Capela de Santo Antônio, símbolo da Colônia Agrícola da Constança

100 anos da Colônia Agrícola da Constança

CASAMENTO INTER-ÉTNICO

Coluna Publicada n'O Leopoldinense, 15 de fevereiro de 2008

 

Tivemos oportunidade de trocar opinião com muitas pessoas durante nossas buscas para compreender a história da Colônia Agrícola da Constança. Ao abrirmos espaço na internet para publicação dos estudos, começamos a receber mensagens que nos ajudam com informações e nos trazem novos documentos.

Vez por outra estes interlocutores nos obrigam a recorrer, inclusive, a literatura específica para esclarecer dúvidas. Foi o que aconteceu há pouco mais de dois meses, quando um leitor referiu-se à segregação racial por parte de imigrantes, o que teria impedido matrimônio de seus filhos com os nacionais.

Nada nos faz crer que isto tenha acontecido com os imigrantes por nós estudados. No caso dos italianos, inclusive, se analisarmos a noção de pertencimento a uma nação e as condições em que passaram a viver aqui, fica bastante claro que esta idéia não prosperou entre eles.

Sabemos que, quando os nossos imigrantes atravessaram o Atlântico, não se sentiam propriamente italianos, porque a unificação da Itália era recente e muitos nem concordavam com ela. Assim, é possível imaginar que eles se sentiam como pertencentes a um paese, moradores de uma determinada localidade. Mesmo porque, com diferentes santos de devoção e falando dialetos distintos dos outros passageiros que embarcavam no mesmo porto, na medida em que se acomodavam no vapor experimentavam emoções tão fortes que, muitas vezes, eram forçados a uma aproximação difícil com os companheiros de viagem, vencendo com sacrifício as diferenças culturais que os separavam em terra firme. A solidariedade nascia durante o percurso e a partir daí solidificavam-se laços de amizade, especialmente entre os originários de regiões italianas mais próximas.

Ao se estabelecerem em território brasileiro, natural seria que buscassem a vizinhança de amigos, o que nem sempre era facilitado pelo fazendeiro contratante. De tal sorte que a família italiana passaria a conviver com pessoas de outras etnias que trabalhassem na mesma fazenda. Ressalte-se, a propósito, que o estabelecimento de relações sociais com brasileiros poderia não ser mais difícil do que a convivência com originários das diferentes regiões da Itália. E naturalmente, como ocorre em qualquer grupo social, os italianos preferiam que seus filhos contraíssem matrimônio com filhos de famílias conhecidas.

O casamento dos filhos era também uma forma de arregimentar mais força de trabalho para alcançar o sonho de comprar um pedaço de terra. Segundo declarou uma de nossas entrevistadas, seu pai proibiu o namoro com um determinado rapaz quenão tinha jeito para lidar com a plantação”. E mais adiante completou: “Antes de casar com beltrano, meu pai ficava na sala para vigiar nosso namoro e ia falando, ensinando como tinha que trabalhar na roça para produzir mais”. Nenhum entrevistado, porém, fez referência a impedimento por conta da etnia.

Concluímos que, independente de qualquer tipo de segregação, as relações eram pautadas pelo objetivo a ser alcançado, incluindo o aumento da renda familiar. Para corroborar nossa posição, buscamos respaldo nos levantamentos sobre a população de Leopoldina que temos realizado. Apesar de ainda não concluída uma listagem exaustiva, chegamos a 4,5% de nascidos na Itália entre os moradores da última década do século XIX. Na mesma época, 7,5% das crianças batizadas tinham pais italianos. Quanto aos casamentos, observamos que nos primeiros anos novecentos são freqüentes os que envolvem duas nacionalidades, chegando a uma proporção de três consórcios entre diferentes nacionalidades para cada casamento entre italianos.

É por isso que, em nossos textox sobre os moradores da Colônia Agrícola da Constança, aparecem tantos sobrenomes não italianos como maridos ou esposas dos filhos dos colonos. Ou do próprio colono, como foi o caso de Giovanni Casadio.

Nascido a 31 de maio de 1885 em Massa Lombarda, Ravenna, Emilia Romagna, Giovanni tinha o mesmo nome do pai e sua mãe foi Luigia Martinelli, tendo chegado ao Brasil em 1898. Em Leopoldina casou-se com a brasileira Carlota Maria da Conceição, com quem teve, pelo menos, os filhos Sebastião e Antonia. Instalou-se no lote 35 da Colônia Agrícola da Constança em junho de 1910.

Segundo informou um seu descendente, Giovanni Casadio era a imagem do imigrante obstinado, para quem a vidaera trabalhar, trabalhar, trabalhar. Nada de diversão”. Entretanto, ao ser perguntado sobre a rotina diária, o mesmo personagem deixou entrever momentos de puro deleite, em que o patriarca Giovanni contava histórias da vida na Itália, a família cantava e dançava, enquanto se preparava uma saborosa refeição para toda a família.

Luja Machado e Nilza Cantoni

 

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