172 – O vizinho Antonio Carlos da Silva Teles Faião e a divisão das grandes propriedades

O Trem de História traz hoje um dos vizinhos do pioneiro Antonio Rodrigues Gomes. E dá início a sua história informando que, embora só tenha chegado por aqui quando o Sertão do Feijão Cru já contava com um arraial e a matriz de São Sebastião, Antonio Carlos da Silva Teles Faião situa-se entre os pioneiros por ter participado do movimento de expansão que resultou na emancipação quase quinze anos depois.

Nascido em Simão Pereira por volta de 1801, Antonio Carlos era filho de José Ferreira da Silva Teles Faião e Felicia Josefa de Souza, sendo neto paterno de Antonio Ferreira da Silva e Ana Maria Ribeiro Teles Faião e neto materno de Francisco José Ferreira de Souza e Antonia Rita de Jesus Xavier, irmã do Alferes Tiradentes. Casou-se[1] em Santo Amaro de Camapuã, Conselheiro Lafaiete, com Francisca Candida de Jesus ali nascida, filha de Joaquim José de Andrade, neta paterna de João Cristóstomo de Magalhães e Bárbara Maria Dias e neta materna dos mesmos avós maternos de Antonio Carlos.

Registre-se que o estudo da ascendência do casal teve a colaboração do correspondente Carlos Henrique Resende cuja cópia de seu trabalho[2] veio confirmar a hipótese dos autores desta série em contraposição a Arthur Rezende na Genealogia Mineira. Diferentemente do que publicou o respeitado genealogista mineiro, a família Teles Faião não migrou para Leopoldina, mas para a Serra da Canastra. Apenas o filho Antonio Carlos veio para o Feijão Cru por volta de 1840, tendo adquirido[3], além das terras vizinhas a Antonio Rodrigues Gomes, outros 32 alqueires da Fazenda São Luiz, de Antonio Prudente de Almeida, onde fundou o Sítio Conceição e aí se instalou com a esposa e a filha Vicencia Antonia que se casou com um dos proprietários da fazenda Santa Cruz, da qual se falará na próxima edição do jornal.

No registro de terras realizado em 1856, Antonio Carlos da Silva Teles Faião[4] não indicou o nome de sua propriedade. Entretanto, na divisão[5] promovida por seu genro consta que o nome original de tal propriedade era Fazenda Barra das Laranjeiras. O adquirente havia descrito suas terrras informando localizar-se na margem direita do Rio Pomba, nas vertentes até a barra do Ribeirão denominado Recreio (atual Ribeirão das Virgens), com 140 alqueires que comprou de José Thomas d’Aquino Cabral, Carlos Augusto de Aquino Cabral e Sebastião Gomes Teixeira Jalles. Mais tarde a Barra das Laranjeiras teve seu nome mudado para Fazenda Natividade.

Por tais indicações, suspeita-se que o terço final do atual Córrego dos Barbosa tivesse o nome de Córrego das Laranjeiras.

Teles Faião declarou que sua propriedade fazia divisa ao norte com o Rio Pomba e seguia pelas divisas com Manoel José de Novais (fazenda Saudades), Francisco da Silva Barbosa (Boa Vista), Mariana Teresa Pereira Duarte (fazenda Recreio), Antonio Rodrigues Gomes (Águas Vertentes), Bento Rodrigues Gomes (Cachoeira do Bagre), Joaquim Firmino e seus cunhados (Santana do Pomba). Este último era genro de Genoveva Maria de Jesus, da fazenda Santana do Pomba, comentada pelo Trem de História nos textos 156 e 157, cuja sede ficava no local onde mais tarde foi construida a Estação Vista Alegre da Estrada de Ferro Leopoldina. Quanto aos demais vizinhos declarados, não foi possível comprovar todos eles, já que a área adquirida por Teles Faião era menor do que a compreendida pelas divisas entre os confrontantes mencionados e alguns deles não declaram ter divisas com Teles Faião.

Ressalte-se que as informações prestadas por Teles Faião no registro de 1856 foram importantes para localizar as propriedades indicadas no parágrafo anterior, pois ao citar o Ribeirão Recreio permitiu fazer a medição da área compreendida entre o Rio Pomba, na altura da Estação Vista Alegre, as vertentes do Ribeirão que então se denominava Recreio por conta da fazenda homônima, e o Córrego do Moinho onde estava a propriedade de Antonio Rodrigues Gomes.

Como tem sido afirmado em diversas oportunidades, é necessário utilizar-se de conhecimentos desenvolvidos por pesquisadores de várias ciências, assim como dos instrumentos a elas pertinentes para que se possa compreender a ocupação do território do Feijão Cru. Entre estes instrumentos estão os documentos cartográficos que, embora espaçados no tempo, conservam marcações importantes para o estudo. No caso da localização das antigas propriedades, a fonte mais antiga foi produzida[6] pelo cartógrafo João José da Silva Teodoro em 1847 e nela se encontram os nomes de 242 proprietários ou de suas propriedades então localizadas na área que veio a formar a Villa Leopoldina pouco mais de seis anos depois. A próxima informação cartográfica[7] é de 1926 e nela se conservam muitos nomes das primeiras fazendas. O exercício se completa na transposição das informações de Teodoro e da Carta de 1926 para a Carta[8] de Leopoldina de 1977, permitindo, então, uma visão panorâmica das unidades agrícolas no início do povoamento.

Pelo que se conhece da história escrita de Leopoldina, não parece ter havido consulta a fontes que descortinam como e quando se deram as divisões das antigas propriedades. E é de se supor que o desinteresse pelo assunto talvez encontre respaldo numa visão romântica tardia.

Segundo Saliba[9], o sonho de uma sociedade harmoniosa embalou o fazer de filósofos, artistas, escritores e pensadores até o período das revoluções de 1848 em que a denominada “primavera dos pobres”, na Europa, buscava o fim da política da “tradição” e perpetuação de uma mesma classe no poder.

Ainda que o movimento tenha demorado a atravessar o Atlântico, não se justifica que no século XX os escritores da nossa história continuassem presos à esta visão romântica que incluía latifúndios, escravaria incalculável e muitas benesses, quando é sabido que a Leopoldina da segunda metade do século XIX era outra, com novos atores sociais assumindo o controle de sua força de trabalho.

Há mais de vinte anos os autores do Trem de História estudam o movimento imigrante no município, tendo observado que muitos deles se tornaram proprietários e não só na Colônia Agrícola da Constança. E foi o estudar o processo de divisão das antigas fazendas que resultou em compreender a região mostrada no esquema do texto anterior, onde estava a Fazenda Barra das Laranjeiras. Região que em 1920 estava pontilhada de pequenas propriedades, conforme registrou o Censo[10] daquele ano e por onde o Trem de História seguirá viagem no próximo Jornal trazendo as fazendas Santa Cruz e Natividade. Até lá!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 424 no jornal Leopoldinense, setembro de 2021


Fontes consultadas: 
[1] ASSIS, João Paulo Ferreira de. Polis 30 Um resgate da história dos municípios. Ressaquinha-MG: s.n., 1998-2003. nº 48 fls 19. 
[2] RESENDE, Carlos Henrique. Resendes e Rezendes. Juiz de Fora-MG: monografia, 2019. p 6 
[3] Registro de Terras de Leopoldina (Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114), nº 29. 
[4] idem), nº 8. 
[5] Divisão da Fazenda Natividade.  Processo 38404852 – COARPE - TJMG, img 8 
[6] TEODORO, João José da Silva. Carta Topográfica dos Termos do Presídio, Pomba e São João Nepumuceno (Acervo da Biblioteca Nacional: 1847). 
[7] Commissão Geographica e Geologica de Minas Geraes. Carta Geográfica de Cataguases Folha nº 20 S2 E3. São Paulo, Cayeiras e Rio: Secção Cartographica da Companhia Melhoramentos (Weisflog Irmãos incorporada), 1926. 
[8] Diretoria de Geodésia e Cartografia do IBGE – Superintendência de Cartografia. Carta de Leopoldina extraída da Carta do Brasil 1:50.000 Folha SF-23-X-D-V-2. 1977 
[9] SALIBA, Elias Thomé. As utopias românticas. 2.ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2003. p. 90 
[10] Ministerio da Agricultura, Industria e Commercio. Directoria Geral de Estatística. Recenseamento do Brazil realizado em 1 de setembro de 1920. Rio de Janeiro: Typ. Da Estatistica, 1924. v.2 328-344

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