Quando nasceu Jerônima de Mesquita?

É possível encontrar, em muitas publicações, informações sobre esta pioneira da luta pelos direitos da mulher, incluindo o direito de voto.

De modo geral, informa-se que nasceu em Leopoldina no dia 30 de abril de 1880 e que o dia de seu aniversário passou a marcar o Dia Nacional da Mulher.

Qual não foi a surpresa quando procuramos o seu batismo em Leopoldina! Num mesmo livro encontramos os três assentamentos abaixo.

Assentos do batismo de Jerônima Mesquita

Termo número 321, página 35

Aos vinte e cinco dias do mês de Junho do Anno de mil oito centos e oitenta n'esta Freguezia de S. Sebastião da Cidade Leopoldina o Padre Luiz Lopes Teixeira baptisou solemnemente e poz os Santos Oleos a innocente Jeronima, filha legitima de Jose Jeronimo de Mesquita e D. Maria José de Siqueira Mesquita, nascida a trinta d'e Abril d'este Anno; foram Padrinhos o Exmo. Sr. Barão de Mesquita e D. Josefina Emilia Villasboas. O Vigr.º Jose Francisco dos Santos Durães.

Outro assento do batismo de Jerônima Mesquita

Termo número 1267, iniciado na página 132 e concluído na página 133

Aos vinte e cinco de Junho do anno de mil oito centos e cinco n'esta Freguezia de S. Sebastiao da Cidade Leopoldina o Padre Luiz Lopez Teixeira baptisou solemnemente e poz os Santos Oleos à innocente Jeronima nascida a trinta d'Abril do mesmo anno e filha legitima de Jose Jeronimo de Mesquita e D. Maria José de Siqueira Mesquita, foram Padrinhos o Exmo. Sr. Barão de Mesquita e D. Josephina Emilia Villas Boas. O Vigr.º Jose Franc.º dos Santos Durães.

Conforme se observa, os dois assentos acima trazem quase os mesmos dados. A exceção fica por conta do ano de batismo e nascimento, que no primeiro assento era 1880 e agora é 1885. Ressalte-se, porém, que a palavra “cinco” está envolvida por um pontilhado, parecendo demonstrar que o próprio escrevente ficou em dúvida.

O fato de existirem duas transcrições é relativamente comum e se explica pelo hábito dos antigos padres anotarem os eventos em pedaços de papel e só mais tarde registrarem no livro próprio. Quando não eliminavam imediatamente o “rascunho”, ou seja, o papel onde inicialmente anotaram os dados, corriam o risco de se esquecerem e, posteriormente, ao encontrarem o rascunho faziam novo assento.

Considerando que os assentos anteriores e posteriores a este termo 1267 são de 1885, é possível que o padre Durães não tenha feito a transcrição de um papel ou rascunho, mas de um outro livro original onde a duplicidade já existisse.

E veio o terceiro lançamento

O terceiro assento de batismo de Jerônima de Mesquisa

Termo número 1475, página 154

Aos vinte e seis dias do Mez de Abril do Anno de mil oito centos e oitenta e seis n'esta Cid.e digo Freguezia de S. Sebastião da Cidade Leopoldina, o Pe. Luiz Lopes Teixeira baptizou solemnemente e poz os Santos Oleos a innocente Jeronima nascida a trinta de Abril de oitenta e filha legitima de José Jeronimo de Mesquita e Dª Maria Jose de Siqueira Mesquita; foram Padrinhos seu avô paterno o Conde de Mesquita e sua avó materna Dª Josephina Emilia Villas Bôas. O Vigrº José Francisco dos Santos Durães

Além de mais algumas diferenças de ortografia, temos agora outra data de batismo: 26.04.1886. Provavelmente por um engano de transcrição, já que os termos anteriores e posteriores ao 1475 trazem a mesma data.

Observa-se ainda que, entre o primeiro e o terceiro assentamentos, o avô paterno tinha alcançado uma outra posição na nobiliarquia brasileira: de Barão foi a Conde.

Uma análise grafotécnica sugere que os dois primeiros assentos foram feitos pela mesma pessoa e o terceiro apresenta um tipo de cultura gráfica ligeiramente diferente. Para se considerar este livro como original, há que se verificar que entre o primeiro e o segundo registros quase não há diferença no desenho das letras, apesar do intervalo de cinco anos entre eles. Já o terceiro, se se tratasse de original, surpreenderia por apresentar visível evolução no desenho após decorrido apenas um ano.

A apresentação destes assentos de batismo teve por objetivo chamar a atenção dos interessados em documentos originais. Apesar de tidos como tal, nem sempre se deve considerar como fonte inquestionável uma informação, baseando-se tão somente na antiguidade ou aparência do suporte. É fundamental uma análise comparativa, tendo em mente que todo documento é produzido a partir de uma determinada visão de mundo. E refletir sobre a as palavras de Le Goff sobre a “intervenção do historiador que escolhe o documento, extraindo-o do conjunto dos dados do passado, preferindo-o a outros, atribuindo-lhe um valor de testemunho que, pelo menos, em parte, depende da sua própria posição na sociedade de sua época”.

Mas já que foi utilizada como exemplo uma ocorrência relativa a Jerônima de Mesquita, registre-se que suas biografias costumam informar que em 1914, morando na França, enviou folhetos sobre a luta das mulheres naquele país e que em 1919, já de volta ao país, fundou o Movimento Bandeirante do Brasil no dia 30 de maio daquele ano, posteriormente Federação das Bandeirantes do Brasil. Em 1947 fundou o Conselho Nacional da Mulher do Brasil, foi membro da Associação Damas da Cruz Verde e ajudou a fundar a Pró-Matre. Faleceu no Brasil em 1972.

É mais uma leopoldinense que fez história!

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