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97 – Costa Cruz – Dilermando, vida e obra

Pensando nas ideias progressistas que buscavam soluções para o fim da escravidão e na ideia inovadora dos engenhos centrais que surgiram nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, e que chegou a Leopoldina com a criação do Engenho Central Aracaty, o Trem de História remexe o material dos baús que superlotam os vagões e destaca para a viagem de hoje o notável jornalista, escritor e poeta Dilermando Martins da Costa Cruz.

Assim, hoje se vai recordar um pouco sobre sua família e abordar a sua trajetória como o homem de letras que foi.

Dilermando nasceu em Leopoldina em 1879 e faleceu em 1935, em Juiz de Fora. Era filho de Custódio José Martins da Costa Cruz e Gabriela Augusta de Souza Lima da Costa Cruz. Neto paterno de Joaquim José da Costa Cruz c.c. Ana Joaquina Martins da Costa e, materno, de João José de Souza Lima c.c Carlota Raquel de Souza Barroso. Ainda por parte de mãe, era bisneto de Euzébia Joaquina de São José, falecida em Leopoldina, e que foi proprietária de fazenda que deu origem ao atual município de Dona Euzébia.

Dilermando casou-se com Maria Antonieta Lobato da Costa Cruz a quem dedicou o seu livro POESIAS:

“Santa – que minha vida fazes calma

E tão cheia de encantos e alegrias;

A ti, querida, e aos filhos de noss’alma.”[1]

 Era pai, dentre outros, do médico, prefeito de Juiz de Fora, deputado estadual e federal, secretário de Viação e Obras Públicas de Minas Gerais e juiz-forano, Dilermando Martins da Costa Cruz Filho [2].

Dilermando fez os primeiros estudos na sua terra natal. Estudou também em Ouro Preto e Barbacena. Moço formado, voltou para Leopoldina e iniciou sua carreira jornalística escrevendo para a Gazeta de Leopoldina e para a Folha de Leste. Aos vinte anos tornou-se empresário ao inaugurar [3] o Externato de Instrução Primária e Secundária e um Curso Noturno para adultos. Nesta mesma época, foi nomeado suplente de Inspetor Escolar Municipal [4], seu livro “Primeiras Rimas” já circulava e o segundo, “Diaphanas”, já estava à venda [5].

Em novembro de 1900, foi nomeado Promotor de Justiça [6] de Leopoldina. Dois anos depois, tornou-se Secretário de Comissão do Partido Republicano [7]. Fixando-se em Juiz de Fora, foi redator-chefe do Correio da Tarde [8], jornal que circulou algum tempo na “Manchester Mineira”, onde trabalhava em 1907.

Poeta brilhante, conforme cita o Dr. Joaquim Custódio Guimarães, na palestra Escritores Leopoldinenses, em 1986, publicou os livros: Primeiras Rimas, em 1896; Diáfanas, em 1898; Poesias, em 1909; e, Bernardo Guimarães, em 1910. Em prosa, deu a lume um caderno, que intitulou Palestras Literárias. Na época em que se verificaram as chamadas conferências de salão, espécie de jornal falado, foi notável. Estudou diversos temas – “O Belo”, “Saudades”, “Fontes”, “Caridade”, “Árvores” e vários outros, todos enfeixados em volume. Deixou um romance O Anacoreta, infelizmente inédito. Usou os pseudônimos: D.C., Diler e Celso Dinarte. Deixou obras literárias publicadas nos jornais mineiros: A Folha e Cidade de Barbacena; Gazeta de Cataguazes; Jornal do Commercio (de Juiz de Fora); Gazeta de Leopoldina, Mediador, Leopoldinense e Reação (de Leopoldina). Na imprensa carioca: Jornal do Brasil, O Paiz e Gazeta de Notícias [9].

Nelson Sodré lembra que [10], para Silvio Romero, “no Brasil […] a literatura conduz ao jornalismo e este à política”. Dilermando Martins da Costa Cruz é um exemplo clássico desta conclusão. Tipógrafo na Gazeta de Leopoldina, em seus primeiros anos publicou vários de seus poemas neste jornal. Foi uma vida de poeta, escritor e jornalista bastante intensa.

Por outro lado, sua atuação política transparece desde o início de sua carreira jornalística, em Leopoldina, bem como a de Estevam de Oliveira que fundou na mesma cidade o jornal O Povo em 1885. Ela se acentua em julho de 1907, conforme nota na edição 171 d’O Pharol, página 2, quando os dois literatos levantaram, em seus respectivos jornais Correio da Tarde e Correio de Minas, a candidatura à reeleição como presidente da Câmara do Dr. Duarte de Abreu, candidato de oposição ao governo local. Um exemplo entre os inúmeros outros que podem ser encontrados nos jornais da época, demonstrando a atividade político partidária destes dois representantes da imprensa leopoldinense.

Dilermando Martins da Costa Cruz foi um dos fundadores da Academia Mineira de Letras e, em 2010, foi escolhido Patrono da Cadeira nº 15 da Academia Leopoldinense de Letras e Artes – ALLA, ocupada por Natania Nogueira.

Por uma questão de espaço faz-se necessária mais uma interrupção. Uma parada para reabastecimento. Mas no próximo número a história dos Costa Cruz continuará. Aguardem.


Fontes Consultadas:

1 – CRUZ, Dilermando Cruz. Obras Completas. Rio de Janeiro: Typ. Jornal do Commercio, 1926. v. I, p. 161

2 – FGV/CPDOC. Disponível em <http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/dilermano-martins-da-costa-cruz-filho>. Acesso em 16.12.17.

3 – Gazeta de Leopoldina, 22 jan 1899 ed 41 p 1.

4 – idem, 4 junho 1899 4 junho ed 8 pag 1.

5 – idem, 9 abr 1899 ed 52 pag 1.

6 – O Pharol (Juiz de Fora), 6 nov 1900 ed 48 p 1.

7 – idem, 11 nov 1902 ed 419 p 2.

8 – idem, 10 out 1907.

9 – BARBOSA, Leila Maria Fonseca e RODRIGUES, Marisa Timponi Pereira (orgs.). Notícias da Imprensa sobre a Academia Mineira de Letras. Juiz de Fora, FUNALFA, 2009. p.23

10 – SODRÉ, Nelson Werneck. A História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1966, p. 212

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 350 no jornal Leopoldinense de 1 de março de 2018

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