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150 anos de Valério Rezende

Valério Barbosa de Rezende nasceu em Leopoldina no dia 7 de setembro de 1867, filho de Francisco de Paula Ferreira de Rezende e de Inácia Luiza Barbosa.

Geralmente o pai de Valério é lembrado, por ter sido o memorialista autor da conhecida obra Minhas Recordações, em que relata passagens de sua vida incluindo a temporada que viveu em Leopoldina.

Mas o filho Valério continuou vivendo em Leopoldina mesmo depois que o pai se transferiu para o Rio e veio a falecer em 1893. Bacharel em Direito como o pai, Valério foi Juiz Substituto nomeado em 1892, sócio da Sociedade Anonyma Arcádia Leopoldinense e sócio e redator do jornal O Leopoldinense a partir de 1894.

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63 – Luiz Botelho Falcão IV – parte 1

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O Trem de História direciona agora o foco da pesquisa para iluminar os caminhos seguidos pelos dois filhos de Luiz Botelho Falcão III e Ana Cecília: Luiz Botelho Falcão IV e Eugênio Botelho Falcão.

Luiz Botelho Falcão IV, de quem não se conseguiu documentar a data de nascimento, casou-se com Emília Antunes, nascida em 1860, filha de José Antunes Pereira e Custódia Maria de Jesus.

Segundo seu filho Luiz Eugênio, teria cursado humanidades no Colégio Pinheiro, no Rio de Janeiro, o que não se confirmou nas listas de alunos do citado Colégio nos anos de 1863, 1865 e 1867.

Também não foi encontrado o registro do casamento de Luiz Botelho Falcão IV que pode ter ocorrido em 1876, logo depois dele ter obtido a nomeação para suplente de Juiz Municipal no 2º distrito de Leopoldina.

Tudo indica que esta nomeação teria ocorrido a pedido do então futuro sogro que residia no distrito de Bom Jesus do Rio Pardo, atual município de Argirita.

Certo é que um ano depois de obter este emprego, Luiz IV iniciou a construção de uma casa na área urbana de Leopoldina. No mesmo ano, adquiriu escravo e no início do ano seguinte sua situação já era estável o suficiente para permitir-lhe colaborar com a Comissão de Socorro às vítimas das inundações em Portugal.

Em 1878 foi eleito vereador, tendo feito parte da comissão que aprovou a instalação de iluminação pública a gás em 1879. Sua carreira de homem público se ampliou um pouco mais em 1879, quando foi nomeado para o cargo de Inspetor de Instrução Pública no qual permanecia em junho de 1880, quando a reforma no sistema de ensino determinou que Leopoldina seria a sede do 8º Círculo Literário de Minas. Pediu exoneração em 1882.

Quatro anos depois ele foi citado como negociante em Leopoldina e em 1888 chegou ao posto de Major Ajudante de Ordens da Guarda Nacional ao passar para a reserva, agregado ao 23º batalhão.

Em abril de 1889 seu nome foi mencionado como redator proprietário do jornal O Leopoldinense. Mas vale recordar que no artigo nº 09 desta série ficou esclarecido que Luiz Botelho Falcão IV não foi o fundador do jornal O Leopoldinense, lançado em 01.01.1879 pelo Alferes Francisco Gonçalves da Costa Sobrinho.

Registre-se que, segundo as edições preservadas nas hemerotecas da Biblioteca Nacional e do Arquivo Público Mineiro, o Alferes, criador, primeiro proprietário e redator do jornal pioneiro de Leopoldina, havia atuado como guarda-livros e se incumbia de cobranças judiciais e extrajudiciais em Macaé, Campos dos Goitacazes, São João da Barra, São Fidelis, Cantagalo e Muriaé antes de vir para Leopoldina. Era, também, sócio fundador do Club Literário Campista onde atuou como Bibliotecário. Registre-se, também, que não foram encontradas edições de O Leopoldinense a partir do final do ano de 1886. Em 1889, o Alferes Francisco Gonçalves da Costa Sobrinho requereu nomeação como Escrivão de Órfãos de Rezende, RJ. Na edição 180 da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, de 29 de junho de 1889, bem como no Diário do Commercio (Rio) de 27 de junho e no Fluminense (Niterói) de 28 de junho, ele foi mencionado como fundador dos periódicos O Leopoldinense e Folha de Minas (Juiz de Fora).

Tudo indica que Luiz Botelho Falcão IV se interessou em comprar o Leopoldinense, mas não conseguiu manter a publicação com regularidade. E provavelmente a venda só se efetivou em 1889, tendo o jornal voltado a circular em novembro do ano seguinte, de forma irregular.

Por hoje paramos por aqui. Ainda existe carga sobre este personagem. Mas ficará para a próxima viagem do Trem de História. Aguardem.


Fontes Consultadas:

Secretaria Paroquial da Matriz do Rosário, Leopoldina, MG, lv 01 bat fls 61 termo 325.

Livro Caixa da Câmara Municipal de Leopoldina, códice 654 fls 3 item 6.

Cartório de Notas de Leopoldina, lv 699 fls 18-verso.

A Actualidade (Ouro Preto), 1878 2 out ed 101 p.1; 1879 26 abr ed 44 p.2 e 1880 26 jun ed 67 p.2.

A Província de Minas (Ouro Preto), 1882 21 dez ed 131 p.1.

A União (Ouro Preto, MG), 1888 9 junho ed 178 p.3.

Almanaque de Leopoldina (Leopoldina: s.n., 1886), fls 89.

Diário de Minas, (Outro Preto, MG), 1875 10 junho ed 467 p.1 e 1875 12 junho ed 468 p.1.

Echo do Povo (Juiz de Fora), 1882 21 dez ed 46 p.1.

Irradiação (Leopoldina, MG), 1889 11 abril ed 60 p.3.

Monitor Campista (Campos dos Goitacazes, RJ), 1879 17 fev ed 38 p 3 e 1879 1 maio ed 101 p. 2

O Baependyano (Caxambu, MG), 1880 11 julho ed 150 p.3.

O Globo – jornal do século XIX (Rio de Janeiro), 1877 5 jan, ed 5, pag 3 e 1877 8 jan, ed 8 pag 4

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 01 de novembro de 2016

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45 – A Título de Conclusão

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Como foi dito no início, a pesquisa que deu origem a esta série de artigos teve por objetivo reunir e sintetizar informações obtidas na leitura dos jornais publicados em Leopoldina nas duas últimas décadas do século XIX.

Neste processo foram confirmadas as palavras de José Honório Rodrigues, em “Teoria da História do Brasil”, para quem “o jornal pode dar-nos a cor e a vivacidade de uma época [e] pode guiar-nos nas manobras externas da vida política”.

No período examinado teriam sido publicados vinte e um periódicos no município de Leopoldina:

01) – O Leopoldinense, o mais antigo deles, circulou de 1879 a 1900; 02) – O Correio da Leopoldina, de 1881; 03) – O Povo, que circulou de 1885 a 1890 no distrito de Campo Limpo; 04) – Princípio da Vida, de 1885; 05) – O Pássaro, lançado em 1886; 06) – Estrela de Minas lançado em 29.07.1887; 07) – Ideia Nova de 17.11.1887; 08) – Irradiação que circulou entre 1888 a 1890; 09) – A Voz Mineira, de 1890; 10) – Gazeta de Leste que circulou entre 1890 e 1891; 11) – A Leopoldina cuja primeira edição data de 16.02.1893; 12) – A Phalena de 1894; 13) – A Voz de Thebas que circulou entre 1894 a 1897 no distrito de mesmo nome; 14) – O Correio de Leopoldina, de 1894; 15) – A Gazeta de Leopoldina, lançada em 1895; 16) – O Mediador que circulou entre 1895 a 1896; 17) – O Tiradentes, publicado em 1897; 18) – O Arame que circulou entre 1898 a 1899; 19) – A Lyra que circulou em 1898 no distrito de Campo Limpo; 20) – O Pelicano, consagrado à maçonaria, lançado em 1898; e, 21) – O Recreio, lançado em 1899 no então distrito de mesmo nome.

Entretanto, da maioria destes só foi encontrada referência em outras publicações por não terem sido preservados os próprios jornais. Ao final puderam ser analisadas quinhentas e quarenta e oito edições de apenas doze periódicos entre os anos de 1879 e 1899.

Percebeu-se que alguns deles tiveram distribuição fora dos limites do município e até mesmo em cidades de outras regiões. Além disso, o público atingido não se limitou a pessoas alfabetizadas, já que notas dos próprios periódicos indicam a prática de leitura pública em locais de concentração da cidade.

Não foi identificada uma diferença significativa entre o teor das matérias abordadas nas diferentes fases estudadas. A destacar, sob este aspecto, apenas a extinção de textos sobre a escravidão na década de 1890 e o acirramento das denúncias de cunho político a partir de 1894, quando se deu a criação de um jornal pela família que acabara de alcançar o poder municipal.

Conforme destacou Agnes Heller, em “O Cotidiano e a História”, a “vida cotidiana não está fora da história, mas no centro do acontecer histórico”. Por esta razão, acredita-se que as pautas escolhidas, assim como o enfoque dado a cada um dos assuntos tratados ao longo daqueles vinte anos refletem “a essência da substância social”.

E se, conforme Nelson Werneck Sodré, em “A História da Imprensa no Brasil”, a ampliação da cultura impressa se deu através dos almanaques, que funcionavam como livros para consulta generalizada, aos primeiros jornais de Leopoldina pode ser creditado o valor de prestar informações muitas vezes semelhantes aos almanaques da mesma época, bem como a formação de um público leitor que viria a se tornar consumidor de outros jornais e dos livros divulgados nas páginas daqueles pioneiros. E podem servir, também, ao resgate de parte da história da cidade e da sociedade como fizemos nesta série de textos.

Quanto a nós, que nos servimos deste trabalho para formatar esta série de artigos sobre a Imprensa em Leopoldina entre 1879 e 1899, resta-nos agradecer a paciência de todos, dizer que o Trem de História vai continuar viajando pela história de Leopoldina e, lembrar que a história não é importante pelo que se lê nela, mas pelo que se pode deduzir dela.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de abril de 2016

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Prado Leopoldinense

As corridas de cavalo eram uma das formas de lazer da sociedade leopoldinense na década de 1880, conforme indica a notícia a seguir, publicada no jornal O Leopoldinense. Trata-se de um prova ocorrida há 134 anos, no dia 12 de março, e um convite para outra competição que fora então marcada para o dia 25 de junho daquele ano de 1882.

Prado Leopoldinense

Alguns dos concorrentes indicados na nota são sobrenomes bastante conhecidas na época como Mesquita e Suckow.

Segundo informações colhidas em variadas fontes, o Prado Leopoldinense teria a localização abaixo.

Prado Leopoldinense

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44 – Conceitos Norteadores

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Como o leitor pode observar nos artigos desta série, o estudo sobre a Imprensa em Leopoldina entre 1879 e 1899 pretendeu abordar diversos aspectos e situações.

Isto porque um dos conceitos norteadores do trabalho nasceu da declaração de Monica Pimenta Velloso, em “História e Imprensa: Representações Culturais e Práticas de Poder”, de que em sua pesquisa as revistas tiveram dupla dimensão: eram fonte e objeto de análise.

Sabe-se que os jornais se tornaram objeto de averiguação histórica no Brasil a partir da década de 1970, quando começaram a surgir trabalhos que tomavam a imprensa como “objeto de investigação” conforme ensinam Capelato e Prado citados por Tânia de Luca em “História dos, nos e por meio dos Periódicos”. Quando se trata de um período mais distante, como foi o caso do estudo aqui abordado, a imprensa se torna a voz da sociedade daquela época, manifestada através das escolhas dos editores e redatores.

Com a finalidade utilizar os primeiros jornais de Leopoldina como fonte e objeto de análise, buscou-se firmar as melhores condições para o estudo. E para tentar entender a relação existente entre o mundo do texto e o do leitor daqueles jornais, concluiu-se que era preciso ler um grande número deles até que fosse possível formar uma opinião a respeito de cada aspecto a ser estudado.

Nos ensinamentos de Maria Beatriz Nizza da Silva, em “A Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822): Cultura e Sociedade”, encontrou-se um direcionamento para classificar as matérias, bem como para analisar as características da população e o cotidiano que ressaltasse das folhas consultadas. Para, através deste caminho, atingir o objetivo proposto.

E a ele se chegou, ainda que parcialmente. Em primeiro lugar porque os anúncios, meio bastante utilizado para este mister, no caso dos periódicos estudados eram de acanhada amplitude. E, por outro lado, porque a classificação das matérias por assunto deixou claro que apenas uma pequena parcela da sociedade merecia a atenção dos redatores. Por exemplo, em quase todas as edições há notícias sobre chegadas e partidas, seja de moradores da cidade ou de visitantes. Este era um tema que interessava muito mais à elite, ansiosa por notícias sobre o que faziam ou como se movimentavam os seus pares.

Durante a etapa de leitura dos jornais, chamou a atenção aquilo que Tânia Regina de Luca denominou “materialidade de jornais e revistas em diferentes momentos”. As modificações na aparência d’O Leopoldinense, entre 1879 e 1895, mereceram um cuidado maior na avaliação da importância dada às matérias publicadas. A simples observação permitiu suspeitar da ocorrência de avanços tecnológicos nos equipamentos de impressão disponíveis, os quais determinaram mudanças de formato do periódico.

Por outro lado, tomando como exemplo a coluna literária, observou-se que, em determinado período, ela fazia parte da primeira página e em outra época ocupou, indistintamente, a segunda ou terceira páginas. Sendo assim, seria inadequado utilizar uma classificação de importância dos temas a partir de uma hierarquização pelas páginas do jornal. Esta variação foi observada, também, nas mudanças de localização ocorridas nos cinco anos da Gazeta de Leopoldina que foram analisados.

A coluna literária surgiu nos jornais de Leopoldina como mais um fruto da época de forte expressão cultural da cidade – as últimas décadas do século XIX. Mais tarde foi desaparecendo das folhas, possivelmente em razão dos problemas apontados por Wagner Ribeiro em “Noções de Cultura Mineira”, que afirma: “Quem conhece as dificuldades, o desdém esterilizante, a falta de meios e de estímulos com que ainda hoje a imprensa do interior luta para afirmar-se e subsistir, pode calcular o que não representa de idealismo e tenacidade, a obra desses anônimos trabalhadores, numa época remota e em localidades então desprovidas dos menores recursos materiais para a consecução dos seus planos”.

Por hoje o assunto fica por aqui. Na próxima parada o Trem de História chegará ao final deste ramal sobre a Imprensa em Leopoldina. Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 16 de março de 2016

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42 – Gazeta de Leopoldina

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O Trem de História de hoje pretende falar sobre o mais duradouro e conhecido dos periódicos da cidade, a Gazeta de Leopoldina, fundada em abril de 1895, tendo como redatores e proprietários os senhores José Monteiro Ribeiro Junqueira e Antonio A. Teixeira. E como secretário gerente, Emílio A. Pereira Pinto.

Mas antes de tratar do assunto proposto, é importante registrar um agradecimento especial à Casa de Leitura Lya Maria Müller Botelho, detentora do acervo deste jornal, pela oportunidade de consultar o material ali existente. Até o início da redação da monografia de conclusão da pós-graduação, haviam sido consultados apenas os números existentes na Biblioteca Nacional e no Arquivo Público Mineiro. O acesso ao conjunto completo do mais longevo periódico que existiu em Leopoldina foi fundamental para compreender alguns aspectos que só se descortinaram com a leitura de números publicados na década posterior ao fim do período que foi objeto do trabalho.

Nelson Werneck Sodré, em A História da Imprensa no Brasil, afirma que as últimas décadas do século XIX representam uma grande época política e também literária.

Analisando os periódicos que circularam em Leopoldina no período, pode-se concluir que a efervescência literária marcou a imprensa local, num momento em que a cidade se destacava culturalmente e contava com muitas instituições de ensino de qualidade. Dentre os periódicos, a Gazeta de Leopoldina foi exceção por ultrapassar todos os outros em carga política.

Registre-se que este jornal surgiu quando a cidade contava com um bom número de folhas em circulação. E já em seus primeiros números mostrou a que veio: pavimentar a estrada para seu proprietário alcançar postos mais altos na política.05

É bom que se recorde que, naquele momento, o Sr. Ribeiro Junqueira não tinha assegurada sequer a sua posição à frente do governo local. Então, para ele que demonstrava pretensões claras, era crucial afastar os eventuais oponentes. E um dos meios a ser utilizado era a imprensa. Assim, de abril de 1895, quando veio à luz, a dezembro de 1899, último número analisado para este trabalho, raras foram as edições da Gazeta de Leopoldina que não disseminaram ironias e acusações contra seus oponentes. Fossem artigos do redator ou dos colaboradores, todos os periódicos publicados naquele quinquênio receberam alfinetadas mais ou menos intensas da folha que pretendia ser líder. E todos deixaram de circular pouco depois. Alguns sendo substituídos por outros títulos que também não sobreviveram ao furor com que a Gazeta lutava para reinar sozinha.

Nas edições do final do ano de 1896, a Gazeta de Leopoldina não deixou de dar algumas espetadelas em O Mediador e O Leopoldinense, pelo fato de terem sido escolhidos para publicar, no ano seguinte, os Atos da Câmara. E não foi apenas contra o nome dos periódicos que subterfúgios linguísticos frequentaram as páginas da Gazeta de Leopoldina, com o objetivo de desacreditar os concorrentes. Em diversas oportunidades também cita nomes de redatores ou proprietários dos outros jornais, quase sempre com alguma pitada de sarcasmo para denegri-los.

Como se vê, nos seus primeiros anos de vida, que correspondem aos últimos da série aqui estudada, a Gazeta de Leopoldina operava de forma bem diversa do que se conhece dos anos posteriores. Era, em certos momentos, um verdadeiro pasquim da imprensa local. Diante disto, e reconhecendo o seu valor histórico no meado dos novecentos, o Trem de História ressalta que ler só a Gazeta impedirá o leitor de conhecer o panorama sócio cultural que vigorava na Leopoldina daqueles tempos. Infelizmente, porém, não há edições dos demais periódicos na Biblioteca local, tendo sido necessário consultar os acervos da Biblioteca Nacional e do Arquivo Público Mineiro. Atualmente não é mais necessário visitar estas instituições, pois ambas dispõem de uma Hemeroteca digital em seus sites.

Na próxima edição o Trem de História abordará o último periódico utilizado em nossos estudos. Até lá!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 16 de fevereiro de 2016

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40 – Assuntos dos Antigos Jornais

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A imprensa em Leopoldina (MG) entre 1879 e 1899

Nesta reta final dos textos sobre a Imprensa em Leopoldina entre 1879 e 1899, o Trem de História traz hoje os assuntos que mais se destacaram nos periódicos estudados.

Verá o leitor que o formato de quase todos os jornais da época se limitava a uma dúzia de grupos de assuntos, tratados em cada periódico de acordo com a linha do seu editor.

Vale ressaltar que destes doze temas apenas a Escravidão foi assunto exclusivo do período anterior à assinatura da Lei Áurea, como se o normativo legal de 1888 tivesse eliminado o problema e suas consequências. Como se tivessem passado um limpa-trilhos mágico ou, uma supervassoura que varreu totalmente dos informativos as manchas da casa grande e da senzala.

Com esta ressalva, os demais assuntos estiveram presentes nos diferentes jornais durante todo o período estudado, com frequência maior ou menor segundo a linha editorial foram os seguintes:

Administração Pública – Matérias oriundas do Legislativo ou do Executivo como Avisos sobre recolhimento de Tributos, Alistamento Militar, Fiscalização e Atas. Eventualmente tais matérias eram republicadas de forma resumida nos jornais que não as recebiam diretamente dos respectivos órgãos.

Agroindústria – Artigos sobre Feira de Gado, Exposição Industrial, Café, Club Agrícola e, principalmente, instrução para melhoria da produção agrícola e de outras atividades econômicas da época, como criação do Bicho da Seda ou produção de leite e seus derivados. Na época estudada, embora o café ocupasse lugar de destaque, havia uma boa diversificação da atividade econômica no município.

Educação – Artigos, notícias e anúncios sobre escolas regulares, públicas e particulares, bem como cursos noturnos e aulas de música, incluindo-se pauta de reuniões, nomeação de professores, folha de presença, resultado de exames anuais e anúncios de livros à venda.

Escravidão – Artigos sobre emancipação, manumissão, libertação, Lei do Ventre Livre, descumprimento de leis e anúncios de fuga de escravos foram até 1888.

Imigração – Artigos de opinião sobre a substituição da mão de obra escrava pelos imigrantes; orientação para contratar e receber colonos imigrantes e anúncios sobre pedidos e chegada de imigrantes na Hospedaria Horta Barbosa, em Juiz de Fora.

Literatura – Contos, Folhetins e Poesia tinham espaço garantido. Os dois primeiros eram apresentados, na maioria das vezes, em capítulos.

Poder Judiciário – Nesta categoria enquadram-se as convocações para o tribunal do júri; notícias sobre julgamentos, prisão e fuga de presos; providências relativas a desordens públicas e, determinações gerais sobre cumprimento de normas.

Política – Alistamento eleitoral, resultado de pleitos, propaganda política e, na última fase, colunas de opinião enaltecendo ou acusando os líderes políticos.

Religião – Artigos com matéria de fé, como explicação de orações; anúncios sobre comemorações religiosas e campanhas de arrecadação para as obras pias.

Serviços Públicos – Matérias elogiando ou denunciando problemas em vias públicas, pontes, falta d’água e infração de posturas municipais.

Social – Condecorações, visita de personalidades, notícia sobre viagens a negócios ou turismo – na época denominado vilegiatura, anúncios de festas de aniversário, bodas, doenças e óbitos.

Transportes – Artigos e notícias sobre estradas e, principalmente, ferrovia.

Variedades – Anúncios de peças teatrais, carnaval, corridas de cavalo, construção de teatro, fundação de banda de música, apresentações circenses e, também, piadas e charadas.

Conforme citado em alguns textos desta série, dos 21 periódicos que circularam em Leopoldina entre 1879 e 1899, poucos tiveram edições preservadas em acervos públicos ou particulares. Até aqui já foram comentados O Leopoldinense, que circulou de 1879 a 1900; Irradiação, entre 1888 a 1890; Gazeta de Leste, entre 1890 e 1891; A Leopoldina, lançado em 1893; A Voz de Thebas, publicado entre 1894 e 1897; e, O Arame, que circulou entre os anos 1898 a 1899.

Por hoje o vagão está completo. Nas próximas colunas serão abordados mais alguns jornais. Aguardem.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de janeiro de 2016

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39 – Relembrando a partida inicial do Trem de História

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A partir de 16 de junho de 2014, com o artigo “Apresentação e início da história” o Trem de História começou a divulgar para o leitor do Jornal Leopoldinense um pouco do passado da cidade.

Na maioria das vezes, falando da Imprensa em Leopoldina no período de 1879 a 1899. Vez por outra, intercalando um assunto do momento.

A escolha do assunto principal partiu da afirmação de Xavier da Veiga na monumental obra intitulada ”Efemérides Mineiras”, de que Leopoldina estava entre os municípios mineiros com maior presença da imprensa periódica no final do século XIX. E porque, no dizer de Maria Beatriz Nizza da Silva, no livro Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822), os jornais são fontes preciosas para o historiador como documento da vida cotidiana, permitindo observar aspectos “que dificilmente se encontram em outra documentação”.

Majoritariamente foram textos baseados no trabalho de Nilza Cantoni para o curso de pós graduação em História Cultural pela Universidade Gama Filho, para o qual ela dedicou infinitas horas lendo e analisando periódicos da época. Leituras que permitiram esboçar um panorama da sociedade da época, despertando para o “estudo de um saber local nos moldes históricos” de que Lynn Hunt, em “A Nova História Cultural”, trata ao definir o que é a História Local.

Fato é que, manuseando este rico material, Nilza tirou algumas conclusões interessantes e constatou, como ainda se verá em mais alguns artigos que virão a público nos números seguintes do Trem de História, que os primeiros jornais de Leopoldina funcionaram muitas vezes como os almanaques da época, os quais formavam uma coletânea de informações que se destinavam a instruir o público leitor a respeito dos mais variados assuntos. Concluiu, ainda, que aqueles periódicos se propunham a atuar na formação de um público leitor que viria a se tornar consumidor de outros jornais e dos livros por eles divulgados.

Mostrar qual seria “O público alvo dos periódicos” foi preocupação do segundo artigo da série. Porque era fundamental conhecer as pessoas que se sentariam no banco do trem, na espreguiçadeira do alpendre ou, na cadeira da sala para ler o jornal.

Trabalho que começou pelo mais antigo jornal da cidade, “O Leopoldinense”, que em sua primeira edição se apresentava como “Folha Comercial Agrícola Noticiosa” e no subtítulo dizia ser “Consagrado aos Interesses dos Municípios de Leopoldina e Cataguases”.

Seria, entretanto, uma simplificação perigosa afirmar que O Leopoldinense tinha como público alvo apenas os moradores de Leopoldina e Cataguases porque poderia ser constituído pelos 59.390 habitantes da área de influência de Leopoldina.

E para entender esta ampliação do público alvo basta lembrar o fato de que alguns dos distritos emancipados estavam subordinados a municípios onde ainda não havia imprensa periódica. Além de Cataguases, este é o caso dos distritos que foram transferidos para Mar de Espanha, Muriaé e São João Nepomuceno, como pode ser deduzido da obra de José Xavier da Veiga, quando mostra que o primeiro jornal de Mar de Espanha é de 1882 e informa que em Muriaé e São João Nepomuceno os primeiros apareceram somente em 1887.

Interessante destacar que, do total de moradores apurado em 1872, apenas 65,54% deles eram cidadãos livres, o que poderia levar à conclusão de que o mercado do jornal seria de 38.924 pessoas, das quais apenas 9.010 eram alfabetizadas. Entretanto, o baixo índice de alfabetização não se torna totalmente excludente por conta de notas encontradas em vários jornais consultados, as quais confirmam a opinião de Walmir Silva, em A Imprensa e a Pedagogia Liberal na Província de Minas Gerais, que citando Gramsci afirma que: “o referido público não se resumia a letrados, sendo condição da pedagogia liberal alcançar os simples”. Conforme o mesmo autor, a oralidade teve grande importância num ambiente de baixa alfabetização: “a circulação dos periódicos e sua leitura pública alimentavam uma elite intelectual moderada, em sentido amplo”. E no mesmo sentido coloca-se Marcus de Carvalho, em A Imprensa na Formação do Mercado de Trabalho Feminino no Século XIX, ao mencionar a leitura em voz alta e também a frequência aos locais de concentração de pessoas como os meetings e clubs, para ter acesso à informação.

Ainda há o que contar. Mas o Trem de História de hoje precisa ficar por aqui. Precisa reabastecer a caldeira para o próximo número.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de janeiro de 2016

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21 – Mais um pouco de opinião e política

Logo da coluna Trem de História no jornal Leopoldinense

Conforme o prometido no artigo anterior, o Trem de História preencherá o vagão de hoje com o que resta na plataforma de opinião e política.

Para começo do trabalho, busca a edição de nº 3 do Arame, publicada em 11.12.1898, que bem representa o que foi este periódico. Nela se encontram matérias que descortinam vários assuntos daquele momento, numa clara demonstração de que este pequeno jornal praticava realmente a crítica assumida em seu subtítulo.

Um dos temas é uma “disputa de lavadeiras” entre a Gazeta de Leopoldina e O Leopoldinense, denunciada na primeira página. Conselho do articulista: que O Leopoldinense dê o exemplo de comedimento, calando-se, e deixe a Gazeta “gritar [porque] ela tem força é mesmo na língua”.

Logo depois, vem uma mensagem aparentemente cifrada: “as cabras preservam os outros animais da epizootia”, razão pela qual “o Zezé tomou o Mingote”.

Traduzindo-se por comparação com outras matérias d’O Arame, esta frase poderia significar que os jornais leopoldinenses deveriam agir como as cabras, defendendo-se da enfermidade contagiosa (epizootia) representada pelo Mingote (Ribeiro Junqueira).

E assim, sucessivamente as quatro páginas do periódico traziam também notícias como a do lançamento de um jornal em distrito da cidade, ao lado de reclamações por maus serviços públicos, bem como notas sociais. Na seção literária, inicialmente foram publicados poemas ou frases de Voltaire e José Alencar, além de máximas do escritor e teatrólogo francês Edmond de Goncourt que, na época, saíam em jornais parisienses e nacionais. Mais tarde esta seção, que inicialmente chamou-se “Pensamentos” e localizava-se na terceira página, passou para a primeira e publicou ensaios literários de autores sem fama conhecida.

Vale registrar que em todos os periódicos leopoldinenses analisados foi encontrado, de forma mais ou menos frequente, material produzido em ou sobre localidades distantes e até mesmo vindas do exterior. Num primeiro momento pensou-se na hipótese de serem republicações de outros jornais a que os editores tinham acesso. Contudo, informações sobre a trajetória profissional de Ricardo José de Oliveira Martins encaminharam as sondagens em outra direção.

Nascido em Leopoldina no dia 03.04.1879, aos 20 anos Ricardo Martins era encarregado da composição de tipos na Gazeta de Leopoldina, portanto empregado de Ribeiro Junqueira que o nomeou para o cargo de Agente do Correio. Através de acusações e cartas de defesa publicadas nas páginas d’O Leopoldinense e da Gazeta, entre dezembro de 1898 e abril de 1899 envolvendo Ricardo Martins, entende-se que houve problemas com a entrega de telegramas que trariam informações importantes para os jornais concorrentes.

Diga-se, a propósito, que antes da inauguração da Estrada de Ferro Leopoldina a população contava com um único meio de receber correspondência: as cartas vinham pelo Correio que, segundo A. Assis Martins e J. Marques Oliveira, no Almanak Administrativo, Civil e Industrial da Província de Minas Geraes para o ano de 1865, deveriam chegar a Leopoldina às 18 horas dos dias ímpares de todos os meses do ano. Depois da ferrovia, conforme ensina Joseph D. Straubhaar e Robert La Rose, em “Comunicação, Mídia e Tecnologia” “a estrada de ferro e o telégrafo se integraram e se complementaram” e o interior teve acesso a um novo meio de comunicação. A partir daí, segundo os mesmos autores “o desenvolvimento do telégrafo […] levou a uma revolução na distribuição das notícias”. Opinião corroborada por Nelson Werneck Sodré para quem, até 1874, as notícias chegavam ao interior por carta e telégrafo que, ao agilizar o acesso, estimulou até mesmo a criação de página dedicada a notícias internacionais.

Por hoje o Trem de História fica por aqui. No próximo ele volta com outro assunto.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA
Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de abril de 2015

Parte XVI de A Imprensa em Leopoldina (MG) entre 1879 e 1899

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9 – O Leopoldinense Pioneiro

Logomarca da coluna Trem de História

No vagão anterior falou-se dos diversos jornais que utilizaram o nome “Leopoldinense”. Neste, o trem de história reitera alguns pontos apurados sobre o jornal O Leopoldlinense lançado pelo Alferes Francisco da Costa Sobrinho em 01 de janeiro de 1879, o primeiro periódico que circulou na cidade e, por via de consequência, o primeiro a usar este nome.

De início, para colocar o trem na linha e desfazer o equívoco registrado por Luiz Eugênio Botelho no seu livro “Leopoldina de Outrora”, é necessário que se esclareça que Luiz Botelho Falcão não lançou O Leopoldinense em 1879 conforme afirma o autor. As edições do próprio jornal, consultadas para este trabalho, dão conta de que Botelho Falcão só assumiu o periódico alguns anos depois da sua fundação. E esteve à frente dele por cerca de dois anos, ao final dos quais, em 1894, o vendeu a Randolpho Chagas e Valério de Rezende.

Feito este esclarecimento, que se coloque lenha na caldeira para que o trem prossiga com a história. E diga-se que O Leopoldinense aqui estudado trazia nas suas primeiras edições o subtítulo: “Consagrado aos Interesses dos municípios de Leopoldina e Cataguases”. A partir do seu segundo ano de existência este subtítulo foi alterado para informar que o periódico passou a ser “Dedicado à Causa Pública”, embora continuasse com os mesmos posicionamentos e com a mesma equipe editorial.

Mais adiante, em maio de 1882, de fato ele sofreu uma significativa mudança estrutural quando foi desfeita a sociedade “Costa Sobrinho & C” e todo o ativo e passivo da tipografia, bem como a casa de negócio situada à Rua do Rosário nº 37 (atual Rua Tiradentes), passou a ficar a cargo do sócio Francisco da Costa Sobrinho, conforme nota publicada na primeira página da edição de 21.05.1882. Mas esta mudança aparentemente não alterou em nada a linha editorial, a estrutura e o público alvo do jornal, conforme se deduz das edições subsequentes.

Ressalte-se que O Leopoldinense nasceu e circulou numa época em que a política marcava presença no cenário municipal. Num período conturbado, com manifestações sobre a libertação dos escravos, a monarquia e a república. Anos de acirradas disputas no campo político e com forte apelo literário bastante influenciado pelas publicações francesas. Sem contar que sofria a influência de jornais publicados na Corte, como o “Diário do Brasil”, conforme fica patenteado na sua edição de 25.05.1882 quando o editor deixa claro que seu periódico acompanha o referido diário. E é bom que se diga que o “Diário do Brasil” é citado por Nelson Werneck Sodré, em “A História da Imprensa no Brasil” como sendo um dos órgãos da pequena imprensa que se isolou no apoio ao manifesto de Carl von Koseritz, em 1883, de incentivo à imigração germânica. Fato que leva a crer, com boa margem de certeza, que não teria sido por mero acaso que O Leopoldinense tenha se colocado em diversas oportunidades a favor da substituição da mão de obra escrava por colonos estrangeiros.

Alguns fatos podem dar uma ideia de quão árdua deve ter sido a sua luta. Um jornal do interior a defender a libertação dos escravos numa cidade que presta homenagem ao Barão de Cotegipe, dando o nome dele à rua principal. Um barão que, ao cumprimentar a princesa Isabel pela assinatura da Lei Áurea, teria afirmado: “Vossa Alteza libertou uma raça, mas perdeu o trono”. E no ano seguinte implantou-se a república. Uma cidade que homenageia Cotegipe, mas esquece a princesa Isabel e lembra Pedro II numa pequena Travessa que mais parece um apêndice da rua principal.

Mas vale lembrar que O Leopoldinense, além dos assuntos locais, publicava também matérias relativas a diversos municípios que não faziam parte da área de influência de Leopoldina. O que indica sua boa receptividade numa região mais vasta, embora não tenha sido possível identificar com precisão todo o universo dos seus assinantes. Sabe-se, apenas, que além dos moradores de localidades próximas ele possuía leitores em diferentes pontos das províncias de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, além dos residentes na Corte.

E para fechar o vagão de hoje resta dizer que O Lepoldinense circulou até os primeiros anos do século XX, embora no estudo atual não se tenha chegado às últimas edições. Dizer, também, que a viagem continuará e na próxima estação recolherá o vagão com a história de outro periódico da cidade. Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA
Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de outubro de 2014

Parte IX de A Imprensa em Leopoldina (MG) entre 1879 e 1899

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