Arquivo da tag: Silveira

150 anos de nascimento

Honório de Vargas Corrêa nasceu em Leopoldina no dia 16 de maio de 1867, filho de Josué de Vargas Corrêa e Rita Guilhermina de Jesus. Era neto paterno de Francisco de Vargas Corrêa, filho de José de Vargas Corrêa e Ana Maria Silveira e de Teresa Maria de Jesus , filha de Francisco Pinheiro e Izabel Silveira.

Honório era neto materno de Antonio Rodrigues Gomes que, segundo Barroso Júnior, foi o escrivão da doação que Joaquim Ferreira Brito fez para constituir o patrimônio de São Sebastião do Feijão Cru. Sua avó materna,  Rita Esméria de Almeida, era filha de Rita Esméria de Jesus e de Manoel Antonio de Almeida, conhecido como “comendador” e genearca da numerosa família Almeida Ramos que povoou Leopoldina.

Honório casou-se em 1889, em Leopoldina, com Mariana Narciza de Lacerda, filha de João Antonio Narciso e Francisca Maria de Lacerda. O casal deixou numerosa descendência pelos seus treze filhos: Rita Guilhermina de Vargas, Josué Vargas Neto, João Narciso Corrêa, Antonia Honoria de Vargas, Alta Aparecida Corrêa, Antonio Corrêa, José Honório de Vargas e Maria Francisca Vargas

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Alistamento Militar de 1875

O antigo Curato de Santana do Pirapetinga foi elevado à categoria de distrito através da Lei nº 1.240 de 29 de agosto de 1864, em território desmembrado do distrito de Conceição da Boa Vista, município de Leopoldina. Na época as divisas foram definidas a partir do rio Pirapetinga pelas fazendas de José Joaquim Ferreira Monteiro de Barros, Mateus Herculano Monteiro de Castro e Jacinto Manoel Monteiro de Castro, até atingir as divisas do distrito de Angustura que também estava subordinado a Leopoldina.

No mesmo mês de agosto de 1864 a freguesia de São José do Paraíba, hoje Além Paraíba, foi desmembrada de Leopoldina e incorporada a Mar de Espanha, aí permanecendo até novembro de 1880 quando, através da Lei nº 2678, foi emancipada. Para a formação do novo município, Leopoldina perdeu o distrito de Pirapetinga.

No Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina podem ser encontrados alguns documentos sobre Pirapetinga relativos ao período de  16 anos de subordinação. Entre eles, o Alistamento Militar de 1875, do qual foram extraídas as informações abaixo.

* eleitor idade filiação nascimento
E Adriano Martins Carius 19 Joaquim José Carius, falecido e Maria Rosa de Oliveira Pirapetinga
E Afonso de Castro Teixeira Pena 25 Domingos José Teixeira Pena e Ana Augusta de Castro Pirapetinga
E Agostinho Daniel 24 Daniel José Azevedo e Candida S.J.Rio Preto
E Agostinho José de Lima 24 B. José de Lima e Joaquina S.Rita do Rio Negro
E Alexandre Simplício 25 Brigida Vassouras
I Antonio Alves de Lima 29 Manoel Alves de Lima e Bernardina Angu
E Antonio Basilio da Costa 19 Joaquim Geraldo e Maria S.J.Nepomuceno
I Antonio Candido da Costa Brabo 23 Manoel da Costa Brabo e Maria José Clementina Bomfim
Antônio Gomes da Costa 27 João Delfino e Gertrudes Aparecida
Antonio Inácio Santiago 25 Felício Inácio e Joaquina Rosa província do Rio
E Antonio Januario de C. e Castro 21 Sebastião José de Castro e Souza e Tereza Angu
Antonio José de Souza 26 José Francisco de Souza e Ana Maria da Conceição
E Antonio José dos Santos Júnior 24 Antonio José dos Santos, septuagenário e Maria Rosa da Conceição, falecida Paquequer
E Antonio José Esteves 29 João Esteves Gonçalves e Maria Joaquina Santa Cruz do Descalvado
E Antonio Martins de Campos 20 José Martins e Teresa Cantagalo
E Antonio Nunes Machado 22 Joaquim Manoel Machado e Delfina
I Antonio Pedro de Miranda Monteiro de Barros 19 José Joaquim Ferreira Monteiro de Barros e Maria Leonor, já falecidos C.BoaVista
E Antonio Stolé 28 João Stolé e Joaquina Cantagalo
Apolinário Israel da Silveira 19 Manoel Inácio da Silveira e Hipólita província de Minas
E Augusto Francisco Ribeiro 24 Isabel Cantagalo
I Belarmino Pereira Lima 24 Tomaz de Aquino Pereira Leite e Sabina Abre Campo
E Benedito Manoel de Oliveira 19 João Lemos e Balbina Santa Cruz de Monte Alegre
I Benjamin José dos Reis 23 Manoel José Pereira e Maria Cantagalo
Bruno Teixeira de Andrade 20 Francisco Teixeira de Andrade e Maria Carolina província de Minas
E Camilo Dias C. 22 Manoel Dias Pilucia e Mariana, já falecidos Ubá
I Candido Cardoso Pereira 23 Antonio Cardoso Bomfim
I Candido do Nascimento 20
E Candido José Soares 26 José Antonio e Rita S.Franc.Paula, Minas
E Carlos de Abreu Guimarães 24 José Antonio de Abreu Guimarães Piraí
I Cassiano Tomaz da Silva 24 Maria Luiza Pirapetinga
Clementino Ferreira Ramos 29 Maria Quintiliana província de Minas
I Custódio Augusto do Couto Godinho 26 Augusto do Couto Godinho, falecido, e Custódia S.J.Além Paraíba
I Custódio Galvão de França Teixeira 22 Antonio Galvão e Ana Eufrosina, já falecida Barra Mansa
E Domiciano Augusto Monteiro de Barros 24 José Joaquim Ferreira Monteiro de Barros e Maria Leonor, já falecidos Pirapetinga
I Domiciano Rodrigues da Silva 22 Maria Luiza de Jesus Pirapetinga
I Domingos de Paula 26 Francisco de Paula Ribeiro e Maria Porto Alegre
I Domingos Martins 26 Domiciano e Inês Pirapetinga
E Estêvão de Abreu Guimarães 26 José Antonio de Abreu Guimarães Piraí
E Estêvão José de Oliveira e Silva 30 José Antônio de Oliveira e Maria Joaquina Piraí
Estêvão Rodrigues da Silva 27 incógnitos Minas
E Fernando José de Souza Pereira 30 Manoel José de Souza Pereira e Maria Augusta Cantagalo
I Fernando Neto Souza Coutinho 22 Reinaldo Neto Souza Coutinho e Teolinda Clariana Itabira
I Firmino Correa Gomes 20 Antonio Correa Gomes S.Rita do Turvo
I Firmino Pedro de Oliveira 24 Pedro José de Oliveira e Maria Arrozal
E Francisco Alves Guimarães 30 Manoel Alves Guimarães e Francisca Pirapetinga
I Francisco Antonio do Amaral 23 João José do Amaral e Deolina Cantagalo
E Francisco de Paula de Assis Júnior 23 Francisco de Paula de Assis e Isabel Cecilia da Fonseca Rio de Janeiro
I Francisco de Souza Menezes 25 Valeriano e Josefa Barra Mansa
E Francisco Dias Ribeiro Júnior 26 Francisco Dias Ribeiro e Ana Luiza Cantagalo
I Francisco do Couto Godinho 22 Antonio do Couto Godinho, já falecido e Custódia S.J.Além Paraíba
E Francisco dos Santos Pimentel 25 Manoel dos Santos Pimentel e Ana Joaquina S.José das Queimadas
E Francisco José Coelho 26 Constança Marcolina de Jesus Brumado
E Francisco José de Lemos 26 Francisco Lemos do Prado S.A.Aventureiro
E Francisco José de Magalhães Lacerda 19 José Inácio de Magalhães Lacerda Pirapetinga
E Francisco José Lopes 23 Emidio José Lopes e Maria Joaquina N.S.Monte do Carmo
I Francisco Machado de Azevedo 24 Manoel Machado de Azevedo e Sabina Pirapetinga
E Francisco Matias 22 Teresa C.BoaVista
E Francisco Peixoto da Fonseca 21 Manoel Peixoto da Fonseca e Emília Pirapetinga
I Francisco Pinto de Carvalho 28 Luiz Pinto de Carvalho e Maria, já falecidos Barra Mansa
I Francisco Rangel 29 incógnitos Barra Mansa
Francisco Sabino 27 Francisco Teixeira de Andrade e Maria Carolina Minas
E Jeronimo Oliveira de Souza Gomes 19 Antonio Oliveira de Souza Gomes e Maria de Jesus Oliveira Cantagalo
I João 23
E João Caetano da Silva 25 João Caetano da Silva, viúvo C.BoaVista
I João da Costa Pereira 28 Manoel da Costa Pereira e Inácia Rio de Janeiro
I João da Silva 20 Pacífico da Silva Velho e Francisca Barra Mansa
E João de Abreu Guimarães 19 José Antonio de Abreu Guimarães Piraí
I João Francisco de Araújo 20 Manoel Francisco de Araújo e Maria Luiza Rio de Janeiro
I João Gregório Santiago 24 Manoel Felipe Santiago Vassouras
I João Ramalho 20 Francisco Ramalho e Sebastiana, já falecidos Pirapetinga
I João Ribeiro da Silva 22 Joaquim Ribeiro da Silva Campelo e Maria Barra Mansa
E João Rodrigues de Oliveira 22 Joaquim Rodrigues de Oliveira e Carolina Maria da Conceição Pirapetinga
I João Sena 19 Bernardino Sena S.J.Além Paraíba
E João Simplício 20 Simplicio José e Ponciana Pirapetinga
E João Solidâneo Teixeira de Carvalho 23 José Teixeira de Carvalho Sobrinho e Rosa Pirapetinga
I João Tomaz da Silva 20 Luciano Tomaz da Silva e Carolina Pirapetinga
I Joaquim de Castro Souza Lobo 23 Francisco de Castro Souza e Josefina S.Maria Madalena
I Joaquim Dias Coelho 20 Manoel Dias Coelho e Mariana Felícia Minas
E Joaquim Fernandes do Espirito Santo 25 Joaquim F. do Espírito Santo e Fortunata de Oliveira Serra Cantagalo
I Joaquim Manoel de Souza 24 Francisco Marinques e Bárbara S.J.Rei
E Joaquim Peixoto da Fonseca 22 Manoel Peixoto da Fonseca e Emília Pirapetinga
I José Antonio de Magalhães 21 Manoel José de Magalhães e Carolina Brumado de Sta.Barbara
E José Antonio Stolé 24 João Stolé e Joaquina S.Rita do Rio Negro, Cantagalo
I José Augusto do Couto Godinho 25 José Augusto do Couto Godinho, falecido, e Custódia S.J.Além Paraíba
José Bento Pereira 28 Bento Pereira e Bárbara província do Rio
I José Cantídio de Souza 20 Custódia Francisca dos Santos Pirapetinga
I José Correia de Meireles 22 Antonio Correia de Meireles e Ana Rosa Pirapetinga
E José Coutinho Pereira Leite 21 José Coutinho da Silva Pereira e Francisca Maria das Chagas Pirapetinga
E José da Silva 25 Pacífico da Silva Velho Barra Mansa
José da Silveira Azevedo 21 Zeferino Silveira província do Rio
E José de Faria Lima 27 Firmino Antonio de Lima e Constança Rio Pardo
I José de Souza Freitas 24 José de Freitas e Leopoldina Pirapetinga
I José de Souza Moura 28 Valeriano e Josefa Barra Mansa
E José Dias Ferreira Júnior 25 José Dias Ferreira e Ana Maria Dias Rio de Janeiro
I José Domingues da Silva 28 Domingos Leme da Silva C.BoaVista
I José Felismino de Moura 25 Felismino de Moura e Joaquina Pirapetinga
E José Francisco da Costa 21 Manoel José da Costa e Balbina Pirapetinga
I José Francisco de Araújo 26 Manoel Francisco de Araújo e Maria Luiza Rio de Janeiro
I José Francisco dos Santos 20 Manoel Francisco dos Santos e Florisbela Minas
E José Galvão de França 24 Antonio Galvão de França e Ana Barra Mansa
E José Joaquim Machado 24 Joaquim Manoel Machado Piraí
I José Justino da Costa Brabo 19 Manoel da Costa Brabo e Maria José Bomfim
I José Luiz Cláudio 21
E José Machado de Azevedo 25 Manoel Machado de Azevedo e Sabina Pirapetinga
E José Manoel de Magalhães 20 José Inácio de Magalhães Lacerda e Josefa, falecida Barra Mansa
I José Maria de Oliveira 22 Maria Joaquina Cachoeira do Campo
E José Querino 20 Antonio F… Carmo do Cantagalo
E José Veríssimo 20 Antonio Veríssimo Pirapetinga
E Júlio José de Lima 25 B. José de Lima e Joaquina S.Rita do Rio Negro
Juvêncio José Rodrigues dos Santos 27 João Reis dos Santos e Joana província de Minas
I Lauriano José da Silva 26 Domingos Leme da Silva C.BoaVista
I Laurindo Antonio Pereira 25 Floriana Maria de Jesus Calambao
I Liberato Rodrigues 22 Bento Antunes Pirapetinga
E Lourenço Bueno de Camargo 20 Manoel Bueno de Camargo Barra Mansa
E Lourenço Jacinto da Silva 28 Flávio Antonio Jacinto e Candida Rio Preto
I Manoel Alves Pereira 19 Francisco Marinques e Bárbara Rio de Janeiro
I Manoel Alves Pimenta 19 Fortunato Alves Pimenta e Balbina
I Manoel Antonio da Costa 22 Leonardo e Inácia Rio de Janeiro
E Manoel Bento Tomaz da Silva 19 Bento Tomaz da Silva Pirapetinga
I Manoel Bernardes da Silva 20 Manoel Bernardes da Silva e Claudina Pirapetinga
Manoel Candido de Aguiar 20 José Francisco de Souza e Maria Caetana província do Rio
E Manoel Correa Dias 20 Lourenço Correa Dias e Joana Cantagalo
I Manoel de Jesus Filho 20 Manoel de Jesus Cantagalo
I Manoel José de Oliveira 24 Desiderio e Luiza Barra Mansa
I Manoel José do Amaral 20 João José do Amaral e Deolina Carmo do Cantagalo
I Manoel José Henriques Júnior 26 Manoel José Henriques e Ana Mendes
E Manoel Rodrigues da Costa 26 Manoel José da Costa e Balbina Pirapetinga
I Marciliano Honorato Alves 21 Rita Maria da Conceição S.Rita do Turvo
I Miguel Pinto de Miranda 23 Antonio Joaquim dos Santos e Faustina S.J.Rio Preto
Nicolau da Rosa Pereira 20 Francisco Rosa Pereira e Marciana Inácia província de Minas
I Nicolau José Soares 20 José Antonio e Rita Candida S.F.Paula, Minas
I Olímpio Gonçalves Soares 21 Joaquim Gonçalves Soares e Gertrudes Mar de Espanha
I Pedro, enteado de Jeronimo Siqueira 19 Silvestre José da Silva Minas
E Perciliano Lopes da Conceição 19 Manoel Lopes da Conceição e Luscedia C.BoaVista
I Raimundo José da Silva 25 José da Silva Pinheiro Aparecida
I Raimundo Vitor Ramos 19 José Vitor Ramos e Maria Moreira Minas
I Romualdo Ferreira de Mendonça Monteiro de Barros 21 José Joaquim Ferreira Monteiro de Barros e Maria Leonor, já falecidos Pirapetinga
E Sebastião de Abreu Guimarães 20 José Antonio de Abreu Guimarães Piraí
E Sebastião José do Amaral 27 João José do Amaral e Candida Aparecida
Silvestre Alves 24 Maria Francisca da Conceição província de Minas
I Simplício Gonçalves Soares 19 Joaquim Gonçalves Soares e Gertrudes Angu
I Teodoro José Soares 22 Manoel Vicente Pontes Cantagalo
I Teófilo Francisco Araújo 19 Manoel Francisco de Araújo e Maria Luiza Rio de Janeiro
E Tibúrcio Alves Pereira 26 Eduardo Alves Pereira e Jeronima Rio de Janeiro
E Urbano Joaquim Saldanha Marinho 20 Caetano Saldanha Marinho e Ana Maria Valença
I Vicente Correia de Meireles 19 Antonio Correia de Meireles e Ana Rosa Porto Alegre
E Vicente de Paula Ferreira 27 Francisco Antonio Soares e Francisca Izidora Santa Cruz do Descalvado
I Virgolino José Antonio Alves 21 José Antonio Alves e Idelminda Bananal, SP

* – E = Excluído

* – I = Incluído

Fonte: Livro de Alistamento Militar do arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina

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Pioneiros Esquecidos

Ter a primazia em alguma circunstância valorizada pela sociedade é prêmio almejado por muitos caçadores da fama. Pessoas há que vibram com lisonjas recebidas por terem sido pioneiras em algum ato ou fato. Por outro lado, podemos encontrar muitas biografias recheadas de adjetivos que intentam celebrizar pessoas por atitudes fora dos padrões de sua época.

Não! Não é assim que entendemos o significado do pioneirismo que aqui vamos mencionar. Tentaremos nos afastar o quanto for possível de qualquer maniqueísmo embora saibamos, de antemão, ser quase impossível sufocar o respeito que nos despertam aqueles primeiros invasores das áreas proibidas. Uns dirão que eram pessoas corajosas, destemidas, heróis. E usarão uma série de adjetivos com a intenção de dignificá-los. Outros argumentarão que eram fugitivos ou pobretões “sem eira nem beira”.

Pedimos a você, leitor, que considere a distância no tempo e avalie as condições de vida enfrentadas por pessoas que, nascidas e criadas na região mais desenvolvida da província mineira do século dezoito, optaram por criar o próprio espaço longe do ambiente ao qual estavam acostumadas. Sabemos que este exercício poderá levá-lo a homenagear aqueles que deram início ao antigo Curato de Bom Jesus do Rio Pardo. Mas, se você só puder vê-los com olhos embaçados por adjetivos pouco nobres, ainda assim pedimos sua atenção para os poucos dados que pudemos apurar.

As concessões de sesmarias nos sertões do leste tinham diversos objetivos. Entre outros, a necessidade de povoar a mata e protegê-la de invasores não autorizados. Não podemos deixar de considerar que os sesmeiros foram também invasores. Entraram pela mata adentro, desalojaram animais e indígenas, abriram pastagens e lavouras com o aval dos governantes. Em última análise, prepararam o terreno para a criação dos povoados que se tornaram as cidades onde hoje vivemos.

Em sua quase totalidade os homens livres que povoaram a mata mineira vieram do centro da província. Aqui se instalaram, viveram e morreram. Aqui deixaram seu sangue na forma dos descendentes que muitos de nós representamos. Alguns daqueles pioneiros tiveram seus nomes eternizados pela historiografia oficial. A maioria, porém, foi solenemente esquecida.

Um dos esquecidos, cuja história talvez represente a média dos demais povoadores dos sertões do rio Pardo, foi batizado com o nome de Felisberto, filho de Domingos Gonçalves de Carvalho e Maria Vitória de Jesus Xavier, irmã de Joaquim José da Silva Xavier. No dia 29 de setembro de 1802, na Igreja de São Tiago, Serra da Bituruna, filial da Vila de São José, atual cidade de Tiradentes-MG, o jovem Felisberto casou-se com Ana Bernarda da Silveira. Ela foi batizada em São João del Rei no dia 11 de março de 1779, filha de Bernardo José Gomes da Silva Flores e Joaquina Bernarda da Silveira. No dia 02 de janeiro de 1804, em São João del Rei, nascia o primeiro filho de Felisberto e Ana Bernarda que recebeu o nome de Antonio Felisberto.

No dia 02 de dezembro de 1813 foi assinada a concessão de uma sesmaria a Felisberto da Silva Gonçalves, cujo protocolo de requisição tem a data de 29.11.1813. No mesmo dia foram assinadas concessões de igual teor para sua esposa Ana Bernarda, para seu irmão Domingos Gonçalves de Carvalho e para a esposa deste, Antônia Rodrigues Chaves. Pelas cartas concessórias observa-se que os dois casais já residiam na “barra do córrego Fortaleza, no ribeirão chamado Pardo, sertão da Pomba, Termo da Vila de Barbacena”, local das sesmarias concedidas.

No dia 10 de setembro de 1829, em sua fazenda no Monte Redondo, Felisberto e sua esposa Ana Bernarda assinaram procuração para que o irmão dela representasse o casal no processo de inventário de Bernardo José Gomes da Silva Flores, falecido naquele ano em São João del Rei.

Sabemos de alguns beneficiários de sesmarias que jamais tocaram o solo que lhes foi dado. Aqui mesmo, em nossa região, temos exemplo disso. Um dos agraciados com terras que vieram a constituir o distrito de Piacatuba não assumiu a posse nem cumpriu todas as exigências da concessão.

Na verdade somente a chamada Lei de Terras, na década de 1850, veio regularizar as posses. Até então, para negociar no todo ou em parte as terras ganhas, o sesmeiro precisava atender a certos requisitos da Igreja. Como é sabido, todo o solo brasileiro pertencia à Igreja e o Rei de Portugal atuava como uma espécie de administrador deste patrimônio. Portanto, a sesmaria concedida dava ao beneficiário apenas o direito de uso, não o de posse. Quando um sesmeiro decidia vendê-la, mesmo que uma pequena parte, necessitava negociar com a Igreja. É neste momento que identificamos o nascimento de muitos povoados e Piacatuba é um exemplo clássico. Tendo sempre residido na região de Capela Nova, o sesmeiro local nomeou um procurador para vender suas terras e doar uma parte delas para a constituição do patrimônio de Nossa Senhora da Piedade.

Pergunto ao leitor: pode-se considerar pioneiro, no sentido honroso que costumamos dar à palavra, uma pessoa que se utilizou do beneplácito de alguma autoridade sem jamais ter dado a contrapartida em benefício da posse recebida? Por outro lado, pode-se desconhecer o valor deste indivíduo que determinou o local onde nasceria Piacatuba? São pontos a serem analisados com cuidado. Principalmente para evitar rotulagens descabidas. Vale dizer, sesmeiros como o de Piacatuba não podem ser vistos como heróis nem como pessoas desprezíveis. Cada um teve o seu papel no desenrolar da história. E não podemos esperar uma sucessão de grandes feitos envolvendo cada indivíduo que veio povoar o nosso rincão. A trajetória de Felisberto da Silva Gonçalves pode representar um exemplo do sucedido a muitos outros antigos moradores assim como o foi o ocorrido em Piacatuba, de natureza bem diversa como se verá a seguir.

Beneficiado com sesmarias, Felisberto e Ana Bernarda fixaram-se na terra recebida e daqui não mais se afastaram. A contagem populacional de 1831 veio encontrá-lo em sua fazenda, acompanhado da mulher, do filho e da nora, além de um número de escravos que o colocava entre os maiores proprietários de cativos do então Curato do Espírito Santo. Sim, em 1831 o atual município de Argirita pertencia a Guarará. O irmão de Felisberto, Domingos Gonçalves de Carvalho, não aparece entre os moradores de 1831. Talvez tenha transferido suas terras para o irmão. Ou talvez fosse já falecido e o irmão estaria administrando os bens da viúva. Infelizmente ainda não encontramos documentos esclarecedores a respeito. De certo apenas a presença, junto a Felisberto em 1831, de um outro membro da família: Joaquim Gomes da Silva Flores.

A próxima notícia apurada dá conta de que existia uma capela dedicada ao Bom Jesus do Rio Pardo em data anterior à que se tem oficialmente como início do povoado. Em 1838, como se pode observar no primeiro livro de batismos da Igreja de Argirita, a família de Felisberto está presente já na primeira folha. No dia 28 de dezembro daquele ano foi batizado um filho de escravos de Felisberto. No mesmo dia seu filho Antônio Felisberto foi padrinho de batismo de outra criança e os assentos paroquiais registram: “todos moradores deste Curato”.

O cartório notarial de Bom Jesus do Rio Pardo começou a funcionar em fevereiro de 1841. Em seu primeiro livro, folha 27, encontra-se o lançamento de uma venda de terras realizada por Felisberto no dia 19.12.1841. O comprador foi Antônio Rodrigues da Costa.

Escritura de venda realizada por Felisberto da Silva Gonçalves

Mas dois anos antes o Felisberto havia comprado 60 alqueires de terras de José da Silva Paradelas, que estava se mudando para a Fazenda Bom Retiro, no distrito do Espírito Santo. Portanto, de acordo com os documentos encontrados, José da Silva Paradelas é outro sesmeiro que dedicou parte de sua vida a cultivar terras nos sertões do rio Pardo. Tendo recebido sesmaria quatro anos depois de Felisberto, a família Paradelas viveu nas proximidades do córrego Fortaleza durante 23 anos. Como a venda a Felisberto ocorreu no dia 10 de outubro de 1840, julgamos lícito imaginar que ambos, comprador e vendedor, precisaram acordar com a Igreja algum tipo de doação ao padroeiro. E considerando que o doador oficialmente conhecido aparece em terras do rio Pardo somente em 1840, lançamos aqui uma hipótese: talvez a capela que já funcionava em 1838 tenha sido construída em terras da sesmaria original dos Paradelas. Tendo decidido transferir-se para a Fazenda Bom Retiro, o sesmeiro pode ter vendido parte de suas terras a Inácio Nunes de Moraes e outra parte a Felisberto.

Entre 1839, ano da criação do distrito de Bom Jesus do Rio Pardo, e junho de 1849, época da conclusão do primeiro alistamento eleitoral de que se tem notícia, os homens que decidiam os rumos a serem tomados pelo povoado passam a ser melhor conhecidos pelos documentos preservados. Na análise daquele alistamento daremos notícias de alguns daqueles homens. Muitos, também, pioneiros esquecidos.

Em 1856, para atender ao disposto da Lei de Terras, todos os proprietários foram chamados a declará-las em livro próprio da Igreja. Analisando tal documento relativo a Leopoldina, encontramos a declaração do padre Francisco Ferreira Monteiro de Barros, de 15 de abril de 1856, informando que a Fazendo do Socorro tinha como vizinhos, entre outras, as terras de Felisberto da Silva Gonçalves. E na declaração do próprio Felisberto, constante do documento relativo a Argirita, encontramos a confirmação de que ele continuava residindo nas terras que ocupava desde os primeiros anos do século dezenove.

Pelo desaparecimento do primeiro livro de óbitos de Argirita, bem como do processo de inventário, a última referência a Felisberto em terras de Argirita é o Alistamento Eleitoral de 1863, quando o nome dele foi excluído da relação de eleitores por estar sofrendo de “demência senil”, doença hoje conhecida como artério-esclerose.

A busca dos ancestrais de Mauro de Almeida Pereira levou-nos a colecionar documentos que demonstram claramente quem foram os primeiros homens livres a ocuparem o território de Argirita. Mas ainda não podemos apresentar um quadro completo por dois motivos:

a) o desaparecimento de diversos livros paroquiais do século dezenove dificulta o estabelecimento do grau de parentesco entre os antigos moradores e possíveis descendentes nascidos no século vinte; e,

b) a família de Felisberto foi estudada a partir da única neta de quem encontramos referências bem fundamentadas.

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