da arrecadação até 1792, pode-se inferir que ali constam os pagantes de tributos desta época.

Também não se tem notícia de qual foi a fonte utilizada para a organização da listagem. Admite-se que, ao tomar posse, Silvério dos Reis utilizou-se de livros de controle de arrecadação do quinto do ouro e deles extraiu os nomes dos que haviam sido fiscalizados no período próximo precedente. Acrescente-se que alguns nomes poderão ter sido acrescentados com base no movimento do Registro entre 1782 e 1792. Ao lado de cada nome é informado um número, sem que alguém até então tenha descoberto a que se refere. Há os que aventam a hipótese de ser o número da página onde foi efetuado o lançamento do débito daquele morador. Os mais altos algarismos são inferiores ao número total de páginas que habitualmente compunham os livros de registro então utilizados.

Nestes “cadernos” apuramos que, entre os moradores do Caminho Novo estavam os seguintes personagens, todos com descendentes em Leopoldina: Antonio d’Almeida Ramos, Antonio Joaquim de Ávila, Antonio Roiz da Fonseca, Antonio Roiz Gomes, Bernardino Coelho Gomes, Domingos Gonçalves Pereira Chaves, Domingos Roiz Chaves, Francisco Xavier da Fonseca, Joaquim José da Fonseca e Tomaz Ferreira de Aquino.

Sob o código I – 10, 6, 3, nº 4, sem menção ao autor e com caligrafia algo distinta do anterior, encontramos na Biblioteca Nacional a lista dos moradores do L4, como era então designada a região que tomava São João del Rey por sede. Neste caderno foram listados os moradores de São João del Rey, Lavras do Funil, São José do Rio das Mortes, Prado, Tamanduá, Borda do Campo, Caminho Novo do Mato, Santa Ana do Bambuí e Baependi. A organização é um pouco confusa, já que os moradores são divididos por seus locais de moradia e a ordem alfabética não é rigorosa. Numa análise um tanto superficial, localizamos apenas Felisberto da Silva residente em São José del Rey e dois moradores da Borda do Campo que nos interessam: Felix Gonçalves da Costa e Felix de Oliveira Braga.

E sob o código I – 10, 6, 3, nº 5, encontramos o caderno contendo as listas de moradores do L5 da Comarca do Rio das Mortes. Refere-se às localidades de Aiuruoca, Pouso Alto, Campanha do Rio Verde e Ouro Fino, Jacuí, Itajubá, Congonhas do Campo, Carijós e Itaverava. Para nossa surpresa, e sem que tivéssemos nos detido na análise cuidadosa dos nomes, na primeira página encontramos os moradores Agostinho de Almeida Ramos e Antonio Gonçalves da Costa, ambos de Aiuruoca.

Com o objetivo de a conferir o encontrado com outros documentos, pesquisamos a carta de Brás Álvares Antunes a Antonio Mendes da Costa, informando ter recebido a lista de 28 créditos do Registro do Caminho Novo e o envio da lista do Registro da Mantiqueira, de 06.10.1776. Em outra carta do mesmo remetente, endereçada a João Rodrigues de Macedo, há referência ao envio da lista de créditos do Caminho Novo, de 27.11.1777. Esta carta faz menção a um provável anexo, nomeado como “Lista 18, 24 credores”.  Infelizmente porém, não há notícias desta “Lista 18”.

Há uma série de outros documentos da Coleção Casa de Contos que poderão conter anexos como o citado na carta retro mencionada. Até que prossigamos neste assunto, deixamos registrada nossa impressão, tal qual o fizemos no competente livro de registros: os três jovens provenientes do Concelho de Óbidos aparecem entre os contribuintes registrados na segunda metade do século XVIII, bem como no Abecedário de Moradores da Comarca do Rio das Mortes.

Mas como era a região onde passaram a viver depois de deixar a terra natal?


Preparar a Mudança

Referências às impressões dos viajantes estrangeiros que estiveram em Minas no século XIX nos dão oportunidade de nos aproximarmos do pensamento vigente na época em que nossos ancestrais portugueses trilharam os caminhos da nossa terra. Quando publicamos o opúsculo que ora revisamos, havíamos consultado antigas edições dos relatos de John Mawe, Auguste de Saint-Hilaire, Jean Louis Agassiz e Richard Burton. Ao nos propormos a revisar nosso texto, buscamos edições mais recentes que pudessem, eventualmente, esclarecer pontos obscuros nas traduções consultadas. Além dos destaques da primeira edição, decidimos acrescentar trechos que nos passaram despercebidos na primeira leitura. Um deles é a descrição do tipo mineiro, segundo Burton (2001, p. 463):

O mineiro – no sentido do homem cujos antepassados, ou, pelo menos os pais, nasceram na região – é facilmente reconhecido, mesmo entre os brasileiros, e suas peculiaridades não podem ser explicadas “pela bazófia e pelo culto do dólar”. É um tipo alto, magro, ossudo, que, quando exagerado, representa nosso popular D. Quixote esguio e macilento. Não há necessidade do “batismo intelectual”, da inervação, vulgarmente chamado “sangue”. O arcabouço é musculoso e bem adequado à atividade; é reto como o do basco, e não semelhante ao do sargento instrutor e mesmo os trabalhadores não costumam curvá-lo, como nossos camponeses de ombros abaulados. O pescoço é comprido e a laringe proeminente; ao tórax freqüentemente falta espessura. Os quadris e a pelve são, em geral, estreitos; as juntas, punhos e calcanhares, finos, e as pernas, como acontece muitas vezes entre as raças latinas, não são proporcionais aos braços na força. A obesidade é rara, como é entre os verdadeiros persas; ocasionalmente aparece em homens de idade avançada e é considerada como diabetes nullo curabilis. O português, baixo, quadrado e robusto, ossudo e muscular, não é raro, contudo. […] Muitas das mulheres têm formas cheias e arredondadas, que chegam aos extremos mais tarde, tornando-as gordas, por vezes excessivamente. Não poucas possuem aquela beleza frágil, graciosa e delicada, que todos os estrangeiros notam nas cidades da União.

Assim como disséramos na primeira vez em que levamos a público este artigo, cremos ser dispensável entrar em detalhes antropométricos, já que muito do que se escreveu sobre nossos ancestrais é hoje contestado por novos estudos científicos. Parece-nos, entretanto, ainda não ter sido questionada a impressão de fisionomia séria do mineiro, um apreciador de exercícios físicos. Por outro lado, a idéia dos viajantes estrangeiros de que o mineiro tinha espírito nômade, sempre viajando em busca de novos locais a desbravar, suscita algumas reflexões ao nosso olhar, viventes da última metade do século XX.

Em todos os nossos escritos temos chamado a atenção para o risco de uma postura anacrônica, levando para a realidade dos nossos ancestrais a experiência adquirida em nossa própria estadia no planeta. Assim é que, muitas vezes, nossos interlocutores insistem em argumentar que os pioneiros abandonavam a casa dos pais porque ali faltava o pão. Não é, já o dissemos em várias oportunidades, a nossa opinião. Lendo os diários dos europeus que por aqui estiveram no século XIX, ficamos sabendo que o mineiro andava a cavalo desde tenra idade, apoiando apenas uma parte do pé no estribo porque acreditavam que assim a viagem seria menos cansativa. E qual o motivo de tantas viagens? Acreditamos que, na busca de suprimentos que tornassem mais fácil a vida em suas fazendas, o mineiro também se demorava em incursões verificadoras, expressão que criamos para significar as viagens que os fazendeiros faziam pelo interior das matas, seguindo caminhos indicados pelos tropeiros. Para os interessados, sugerimos nosso texto sobre Tropas e Tropeiros, em nosso Caderno 3: Os Moradores do Caminho Novo (CANTONI, 1976).

Um outro aspecto a considerar entre os hábitos de nossos antepassados, é a forma como se vestiam. Sabemos que o consumo exagerado de peças do vestuário, tão comum atualmente, bem longe está da realidade daqueles que povoaram os rincões mais distantes de Minas Gerais. Tendo abandonado os trajes habituais em seus lugares de origem, por inadequados ao clima da terra que escolheram por moradia, o mineiro do século XVIII vestia-se com simplicidade e acumulava um pequeno número de peças de roupa durante a existência, sendo comum um conjunto escuro para as tarefas mais pesadas e roupas mais claras para ocasiões formais. Indicamos outro de nossos textos, As Tecelãs de Ibitipoca (ALMEIDA, 1972) para o que se refere ao vestuário mais usual entre as famílias antigas. Lembramos ainda, que eram considerados pertences pessoais os arreios de prata, as esporas, as rosetas, um chapéu alto para as solenidades, o chapéu panamá para o cotidiano e as botas de cano longo que os protegiam de ataques dos animais rastejantes.

Como o objetivo deste texto é abordar as incursões de nossos antepassados, que os levaram a ocupar terras desabitadas, queremos ressaltar um aspecto importante da vida em família. Burton (2001, p. 478), citou uma de suas interlocutoras para declarar que, assim como para a mulher mexicana, para a mineira

o baluarte de parentes pelo qual a jovem esposa é cercada serve, em grande parte, para protegê-la; independente disso, porém, acho-a quase sempre retraída e recatada, chegando mesmo ao puritanismo, quando os estranhos se mostram audaciosos. Seus casamentos são realmente domésticos e felizes; os cônjuges são sempre vistos juntos e o marido costuma oferecer presentes à mulher, o que é considerado como uma prova especial de afeição.

Convido-os, pois, a imaginarem como seria a preparação de uma viagem que levaria um casal, seus filhos, escravos e pertences para se estabelecerem em algum lugar escolhido para fixarem nova residência. No próximo capítulo, vamos trazer informações de vários autores sobre os locais onde se instalaram.


Impressões de Viagem

Na reunião de família do ano passado, um grupo de parentes insistiu em buscar explicações para o nosso interesse em conhecer tantas cidades mineiras, pequenos lugarejos nos quais muitas vezes não conseguimos, sequer, obter uma imagem que nos ajude a fixar na memória alguma impressão local.

Uma das nossas dificuldades é reproduzir as poucas fotografias que fizemos nestas nossas viagens. Por esta razão, e sabedores da nossa pouca possibilidade de descrevê-las adequadamente, buscamos em autores consagrados aquilo que acreditamos sejam relatos bem próximos do que existia na época em que os Almeida Ramos espalharam-se pela terra mineira.

Ao relatar suas primeiras impressões dos arredores do Rio de Janeiro, Agassiz (2000) nos dá uma imagem saborosa da paisagem e também dos percalços pelos quais passaram. Considerando que sua estadia em nosso país ocorreu um século depois da chegada dos jovens de Óbidos, é fácil imaginar quão mais difícil teria sido a viagem daqueles rapazes em solo nacional. Por outro lado, os hábitos observados pelos americanos Agassiz nos fazem supor que a tão decantada hospitalidade nasceu justamente das dificuldades de sobrevivência.

Voltemo-nos ao diário de Elizabeth Agassiz para tentarmos fazer um paralelo com as providências que teriam sido tomadas pelos descendentes de nossos personagens, quando decidiam sair da casa de seus pais para formar suas próprias fazendas. Diz a autora que a casa sede das fazendas normalmente tinha apenas um andar em um edifício comprido e de grande extensão. Por estarem totalmente isoladas e afastadas de outras habitações, era necessário fazer provisão de todo o necessário, gerando hábitos primitivos como o que lhe foi contado por um de seus anfitriões. O caso teria ocorrido com rica marquesa que pernoitara na fazenda, no trajeto de uma viagem de poucas semanas até a Corte. Para tanto, a ilustre figura vinha acompanhada de uma tropa de “trinta e uma bestas de carga conduzindo toda a bagagem imaginável, sem contar as provisões de toda espécie, galinhas, presuntos, etc. e vinte e cinco criados a acompanhavam.” (AGASSIZ, 2000, p. 73) Isto, para uma viagem relativamente curta ao fim da qual estaria instalada em residência que contava com o conforto possível na época.

Descrições desta natureza nos fazem compreender que a organização de uma viagem era empreitada bastante complexa, envolvendo um sem número de providências inimagináveis nos dias atuais. Em meados do século XIX, os viajantes estrangeiros observaram que bastava alguém se apresentar numa fazenda ao fim de um dia de jornada e, se a aparência não fosse má, os proprietários o receberiam cordialmente, oferecendo-lhe alimentos e um quarto para repousar. De modo geral, o viajante municiava-se de uma carta de recomendação para facilitar a acolhida. Isto, quando estava em viagem. Mas como seria a viagem de mudança, em que toda a família se transferia para outro lugar?

Evidentemente que o status econômico era determinante, sendo possível identificar as posses de uma família pela quantidade de bagagem que a tropa de mudança conduzia. Por outro lado, os menos aquinhoados não decidiam, por si sós, pela mudança de residência. Antes, pelo contrário, famílias mais simples só saíam de um local quando agregadas aos grandes proprietários que, eles sim, tomavam a decisão de abrir novas frentes de ocupação. Pelo que nos foi dado apurar até o momento, os Almeida Ramos inscreviam-se na categoria daqueles que possuíam alguns bens e organizavam as expedições de mudança, levando para outros pontos os seus pertences, escravos e agregados.

É ainda Agassiz (2000) quem lembra que os percursos eram realizados através de trilhas estreitas, esburacadas e com variados níveis de risco. Ao longo da ocupação das vias transitáveis, foram criadas “estações de troca”, nas quais o viajante fazia uma pequena parada e trocava seus animais por outros descansados. Entretanto, as migrações internas dos Almeida Ramos não parecem ter sido feitas pelos caminhos descritos pelos viajantes estrangeiros. Acreditamos mesmo que foram pioneiros na abertura de novas vias de ocupação. E tornaram-se conhecedores de paisagens que assombraram não poucos estudiosos, como ocorreu a Agassiz (2000, p. 86), “perplexo e muito embaraçado com o aspecto inteiramente novo de fenômenos que lhe são bastante familiares noutras regiões, mas que, nessas montanhas, o desconcertavam completamente.”

Neste ponto pedimos permissão para remeter nossos leitores a uma obra recentemente reeditada, na qual tivemos oportunidade de confirmar a forte impressão que nos causaram as casas de cupim que vislumbramos em diversos trechos de nossas incursões pelas terras onde outrora viveram os Almeida Ramos. Na visão de Burton (2001, p. 85), as casas de cupim são “grandes colunas ou pirâmides de barro, amarelas ou pardacentas, de acordo com a terra, e chegando às vezes, a uns dois metros de altura”. Assim como observou este naturalista inglês, lembram túmulos, espalhando-se aos pares ou em grupos maiores. Mesmo das atuais estradas de rodagem, não nos escapa a visão dos cupinzeiros que chamaram a atenção do viajante estrangeiro, parecendo abandonados. Entretanto, ensina-nos Burton que, quando abertos, “parecem um hotel monstruoso, tal como Asmodeus o veria, e bastam alguns golpes decididos com uma picareta sobre a dura crosta desses cupinzeiros que parecem desertos, para se ver sair de seu interior uma multidão tão frenética quanto os hóspedes de um hotel que fogem ao grito de ‘Fogo!’.”

Mas os estudiosos também nos ensinam que os cupinzeiros não prejudicam sobremaneira os fazendeiros, já que encontram inimigos naturais no solo onde tentam vicejar. Fica-nos o questionamento: estavam os nossos ancestrais habilitados a contornar os males causados ao solo pelos cupinzeiros, assim como pelas formigas e demais partícipes de seu modus vivendi? É ainda de Burton que extraímos, sobre a vida no cupinzeiro:

Não se trata, contudo, de uma família feliz, se se leva em conta que o sapo, depois de comer o cupim, é comido pela cobra, e a cobra comida pela seriema, uma ave cujo gosto coincide com o Gypogeranus africanus, mas falta-lhe a caneta atrás da orelha que fez os holandeses dar-lhe denominação tão literária. Há, também, quem acredite que os cupins novos são aprisionados e escravizados, como africanos ocidentais, pela maldosa e impiedosa formiga das fazendas, que representa, assim, o maldoso e impiedoso homem branco. (BURTON, 2001, p. 86)


Sebollas

Iniciemos nosso percurso por Santana de Sebollas, um pouco antes de adentrarmos a terra mineira. Lá estivemos enquanto pesquisávamos sobre uma família que, naquela época, pensávamos ter ligações com os Almeida Ramos. Sabíamos que ali Carlos José de Santana, filho de José Joaquim de Santana e Maria Rosa de Jesus, casara-se em junho de 1877 com Emilia Francisca Gonçalves, filha de Antonio Joaquim de Santana e Francisca Maria de Jesus. Suspeitávamos que este casal tivesse vínculos com Joaquim Farto de Almeida, um dos netos de Francisco Farto, filho de outro do mesmo nome. Joaquim Farto nasceu em 1754 em Santa Rita de Ibitipoca e teve, pelo menos, os filhos Jacinta (1781), Teodora (1783), Francisco (1788), Joaquim (1792) e Carlos Gomes de Almeida, nascido em Conceição de Ibitipoca em 1797.

Inconfidência, Paraíba do Sul, RJ
Sebollas é o atual distrito de Inconfidência, cujo núcleo urbano fica a cerca de 20 km da sede municipal em Paraíba do Sul. A localidade entrou para a história do Brasil por ter servido de pouso ao alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que dá nome ao atual Museu Sacro e Histórico de Inconfidência. Suas construções mais antigas datam do século XIV.

Nossa viagem a Sebollas não trouxe o resultado esperado, já que os livros paroquiais encontravam-se em outra localidade onde estivemos mais tarde. Entretanto, o resultado de nossas leituras levou-nos a concluir que, embora não havendo vínculos familiares no local, certamente os três rapazes de Óbidos passaram por Sebollas. Além do que já houvéramos apurado em Abreu (1975), a recente obra de Santos (2001) nos faz acreditar que nossos ancestrais estiveram naquele pouso antes de seguirem viagem para Minas.

Seguindo em direção a Minas, nossos rapazes portugueses provavelmente se depararam com o ambiente descrito mais de cinqüenta anos depois por Saint Hilaire (1975, p. 47):

A paisagem que se apresenta aos olhos do viajante quando este entra na Comarca do Rio das Mortes, às margens do Paraibuna, tem algo que impressiona por um misto de desordem e regularidade selvagem. Por toda a parte o rio é dominado por montanhas elevadas; como ele descreve uma volta antes de chegar ao registro, não se vislumbra por esse lado mais que uma pequena parte do seu curso, e dá a impressão de ;que todo ele começa na base de uma montanha mais alta que as outras, e cujo cume absolutamente nu contrasta com a vegetação vigorosa dos morros vizinhos.

Nosso percurso para conhecer o provável caminho de entrada em Minas não obedeceu à mesma ordem em que aparece em Saint Hilaire. De Sebollas fomos à Paraíba do Sul e dali rumamos para São José das Três Ilhas.

Iniciemos nosso percurso por Santana de Sebollas, um pouco antes de adentrarmos a terra mineira. Lá estivemos enquanto pesquisávamos sobre uma família que, naquela época, pensávamos ter ligações com os Almeida Ramos. Sabíamos que ali Carlos José de Santana, filho de José Joaquim de Santana e Maria Rosa de Jesus, casara-se em junho de 1877 com Emilia Francisca Gonçalves, filha de Antonio Joaquim de Santana e Francisca Maria de Jesus. Suspeitávamos que este casal tivesse vínculos com Joaquim Farto de Almeida, um dos netos de Francisco Farto, filho de outro do mesmo nome. Joaquim Farto nasceu em 1754 em Santa Rita de Ibitipoca e teve, pelo menos, os filhos Jacinta (1781), Teodora (1783), Francisco (1788), Joaquim (1792) e Carlos Gomes de Almeida, nascido em Conceição de Ibitipoca em 1797.

Nossa viagem a Sebollas não trouxe o resultado esperado, já que os livros paroquiais encontravam-se em outra localidade onde estivemos mais tarde. Entretanto, o resultado de nossas leituras levou-nos a concluir que, embora não havendo vínculos familiares no local, certamente os três rapazes de Óbidos passaram por Sebollas. Além do que já houvéramos apurado em Abreu (1975), a recente obra de Santos (2001) nos faz acreditar que nossos ancestrais estiveram naquele pouso antes de seguirem viagem para Minas.

Sebollas é o atual distrito de Inconfidência, cujo núcleo urbano fica a cerca de 20 km da sede municipal em Paraíba do Sul. A localidade entrou para a história do Brasil por ter servido de pouso ao alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que dá nome ao atual Museu Sacro e Histórico de Inconfidência. Suas construções mais antigas datam do século XIV.

Seguindo em direção a Minas, nossos rapazes portugueses provavelmente se depararam com o ambiente descrito mais de cinqüenta anos depois por Saint Hilaire (1975, p. 47):

A Freguesia de São José do Rio Preto, ou São José das Três Ilhas, foi instituída por provisão episcopal de 7 de novembro de 1833. A criação do distrito civil só ocorreu em 1850. Estas datas nos desanimaram num primeiro momento. A Igreja é muito nova e ali não encontraríamos informações.

Resolvemos então pesquisar as Cartas de Sesmaria e encontramos uma de 09 de dezembro de 1818, concedendo terras na Paragem de São Roque de Monte Verde, Freguesia de Simão Pereira, Termo de Barbacena a Carlos Gomes da Fonseca. Estava resolvida nossa principal dúvida, já que o beneficiário era filho do português Carlos Gomes Monteiro e Antonia Maria de Jesus e portanto irmão de Joaquim Gomes Monteiro, este último pai de Zeferino Antonio Gomes da Fonseca que foi pai de Teresa Maria.

Necessário se torna esclarecer que a visita a Três Ilhas tinha sido motivada por pesquisas em torno da família Fonseca, que só mais tarde descobrimos ter descendentes em diversas famílias leopoldinenses. O curioso é que em assentos religiosos relativos a membros da família Fonseca, algumas vezes é informado que moravam na Fazenda Reserva e outras vezes na Fazenda São Roberto. Segundo José Rodrigues de Magalhães Alves, oficial substituto do Cartório de Três Ilhas, a Fazenda São Roberto foi construída pelo terceiro avô dele, Francisco de Assis Alves, localizada em território hoje pertencente ao distrito de Porto das Flores. Não logramos êxito na busca da Carta de Sesmaria que teria dado origem à Fazenda São Roberto. Suspeitamos que as duas fazendas fossem vizinhas e a Reserva estaria localizada nas proximidades da atual divisa entre Santa Bárbara do Monte Verde e Belmiro Braga.

A seguir, decidimos pesquisar um pouco sobre a história de Simão Pereira, a mais antiga freguesia daquela região.


Simão Pereira

A paisagem que se apresenta aos olhos do viajante quando este entra na Comarca do Rio das Mortes, às margens do Paraibuna, tem algo que impressiona por um misto de desordem e regularidade selvagem. Por toda a parte o rio é dominado por montanhas elevadas; como ele descreve uma volta antes de chegar ao registro, não se vislumbra por esse lado mais que uma pequena parte do seu curso, e dá a impressão de ;que todo ele começa na base de uma montanha mais alta que as outras, e cujo cume absolutamente nu contrasta com a vegetação vigorosa dos morros vizinhos.

Nosso percurso para conhecer o provável caminho de entrada em Minas não obedeceu à mesma ordem em que aparece em Saint Hilaire. De Sebollas fomos à Paraíba do Sul e dali rumamos para São José das Três Ilhas.

São José das Três Ilhas

Todas as localidades por onde passa o rio do Peixe já foram objeto de nossos olhares, uma vez que nelas residiram os antepassados dos povoadores de Leopoldina. Conta a história que no Sítio de Simão Pereira foi criada a freguesia de Nossa Senhora da Glória em 1718. Vejamos como descreveu Cunha Matos, em obra publicada em 1837.

Grande distrito paroquial cuja igreja matriz existe na estrada do Rio de Janeiro para Barbacena, na margem esquerda do Rio do Barros, braço setentrional do Paraibuna, em terreno muito baixo na fralda de uma alta serra, ramo da Mantiqueira. A pequena distância da igreja existe uma humilde casa em que mora o vigário, e na serra fronteira há outra ainda menor, proporcionando, aliás, o terreno as melhores comodidades para uma grande povoação. Dista 35 léguas do Rio de Janeiro, e 43 da cidade do Ouro Preto.

Recebeu o nome de Simão Pereira por se achar próxima do lugar em que um homem assim chamado estabeleceu fazenda que ainda se apelida “Sítio do Simão Pereira”. Fica ao norte de outro lugar conhecido pelo nome de Rocinha de Simão Pereira, ambos na estrada real. O distrito próprio de Simão Pereira, dista 23 léguas da cabeça do termo. Tem 98 fogos e 964 almas.

Diz ainda Cunha Matos que a paróquia era também conhecida pelo nome de Simão Pereira do Caminho Novo. A Freguesia de Nossa Senhora da Glória do Sítio de Simão Pereira era o primeiro povoado de Minas. Mas, para descrever aquele trecho do Caminho Novo com maior proximidade no tempo, utilizaremos trechos do diário de Saint-Hilaire.

Auguste de Saint-Hilaire, cientista francês que viajou pelo interior do Brasil entre 1816 e 1822, deixou-nos preciosas informações sobre o Brasil do início do século XIX. A Segunda Viagem de Saint-Hilaire a Minas começou a 29 de janeiro de 1822, no Rio de Janeiro. No dia 6 de fevereiro entrou em território mineiro. Eis parte de seu relato do dia:

Serve o Rio Preto de fronteira às capitanias do Rio de Janeiro e Minas. À extremidade de uma ponte fica uma cidadezinha encostada à montanha, composta de uma única rua muito larga e paralela ao rio. Tem a cidade o mesmo nome do rio; depende do distrito de Ibitipoca e só conta uma igreja não colada, servida por um capelão. As casas de Rio Preto, excetuando-se uma ou duas, são térreas, pequenas, mas possuem um jardinzinho plantado de bananeiras, cuja pitoresca folhagem contribui para o embelezamento da paisagem.

Caminho Novo

Seis dias depois o cientista estava acomodado em uma granja no “Rancho de Manoel Vieira” e seu relato volta a mencionar características da paisagem. Já tendo passado pela “Serra Negra”, informa que todo o percurso é um subir e descer muito cansativo. Sobre o Rio do Peixe que atravessara “um quarto de légua” antes, diz apenas; “passamos, sobre uma ponte de madeira, o pequeno rio chamado Rio do Peixe e pelo percurso vimos várias fazendas”.

Já no relato de sua primeira viagem Saint-Hilaire declarou-se impressionado com o que chamou de “misto de desordem e regularidade selvagem”, com a atenção voltada para “as montanhas que se misturam no horizonte e fazem pensar que o rio nasce na elevação posterior à que primeiro se avizinha” quando, ao passar posteriormente por ela, constatou que as águas vinham de um ponto bem mais distante. Século e meio depois o grande poeta Carlos Drumond de Andrade nos brindou com suas fortes impressões das montanhas de Minas.

Antes de prosseguirmos, transcrevemos mais um trecho da primeira viagem.

O primeiro lugar habitado que se encontra depois do Paraibuna é Rocinha da Negra, onde se vê um rancho e uma venda construídas em um vale à margem de um regato. Pouco mais longe, passa-se diante de uma choça denominada Três Irmãos, e em breve se chega à povoação de Vargem, localizada em um amplo vale rodeado de morros. O nome Vargem, sinônimo da palavra portuguesa várzea, se aplica geralmente a essas espécies de planícies úmidas e rodeadas de elevações que são bastante comuns nas partes montanhosas do Brasil, e diferem um pouco do resto do país pela vegetação.

Em nota do próprio autor ao texto acima, ficamos sabendo que ele foi recebido de maneira muito cordial em Vargem e que por isso faz questão de denunciar um outro viajante estrangeiro que teria sido tão bem recebido quanto ele e que, no entanto, depois teria “vilipendiado” o hospedeiro.


Santa Bárbara do Monte Verde

Seguindo o percurso inverso ao que julgamos ter sido realizado pelos Almeida Ramos, visitamos Santa Bárbara do Monte Verde em duas oportunidades. Não logramos êxito na busca da fazenda que pertenceu ao Barão de Santa Bárbara, personagem que acreditávamos descender de Antonio de Almeida Ramos.

Muitas foram as nossas buscas em Santa Bárbara do Monte Verde, bem como na documentação relativa àquele município que se encontra no Arquivo Público Municipal de Juiz de Fora. Mas foi somente neste ano de 2007 que, com a ajuda do pesquisador Júlio Sales Moreira, tivemos êxito na confirmação de nossa hipótese: descendentes de Antônio de Almeida Ramos deixaram a região da Serra da Ibitipoca no início do século XIX, vindo povoar os atuais municípios de Santa Bárbara do Monte Verte e Rio Preto.

O quinto filho de Antônio de Almeida Ramos e Maria de Oliveira Pedrosa foi João de Almeida Ramos, batizado em Santa Rita de Ibitipoca no dia 16 de abril de 1769. Casou-se a 3 de março de 1794, em Santa do Garambeo, com Teresa Maria de Jesus, filha do açoriano Manoel José do Bem e de Teresa Maria de Jesus. Ressalte-se que Teresa era filha do português Inácio Franco e da ilhoa Maria Tereza de Jesus. Portanto, a esposa de João de Almeida Ramos tinha relação de parentesco com ancestrais de grande parte da população de Leopoldina.

João de Almeida Ramos e Teresa Maria de Jesus foram pais de Francisco, Rita, Manoel Antonio de Almeida Ramos, João de Almeida Ramos Filho, Ana Bernardina de Almeida e Maria Teresa. Destaque-se que Ana Bernardina de Almeida casou-se com Manoel Rodrigues da Silva, formador da fazenda Puris no então Curato de São Sebastião do Feijão Cru. Também por João de Almeida Ramos Filho, que se casou com Joaquina Felisbina de Jesus, vamos encontrar descendentes em Leopoldina no século XIX.

Mas as nossas viagens a Santa Bárbara tinham sido motivadas pelo terceiro filho de João de Almeida Ramos Barão de Santa Bárbarae Teresa Maria de Jesus: Manoel Antonio de Almeida Ramos. Em literatura publicada em meados do século XX, observamos que eventualmente os autores consideravam que Manoel Antonio de Almeida, conhecido como Comendador em Leopoldina, era tido como sendo o mesmo Manoel Antônio de Almeida Ramos que viveu em Santa Bárbara do Monte Verde. Houve, parece-nos, um engano provocado pela semelhança de nomes. Entretanto, o “nosso” Manoel Antônio de Almeida foi o filho caçula de Antonio de Almeida Ramos e Maria de Oliveira Pedrosa, sendo tio do Manoel Antonio de Almeida Ramos de Santa Bárbara do Monte Verde.

Tantos anos depois de nossas buscas, Júlio Sales Moreira ofereceu-nos cópias de documentos que esclareceram definitivamente a questão. Através de um Titular do Império – o Barão de Santa Bárbara, o Júlio colocou um ponto final na questão. O Barão, cujo nome foi João Evangelista de Almeida Ramos, era filho de Manoel Antônio de Almeida Ramos e Joana Tereza do Espírito Santo. Era, portanto, sobrinho neto do nosso Manoel Antônio de Almeida e bisneto de Antônio de Almeida Ramos.


Rio Preto, MGRio Preto

Quando escrevemos o texto sobre os Almeida Ramos e os Farto de Almeida (CANTONI, 1978), citamos como possibilidade o vínculo entre as duas famílias. Entretanto, conclusões apressadas de outros autores haviam nos desanimado, já que nenhum deles tinha aventado a hipótese de ligação entre as famíliasde dois Titulares do Império que descendem de Antônio de Almeida Ramos.

Já em nossa reunião de 1998 foram abordadas as grandes dificuldades para se chegar aos livros paroquiais desta e de outras antigas localidades onde nossos antepassados viveram. A Capela do Senhor dos Passos do Presídio do Rio Preto, segundo Trindade (1945, p. 242), foi erigida em 1831, a pedido de João Alves Garcia. Elevada a Freguesia em 1832, desmembrada da Freguesia de Conceição de Ibitipoca, quatro anos depois foi instituída canonicamente. Segundo o mesmo autor, em 1838 as obras de construção da matriz ainda não estavam concluídas.

Através das pesquisas realizadas no Arquivo Histórico da Prefeitura de Juiz de Fora, e de consultas ao material disponível na Casa de Cultura de Rio Preto e no acervo do Seminário Santo Antônio em Juiz de Fora, apuramos que descendentes dos três jovens de Óbidos viveram em território do atual município de Rio Preto, MG.

Além do já citado Manoel Antônio de Almeida Ramos, pai do Barão de Santa Bárbara, outros filhos e netos de Antonio de Almeida Ramos, de Agostinho de Almeida Ramos e de Francisco Farto de Almeida, são referidos em diversos documentos encontrados no Fórum de Rio Preto.

Acreditamos que outras pesquisas venham a esclarecer detalhes sobre estas ligações, incluindo a ascendência do Barão de Almeida Ramos, título concedido a Joaquim de Almeida Ramos.


Chapéu d’Uvas e BarbacenaChapéu d'Uvas, MG

Quisemos acompanhar a narrativa de Richard Burton por ali termos encontrado referência a Chapéu d’Uvas, um dos povoados que contaram com os Almeida Ramos no seu nascedouro. O viajante inglês (BURTON, 2001, p. 88) informa que o nome Chapéus d’Uvas refere-se a um cultivador de parreiras que as oferecia para matar a sede dos viajantes que por ali passavam. Acrescenta que naquela localidade encontravam-se dois caminhos: o do Mato, a nordeste, e o do Campo, direção noroeste. Quanto à aparência, o súdito do império britânico destacou o aspecto de pousada à beira da estrada, uma rua, uma capela pobre e pouca possibilidade de fornecer o necessário para o consumo local. Isto, lembremos, numa impressão de 1867.

Com o intuito de dar voz aos viajantes estrangeiros, em suas descrições das localidades que vimos estudando, transcrevemos mais um trecho de Burton (2001, p. 114), para sabermos qual a impressão que lhe causou Barbacena.

Barbacena da Rainha fica a 21º13’9″ 1 de lat. S. e 0º49’43″3 de long. O. (Rio), no ponto culminante do planalto, a 1.270 metros, em números redondos acima do nível do mar. O clima é essencialmente temperado; a temperatura máxima anual é de 26,6º à sombra. A cidade teve sua origem no Arraial da Igreja Nova da Borda do Campo, pouso para as tropas entre Ouro Preto (22 léguas) e Petrópolis (40 léguas); seu comércio principal consistia em quitandas e comestíveis semelhantes, vendidos por algumas velhas. O lugar era muito adequado para uma povoação de tal origem. No Brasil, as cidades fundadas por eclesiásticos ocupam as melhores posições, colinas e elevações com uma bela vista; os leigos preferiam os terrenos baixos, perto da água e do ouro. A localidade foi elevada a vila em 1791, pelo famoso ou infame Visconde de Barbacena, capitão-general das Minas, que lhe deu seu próprio nome. Mawe (1809) descreve-a como uma povoação de 200 casas, governada por um ouvidor ou juiz auditor. Foi elevada a cidade por lei provincial de 9 de março de 1849. A população do município era em 1864, de 23.448 almas, com 1.954 votos e 39 eleitores, cobrindo 1.400 alqueires de terra. A cidade tinha 5.000 habitantes em 1849; era, então, uma espécie de oásis central do deserto formado pelo mato meridional, a região coberta de florestas que havíamos atravessado e pelos campos do norte, que iríamos atravessar.

Com estes comentários esperamos ter completado o percurso que fizemos em busca da trajetória dos três rapazes de Óbidos. As demais localidades onde viveram, diversas vezes citadas em nossos textos anteriores, poderão vir a merecer novas referências futuras. Especialmente quando lograrmos êxito nas buscas ainda em andamento.

Referências Bibliográficas

ABREU, Capistrano de. Caminhos antigos e povoamento do Brasil. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.

AGASSIZ, Jean Louis Rodolph. Viagem ao Brasil 1865-1866. Brasília : Senado Federal, Conselho Editorial, 2000.

ALMEIDA, Nilza. Caderno de Família: As tecelãs de Ibitipoca. Leopoldina, MG: do autor, 1972.

BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário Histórico Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia, 1995. p. 46

BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Brasília : Senado Federal, Conselho Editorial, 2001.

CANTONI, Nilza. Caderno de Família 3: Os Moradores do Caminho Novo. Leopoldina, MG: do autor, 1976

CANTONI, Nilza. Entre nós: Almeida Ramos ou Farto de Almeida. Leopoldina, MG: do autor, 1978

CANTONI, Nilza. Os 3 jovens do Concelho de Óbidos. Leopoldina, MG: Jornal da Terra, 2001

Cartas de Sesmaria. Belo Horizonte: Revista do Arquivo Público Mineiro, 1988

Enciclopédia dos Municípios Brasileiros – IBGE, 1960 – vol VII, fls 444

MATOS, Raimundo José da Cunha. Corografia Histórica da Província de Minas Gerais (1837) – Belo Horizonte, Itatiaia, 1981

SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda Viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo – Belo Horizonte: Itatiaia, 1974

SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Belo Horizonte, Itatiaia, 1975.

SANTOS, Márcio. Estradas Reais: introdução ao estudo dos caminhos do ouro e do diamante no Brasil.  Belo Horizonte: Estrada Real, 2001

TRINDADE, Cônego Raimundo. Instituições de Igrejas no Bispado de Mariana. Rio de Janeiro: SPHAN, 1945

Primeiros Moradores de Providência

Este estudo sobre os primeiros moradores do distrito de Providência foi inicialmente publicado com o título de Primeiros Moradores do Quarto Quarteirão do Feijão Cru, no site do Arquivo Histórico de Além Paraíba, na seção destinada ao Centro de Pesquisas Sertões do Leste – CEPESLE. Posteriormente obtivemos muitas outras informações que complementam e corrigem o apurado até aquele momento.

A historiografia local ainda não dedicou maior atenção ao início do povoamento de nossa região. Querem alguns que a data inicial seja a da concessão das sesmarias. Oras, é sabido que muitas vezes a Carta de Sesmaria era passada após a ocupação. Em outros casos o beneficiado com as terras nelas instalou prepostos e só veio a ocupá-las muitos anos depois. Sendo assim, ao lado do levantamento das Sesmarias concedidas, analisamos outros documentos que pudessem nos dar uma idéia de quais teriam sido as primeiras famílias a habitarem o local. Temos certeza de que nosso estudo não está completo. Provavelmente ainda encontraremos outros indícios que venham a modificar nossa atual posição.

No momento temos indicações de que as terras hoje ocupadas pelo distrito de Providência, bem como uma parte de Abaíba, durante muito tempo reunidas no chamado Quarto Quarteirão, receberam o habitante livre nos anos de 1820. No decorrer da década, ali se instalaram pelo menos três famílias que eram chefiadas por Bernardo José Gonçalves Montes. Joaquim Cezário de Almeida e Romão Pinheiro Corrêa de Lacerda.

Optamos por falar da proto história de Providência através das mais antigas famílias encontradas em seu território, indicando-as em ordem alfabética de sobrenome e separadas por períodos de efetiva moradia.

ALMEIDA RAMOS

O primeiro estudioso desta família, e também um dos maiores pesquisadores da história de Leopoldina, foi Mauro de Almeida Pereira. Em 1966 publicou o livro Os Almeidas, os Britos e os Netos em Leopoldina, obra de referência para quantos se interessam pelo levantamento dos povoadores da cidade, com versão digital disponível neste site. Como seguidores do Mauro Almeida, falecido a 21 de junho de 2001, apresentamos o desenvolvimento dos estudos por ele iniciados sobre o casal Manoel Antônio de Almeida e Rita Esméria de Jesus. Esclarecemos que o povoador Manoel Antônio de Almeida, citado como Comendador em diversas obras, era filho de Antônio de Almeida Ramos, donde provém o sobrenome composto.

Joaquim Cezário de Almeida  nasceu em 1804 em Santana do Garambéu, MG, filho de Inácio José do Bem e de Antônia Maria de Almeida, irmã de Manoel Antônio de Almeida acima citado. Acompanhou o tio na mudança para as terras do Feijão Cru, estabelecendo-se no território depois denominado Quarto Quarteirão. Estava recém casado com sua prima Luciana Esméria de Almeida, filha do mesmo Manoel Antônio de Almeida.

Joaquim Cezário formou a Fazenda do Tesouro, cuja localização merece comentários mais detalhados. Divisava por um lado com as terras de Bernardo José Gonçalves Montes e por outro com as de José Ferreira Brito e Francisco José de Freitas Lima, estes localizados entre Abaíba e Conceição da Boa Vista. Ao sul divisava com terras posteriormente ocupadas por Manoel José Monteiro de Castro e Antônio Augusto Monteiro de Barros Galvão de São Martinho.

Em 1851, ao ser criado o Curato de Nossa Senhora da Conceição da Boa Vista, Joaquim Cezário aparece como proprietário na divisa daquele distrito. O que nos levou a concluir que suas terras ficassem no território hoje pertencente a Abaíba. No entanto encontramos documentos da Câmara Municipal de Rio Pomba em que se faz referência ao Tesouro do Feijão Cru como tendo sido o nome de Leopoldina entre 1831 e 1834. Pela leitura de vários documentos, passamos a suspeitar que a Fazenda do Tesouro era mais próxima das nascentes do Feijão Cru pequeno, onde se estabeleceu Manoel Antônio de Almeida, tio e sogro de Joaquim Cezário. Nesta hipótese, Joaquim Cezário teria ocupado terras limítrofes à atual sede do distrito de Providência. O que seria confirmado através da análise de batismos e casamentos de seus descendentes.

Joaquim Cezário de Almeida faleceu a 18 Março 1855. Sua esposa Luciana Esméria permaneceu na Fazenda do Tesouro, onde faleceu a 1 Março 1864. Dos filhos do casal, encontramos vinculados a Providência ao final do século dezenove apenas o primeiro e a quarta filha.

– João Basílio de Almeida casou-se com Augusta Leopoldina Rezende Martins e faleceu a 15 Dezembro 1882 deixando viúva e 12 filhos na Fazenda Alto da Cachoeira. Sua descendência está descrita entre os Gonçalves Montes, já que sua esposa foi a nona filha de Bernardo José Gonçalves Montes. Nas Eleições realizadas em setembro de 1868, João Basílio foi um dos eleitores ausentes, provavelmente em solidariedade a tantos que discordaram do direcionamento que estava sendo dado ao município.

– Maria Cezária de Almeida casou-se com seu primo João Ferreira de Almeida, filho de João Rodrigues Ferreira Brito e Messias Esméria de Almeida, sendo neto materno de Manoel Antônio de Almeida e paterno de Bento Rodrigues Gomes. Ou seja, o casal descendia dos troncos povoadores de Leopoldina. A Fazenda de Maria Cezária e João ficava ao sul da estrada que ligava Abaíba a Leopoldina, na margem direita do Ribeirão São Lourenço, território que pertenceu ao distrito de Providência.

GONÇALVES MONTES

Bernardo José Gonçalves Montes nasceu em Prados, entre 1780 e 1788. Filho de José Gonçalves Montes, português, e de Rosa Felícia de Jesus, natural de Prados. Neto paterno de Maria Luisa do Monte e Pedro Gonçalves Poça, nascido a 20 de outubro de 1675. Por este era bisneto de Maria Dias e João Gonçalves da Poça, nascido a 29 de junho de 1657 na Freguesia da Alheira, Orago de Santa Marinha, Concelho de Barcelos, Braga, Portugal. A avó paterna, Maria Luisa do Monte, era filha de Estêvão Luis e Maria Domingues.

Por parte de mãe, Bernardo José era neto de Bernardo Rodrigues Dantas, nascido a 17 de agosto de 1694 em Santa Maria de Sá, Concelho Ponte de Lima, Viana do Castelo, Portugal e falecido em Prados a 1º de março de 1773. A ascendência de Bernardo Rodrigues Dantas é bem conhecida entre os estudiosos. Era filho de Pascoal Rodrigues, nascido a 17 de junho de 1678 e Paula Rodrigues, nascida a 7 de setembro de 1683. Pascoal era filho de João Fernandes e Esperança, ambos naturais do Concelho de Ponte de Lima. Paula era filha de Antônio Fernandes Souto e Maria Rodrigues, naturais do mesmo Concelho, e irmã de Ana Joana da Conceição, que em 1799 casou-se, em Santana do Garambéu, com José Francisco Machado.

A avó materna, Catarina de Assunção Xavier, é ainda mais conhecida. Nascida a 25 de dezembro de 1719 em São José del Rei, atual Tiradentes, casou-se a 9 de abril de 1736 no mesmo lugar e faleceu em Prados a 29 de dezembro de 1802. Era filha de Domingos Xavier Fernandes, nascido a 26 de agosto de 1683 no Famalicão, Braga, Portugal, por ele neta de Domingos Rodrigues e Catarina Fernandes. A mãe de Catarina, Maria de Oliveira Colaça, era filha de Antônio de Oliveira Setúbal e Isabel de Oliveira Colaça.

Por este casal, poderemos prosseguir até o século dezesseis, através de genealogias publicadas por diversos estudiosos, incluindo-se o renomado Silva Leme e nosso conterrâneo Pedro Wilson Carrano de Albuquerque. Observe-se que a avó materna de Bernardo José Gonçalves Montes era irmã de Antônia da Encarnação Xavier, mãe do Alferes José Joaquim da Silva Xavier.

Dos irmãos de Bernardo José, encontramos os nomes de Antônio Rodrigues Dantas, Maria Rosa Montes e Severino José Montes. Não pesquisamos a descendência desses irmãos. Mas, acreditamos que Severino possa ser ancestral de outros antigos moradores do Feijão Cru. Da mesma forma supomos que o tio paterno João Gonçalves Montes, casado com Paula Maria de Assunção, possa ser ancestral de leopoldinenses que aqui chegaram muito tempo depois do início do povoamento.

Dos tios pelo lado materno encontramos numerosas ligações familiares não só em Providência como em todo o município de Leopoldina. Tanto através de sobrinhos do Alferes Tiradentes, como também por filhos de Bernardo Rodrigues Dantas e Catarina de Assunção Xavier que podem ser, entre outros, ancestrais da família Vale tão numerosa em Leopoldina.

Casou-se Bernardo José com Maria Antonia de Jesus, também natural de Prados. O pai de Maria Antônia, Antônio Francisco Teixeira Coelho, recebeu uma sesmaria a 28 de março de 1818. Não sabemos se chegou a ocupá-la. O que sabemos é que a sesmaria foi o dote de casamento da filha, por volta de 1824. Analisando batismos e casamentos de filhos e netos de Bernardo José e Maria Antônia, concluímos que logo após o casamento eles vieram habitar as terras do Feijão Cru.

Entre 1824 e 1850, Bernardo José trocou parte de suas terras por outras e também comprou as terras de Feliciano Rodrigues Moreira, outro pioneiro do Quarto Quarteirão. O casal tronco dos Gonçalves Montes residiu na Fazenda do Sossego e seus filhos ocuparam outras propriedades da margem direita do Córrego de São Lourenço. Bernardo José Gonçalves Montes faleceu em 1861, deixando vasta descendência.

Abrimos um parenteses para mencionar um dos mais antigos moradores do Feijão Cru, cuja família não será aqui estudada por não ter estado localizada no território de Providência. Antônio Rodrigues Gomes (filho), batizado em Santa Rita de Ibitipoca-MG a 5 Junho 1786, transferiu-se para nossa região na mesma época em que Bernardo veio aqui residir. A 20 Abril 1829 comprou parte de uma sesmaria que tinha sido doada aos Lacerda. Ali formou a Fazenda do Córrego do Moinho.

Filhos do casal pioneiro, todos nascidos no Quarto Quarteirão do Feijão Cru:

i. Antonio Rodrigues Montes, casado com Maria Gabriela Moreira.

ii. Bernardo Rodrigues de Rezende Montes, casado com Ana Ignacia de Almeida, radicou-se em Chiador-MG.

iii. Maria Rodrigues Montes.

iv. Ana Antônia de Jesus, casada pela primeira vez com Domingos Marques de Oliveira e a segunda vez com José Antônio de Almeida Ramos.

v. Joaquina Cândida de Jesus, casada com Manoel José Pereira da Silva.

vi. João Rodrigues de Rezende Montes, casado com Deolinda Clara de Valadão.

vii. Manoel José de Rezende Montes, casado a primeira vez com Maria Antônia de Jesus e a segunda vez com Maria Rosa da Silveira.

viii. Claudina Celestina de Jesus, casada com João Francisco Pereira.

ix. Augusta Leopoldina Rezende Martins, casada a primeira vez com João Basílio de Almeida e a segunda vez com Bernardo Rodrigues Ferreira Gomes.

x. José de Resende Montes, casado com Tereza Joaquina de Jesus.

xi. Maria Umbelina da Anunciação, casada primeira vez com Francisco Rodrigues Gomes de Almeida e a segunda vez com José Marinho de Freitas.

xii. Inacia Presceliana de Rezende Montes, casada a primeira vez com Antônio Carlos de Oliveira e a segunda vez com José de Rezende Montes.

xiii. Zeferino José de Resende Montes, casado com Ignes Luiza da Silva.

xiv. Rita Firmina Montes.

xv. Querino de Resende Montes, casado a primeira vez com Julia Ferreira de Rezende e a segunda vez com Vitalina da Penha Cabral.

Consta que houve mais um filho: Francisco de Sales Montes casado com Ana Umbelina de Moraes. No entanto, analisando nascimentos e casamentos de descendentes de Francisco e Ana Umbelina, concluímos que as datas tornam incompatível a filiação.

Como dissemos anteriormente, ao formarem suas próprias famílias os filhos de Bernardo José e Maria Antônia ocuparam terras nas margens do Corrego São Lourenço. Ao final do século dezenove, por ocasião da criação dos distritos de Providência e Abaíba, encontramos referências a muitos descendentes deste pioneiro residindo naquela região.

PINHEIRO CORRÊA DE LACERDA

A Família Pinheiro Corrêa de Lacerda tem sido objeto de estudo de vários pesquisadores, já que as duas primeiras sesmarias a citarem o nome “Feijão Cru” foram concedidas a dois de seus membros: Fernando Afonso e Jerônimo Pinheiro Corrêa de Lacerda beneficiados com duas sesmarias em outubro de 1817. Por conta disso, muitos são os que acreditam terem sido eles os primeiros habitantes livres do território onde nasceu Leopoldina. Esta não é nossa opinião, formada a partir da análise dos mais antigos documentos que pudemos encontrar sobre a história de Leopoldina. E que se aproxima da opinião de antigos articulistas da história local, segundo os quais os Lacerda foram grandes desbravadores da zona da mata através de um método peculiar: obtinham as sesmarias e as vendiam no todo ou em parte aos habitantes da região de Santa Rita de Ibitipoca.

Irmão de Fernando Afonso e Jerônimo, Álvaro Pinheiro Corrêa de Lacerda foi batizado a 22 Julho 1755 em Bom Jardim. Casou-se na Matriz de Nossa Senhora da Piedade da Borda do Campo (Barbacena), a 23 Fevereiro 1797 com Ângela Maria do Livramento, filha de Manoel Francisco Braga e Tereza Maria de Jesus. Ângela vivia em território do Feijão Cru em 1831, já viúva. Filhos do primeiro casamento de seu marido também já estavam por aqui: Ana de Souza, Francisco Pinheiro Corrêa de Lacerda, Lourenço José Leal e Romão Pinheiro Corrêa de Lacerda.

Dos cinco filhos que pudemos localizar em Leopoldina, somente de um temos informações sobre ligação com o território de Providência: Romão Pinheiro Corrêa de Lacerda. Lembrando que sua irmã Ana foi casada com Bernardo José da Fonseca, citado em diversos estudos da história de Leopoldina, Romão é o personagem que nos remete às terras localizadas no então chamado Pirapetinguinha, ou pequeno braço do Pirapetinga. Querem alguns que Romão tenha sido encarregado pelos Monteiro de Barros para a formação de fazendas naquela região. De fato pudemos comprovar que os Monteiro de Barros só vieram ocupar aquelas terras mais tarde. Mas, antes disso Romão já estava residindo em sua Fazenda da Memória, cujo nome permanece apenas na ponte existente na estrada de Providência para Leopoldina. A fazenda limitava-se com terras posteriormente ocupadas por José Augusto Monteiro de Barros e foi sucessivamente dividida e vendida. Dentre os compradores, localizamos Antônio Prudente de Almeida adquirente entre 1838 e 1841.

A Fazenda da Memória foi comprada por Romão a Manoel Gomes de Oliveira. Citado como Major Manoel Gomes, este primeiro proprietário teria sido um militar que atuou na investida contra o Descoberto do Macuco, no famoso episódio de caça ao Mão de Luva. Fato ocorrido entre 1784 e 1786. É corrente entre historiadores atuais que membros da diligência comandada por Pedro Afonso Galvão de São Martinho, após cumprida a missão para a qual foi destacada, demoraram-se pelos então chamados “Sertões do Leste”, requerendo e obtendo sesmarias onde se fixaram com suas famílias.

Um outro aspecto que ressalta dos documentos é a ocupação efetiva das sesmarias doadas aos Monteiro de Barros. Conforme diversos autores já levaram ao conhecimento público, a família Monteiro de Barros recebeu doação de 14 sesmarias dentro do território onde se formou Leopoldina. Estas doações ocorreram em março de 1818, seis meses após as doações aos Pinheiro Corrêa de Lacerda e no mesmo mês da doação ao sogro de Bernardo José Gonçalves Montes. Fizemos um levantamento das sesmarias concedidas no entorno do Feijão Cru e concluímos que os Pinheiro Corrêa de Lacerda não foram os primeiros beneficiários. Entre 1812 e 1813 foram doadas diversas sesmarias na margem direita do Rio Pomba, algumas delas localizadas em território dos atuais municípios de São João Nepomuceno, Argirita, Santo Antônio do Aventureiro e Além Paraíba. Parece-nos, pois, que a margem direita do Pirapentiguinha teria sido ocupada pelo homem livre a partir de 1812.

Talvez, e aqui vai uma das hipóteses que vimos avaliando, talvez os Pinheiro Corrêa de Lacerda tenham seguido o caminho que estava sendo ocupado pelos sesmeiros e aí descoberto a extensa faixa de terra ao sul do Rio Pomba que ainda não estava ocupada. Voltando ao centro da Província, requereram suas sesmarias, no que foram acompanhados pelos demais povoadores.

Para concluir, lembramos que em 1826 Romão Pinheiro Corrêa de Lacerda ainda vivia em Valença. A primeira referência que dele encontramos em território de Leopoldina é no ano de 1831, morador recenseado no Quarto Quarteirão, solteiro, com 4 escravos.

De seu casamentos com Ana Severino encontramos o filho:

i. Américo Antônio de Castro Lacerda, nascido por volta de 1839, foi pai de Alberto Gama de Castro Lacerda (1867), Joaquim Gama de Castro Lacerda (1887) e Américo de Castro Lacerda (1871).

Do segundo casamento de Romão Pinheiro Corrêa de Lacerda, com Maria de Nazareth Pereira, localizamos os filhos: [Atualizado em julho de 2014]

ii. José Romão Corrêa de Lacerda casou-se com Luiza Augusta Tavares com quem teve os filhos Guiomar (1879), Adélia (1880), Olívia (1881), Amélia (1882), Maria José (1884), João (1886), Luiza (1887), Valdemar (1889), Sofia (1891), Osmar (1898) e Romão (1902), todos nascidos em Providência.

iii. Lucas Tavares de Lacerda nascido por volta de 1850, estudou no Caraça entre 1860 e 1862.

iv. Romão Augusto Corrêa de Lacerda, nascido por volta de 1853.

v. Heliodora, nascida a 7 Janeiro 1858, que se casou com Felix Martins Ferreira e de quem tratamos em outros estudos sobre a sede municipal.

vi. Sophia, nascida a 9 Maio 1860.

vii. Luiz Antônio Corrêa de Lacerda, nascido a 12 Abril 1863. Em 1877 estava matriculado no Colégio Caraça. Casou-se a 16 Fevereiro 1884 com Isabel Maria de Lacerda Werneck, filha de Luiz Peixoto de Lacerda Werneck e Isabel Augusta. Foram pais de Mario (1889), Maria Nazareth (1902) e Maria da Glória (1904). Luiz Antônio foi um dos fundadores do Centro Espírita Beneficiente em Leopoldina, no ano de 1904.


SEGUNDO MOMENTO: 1831 A 1838

Chegamos ao período em que a ocupação da margem direita do Rio Pomba tornou-se mais intensa, demonstrando a necessidade da criação de novos distritos na Freguesia de São Manoel do Pomba (Rio Pomba). Por falta de documentação, os historiadores registram apenas a criação de Nossa Senhora das Mercês do Cágado (Mar de Espanha) e São José do Além Paraíba (Além Paraíba) em julho de 1832. Mas, após leitura atenta do excelente livro de Sinval Santiago – Município de Rio Pomba Síntese Histórica, decidimos por uma releitura de documentos e normas da época, concluindo que o distrito do Tesouro do Feijão Cru pode ter sido criado na mesma data.

Sabemos que foi criado durante a vigência do Decreto Imperial de 11 setembro 1830, que delegava às Câmaras Municipais a criação de distritos em seu território. Este Decreto foi revogado pela Carta de Lei Provincial Mineira de 12 agosto 1834, voltando a prerrogativa para a alçada do Presidente da Província. O arquivo de Rio Pomba relativo à época foi destruído por um incêndio.

Sendo assim, resta-nos como primeiro documento o Mapa de Habitantes de 1838, no qual nos baseamos para identificar as famílias aqui residentes. Nesta segunda etapa da ocupação do território de Providência prosseguiremos considerando o Quarto Quarteirão como um todo, com a ressalva de que as divisões distritais do final do século dezenove modificaram sensivelmente a área abrangida sob tal denominação.

Encontramos mais 22 famílias, parte delas já completamente identificada. Iniciaremos pela citação das que não pudemos confrontar com outros registros, impedindo sua localização no espaço territorial.

O primeiro grupo é constituído pelas famílias de Forros que no conjunto dos moradores do Quarto Quarteirão representam 17,57% do total. Indicaremos a idade informada no Mapa, nome do cônjuge, número de filhos e de escravos. É possível que muitos tenham vivido fora dos limites do atual distrito de Providência. Foram eles:

– Alberto José, 30 anos, a esposa Joaquina, 3 filhos;

– Ana Maria, 20 anos, viúva com 3 filhos;

– Feliciano Roiz, 60 anos, a esposa Eva Pereira, 7 filhos e 1 escravo;

– Francisco Pereira, 40 anos, a esposa Maria Claudina, 3 filhos, 1 escravo.

– Manoel Gonçalves, 22 anos, a esposa Isabel Cândida, com 2 escravos;

– Maria Joana, 60 anos, viúva com 2 filhos;

O segundo grupo é formado por famílias que teriam vivido em Conceição da Boa Vista.

– Antônio Bernardes da Rocha, 41 anos, a esposa Maria Luiza, 9 filhos;

– Domiciano Lemos, 44 anos, a esposa Maria Inácia, 1 filha e 1 escravo;

– Francisco Antônio Dias, 24 anos, a esposa Ana Rosa, 1 filho, 1 escravo;

– João Antônio de Oliveira, 55 anos, a esposa Antonia, 3 filhos, 7 escravos;

– Joaquim Marques, 45 anos, a esposa Francisca Clara, 4 filhos, 2 agregadas;

– José Antônio, 20 anos, a esposa Maria;

– José Joaquim Siqueira, 40 anos, a esposa Francisca Maria, 1 filha;

– Manoel Francisco, 30 anos, a esposa Maria Rita, 4 escravos.

O terceiro grupo é constituído por 7 famílias cujos descendentes permaneciam vinculados a Providência no final do século dezenove. Foram chefes destas famílias, por ordem alfabética de sobrenome: Francisco José de Almeida Ramos, José Zeferiro de Almeida Ramos, Antônio José de Avelar Menezes, Querino Ribeiro de Avelar Menezes, José Joaquim Cordeiro, Anastácio Francisco de Oliveira, e Antônio José Monteiro de Barros.

Falar dos Almeida Ramos seria repetir em parte o que foi dito no início deste trabalho. Os Avelar Menezes misturam-se profundamente aos Monteiro de Barros, muito bem descritos na obra fundamental sobre esta família: Família Monteiro de Barros, de Frederico de Barros Brotero.

Resta-nos, pois, nos determos em algumas informações básicas sobre os dois patriarcas que nos parecem ainda pouco conhecidos: José Joaquim Cordeiro e Anastácio Francisco de Oliveira.

CORDEIRO

Joaquim José Cordeiro nasceu em 1808 ou 1809 e casou-se antes de 1838 com Ana Flausina. Antes do casamento, vivia em companhia dos pais, estabelecidos no Primeiro Quarteirão. Era o segundo filho de José Joaquim Cordeiro e Florinda de Jesus. Seus irmãos: José Joaquim, Antônio Joaquim, João, Gertrudes, Ana, Mariana, Manoel e Pedro.

O filho mais velho, homônimo do pai, nasceu por volta de 1805 e casou-se com Teresa Rosa de Jesus antes de 1842. O terceiro filho, Antônio Joaquim, nasceu em 1814 ou 1815 e casou-se com Maria Emerenciana, dez anos mais nova do que ele.

Esta é uma das famílias que precisa ser melhor estudada. Os mais remotos documentos encontrados informam que eram pretos forros e que o chefe da família era lavrador, alfabetizado. Nos documentos posteriores não nos foi possível identificá-los. Temos notícia apenas do terceiro filho, Antônio Joaquim Cordeiro, citado como ausente na Assembléia para Eleição de Juizes de Paz e Vereadores em setembro de 1872.

OLIVEIRA

Anastácio Francisco de Oliveira nasceu por volta de 1788. Casou-se com Maria Vidal de Souza e faleceu em Leopoldina antes de 1856. Em 1838 possuía 3 escravos. Em 1843 contava com um agregado nos trabalhos de sua propriedade. Estamos falando de Joaquim Lourenço que, casado com Rita Silvéria, fazia parte do grupo familiar de Anastácio Francisco de Oliveira.

No Registro de Terras de 1856 a viúva Maria Vidal aparece como proprietária de 850 alqueires de “planta de milho” no lugar chamado “Saudade”, em comum com seus filhos e genros. Vizinhos: Romão Pinheiro Corrêa de Lacerda, Antonio P. Almeida, Antonio Carlos da Silva, Pedro T…, Manoel José Monteiro de Castro, Bernardo José Gonçalves Montes e José Zeferino de Almeida. A declaração foi assinada por seu filho Manoel, por ser analfabeta a mãe.

Filhos de Anastácio e Maria Vidal:

1 – Joaquina Umbelina

2 – Francisco Miguel

3 – Joaquim Francisco Vital, casado com Ana Joaquina, pais de Manoel (nascido 17.04.1880)

4 – Manoel Francisco de Gouvêa, casado com Ana Francisca de Sales, filha de Francisco de Sales Montes e Ana Umbelina de Moraes. Pais de Antonio, nascido 30.01.1856

5 – José Antonio

6 – João Eleotério de Gouvêa casado com Maria da Glória Ferreira. Pais de Mariana Flausina Ferreira que se casou com Manoel José de Oliveira a 07.05.1881 e de Maria Vidal Ferreira que se casou com José Amaro Neto na mesma data.

7 – Maria Anastácia

8 – Antonio Francisco

9 – Anastácio

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FONTES UTILIZADAS

Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina, MG – livros diversos, século XIX

Arquivo do Forum de Leopoldina, MG – processos de variada natureza, século XIX

Arquivo Paroquial: Igreja Madre de Deus do Angu, Angustura, Além Paraíba, MG – livros de batismos, casamentos e óbitos, século XIX

Arquivo Paroquial de Leopoldina, MG – livros de batismos e casamentos de 1851 a 1924.

Arquivo Paroquial de São João del Rei, MG – livros de batismos, casamentos e óbitos, séculos XVIII e XIX

Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte, MG - Mapas de Habitantes, Registros de Terras, Cartas de Sesmarias, séculos XVIII e XIX

Cartório de Notas de Angustura, MG – livros de compra e venda de bens de raiz, século XIX

Cartório de Notas, Leopoldina, MG – século XIX

Cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais, Angustura, Além Paraíba, MG – nascimentos, casamentos e óbitos, 1888 a 1920

Cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais, Leopoldina, MG – nascimentos, casamentos e óbitos, 1888 a 1920

Cemitério Nossa Senhora do Carmo, Leopoldina,, MG – livros de registro de sepultamentos, 1880 a 1920

Museu Regional de São João del Rei, inventários e testamentos dos séculos XVIII e XIX

Eleitores residentes na Piedade em 1882

Relação dos moradores da Piedade inscritos como eleitores conforme o livro de Alistamento Eleitoral de Leopoldina relativo ao ano de 1882.


  • Adolfo Gustavo Guilherme Hufnagel
  • Agostinho de Souza Campos
  • Antônio Alves Tavares
  • Antônio da Silva Tavares
  • Antônio David Alves Ferreira
  • Antônio de Souza Almada
  • Antônio Fajardo de Melo
  • Antônio Gonçalves de Castro
  • Antônio Gonçalves Filgueiras
  • Antônio Joaquim de Nazareth
  • Antônio Maurício Barbosa
  • Antônio Pereira Valverde
  • Antônio Pinto de Carvalho
  • Antônio Pires Veloso de Sá
  • Antônio Romualdo de Oliveira
  • Antônio Teixeira de Mendonça
  • Antônio Teixeira Reis
  • Antônio Vieira da Silva
  • Bernardo Tolentino Cisneiros da Costa Reis
  • Camilo Alves Ferreira
  • Cândido José Batista
  • Custódio Dias Moreira
  • David Alves Ferreira
  • Domingos Henriques Porto Maia
  • Domingos José Barbosa de Miranda
  • Domingos Vieira da Silva
  • Eleotério Gonçalves Pereira
  • Elias Gonçalves Filgueiras
  • Francisco Antônio Nogueira
  • Francisco Casemiro da Costa Filho
  • Francisco de Paula Ladeira
  • Francisco Esmério de Paiva Campos
  • Francisco Fajardo de Melo
  • Francisco Henriques Porto Maia
  • Francisco José Barbosa de Miranda
  • Francisco Luiz Pereira
  • Francisco Martins Pacheco
  • Francisco Soares Valente Vieira
  • Higino Dutra de Rezende
  • Jacob Antôno Furtado de Mendonça
  • João Antônio da Costa Coimbra
  • João Antônio de Araújo Porto
  • João Antônio Valverde
  • João de Souza Almad
  • João Desidério da Silva Durães
  • João Francisco Vieira da Silva
  • João Henrique da Costa Ramos
  • João José Alves Ferraz
  • João Paulino Barbosa
  • João Pereira Valverde
  • João Rodrigues Gomes
  • Joaquim Constâncio Loures
  • Joaquim de Souza Almada
  • Joaquim Fajardo de Melo
  • Joaquim Fidélis Marques
  • Joaquim Gomes de Araújo Porto
  • Joaquim José Medina
  • Joaquim Rodrigues Gomes Corujinha
  • Joaquim Vieira da Silva
  • Joaquim Wenceslau de Campos
  • José Carlos de Oliveira Pires
  • José de Rezende Montes
  • José Fajardo de Melo
  • José Fajardo de Melo Júnior
  • José Fernandes da Silva
  • José Francisco de Paiva Campos
  • José Francisco Vieira
  • José Furtado de Mendonça
  • José Henriques da Mata
  • José Joaquim Furtado de Mendonça
  • José Justino de Carvalho
  • José Martins Pacheco
  • José Maximiano de Moura e Silva
  • José Rodrigues Barbosa de Miranda
  • José Rodrigues Carneiro de Souza
  • José Rodrigues Gomes
  • José Teixeira de Oliveira Guimarães
  • José Vieira da Silva
  • Laurindo Gonçalves de Castro
  • Luiz Teixeira Machado
  • Manoel Antônio da Mota
  • Manoel Antônio Dutra
  • Manoel Ferreira Ribeiro
  • Manoel Ferreira Ribeiro Filho
  • Manoel Henriques Porto Maia
  • Manoel Henriques Porto Maia Filho
  • Manoel Luiz Pereira
  • Manoel Muniz de Azevedo Coutinho
  • Manoel Rodrigues de Oliveira
  • Mariano Henriques Pereira
  • Olímpio Rodrigues de Mendonça
  • Olímpio Sinfrônio de Souza
  • Pedro Antônio Furtado de Mendonça
  • Pedro Rodrigues Gomes
  • Roberto de Souza Almada
  • Silvério Gomes Filgueiras
  • Silvério José Barbosa de Miranda
  • Teotônio Joaquim de Araújo Porto
  • Urbano Otoni de Andrade Rezende
  • Vicente Alves Ferreira
  • Vital Inácio de Moraes
  • Vital Rodrigues de Oliveira
  • Wenceslau José de Campos
  • Wenceslau Martins Pacheco Filho