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Estado brasileiro da região centro-oeste.

Governo colonial, distância e espera nas minas e capitania de Goiás

Imagem ilustrativa

Artigo de Fernando Lobo Lemes publicado na Revista Topoi de jul-dez 2012

RESUMO
“A temporalidade da espera associada aos intervalos impostos pelas distâncias geográficas à burocracia do governo colonial instala a vida dos habitantes de Goiás num ambiente transitório, constituído de eventos provisórios, onde os protagonistas devem fazer face às incertezas, enquanto esperam pelas decisões do rei de Portugal. Com a morte súbita do capitão-general João Manoel de Melo, a formação de um governo provisório aparece como estratégia das elites locais para controlar o tempo de espera e preencher o vazio de poder deixado pela ausência do governador. Neste cenário, os acontecimentos são percebidos como interações de força, cujas tensões podem transformar, ainda que transitoriamente, as relações estabelecidas na hierarquia dos poderes do império.”

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Picada de Goiás

Francisco Eduardo Andrade iniciou sua participação peladefinição do enfoque a ser dado que seria analisar a rota em termos de relaçõesde poder e econômicas, bem como em termos de constituição de umaterritorialidade da Capitania e depois Província de Minas Gerais. 

Explicando que a região abordadaestá localizada a oeste das nascentes do Rio São Francisco, declarou que oespaço já era explorado antes do início do período da mineração, contando comfazendeiros e vaqueiros que da rota da Bahia e de Pernambuco buscavam asnascentes do dito rio, incluindo o curso do Rio das Velhas, afluente daquele.Há também notícias de entradas de paulistas para o apresamento de indígenas,mais frequentes nas últimas décadas do século XVII. Assim é que, tanto asatividades pastoris como a busca do ouro e a caça aos naturais da terra,estimulavam o avanço em direção aos sertões mais interiores da Américaportuguesa. Donde há que se considerar as ligações históricas de Minas com MatoGrosso e Goiás, origem de conflitos de jurisdição entre Minas e Goiás no séculoXX.
Lembrou, também, que as atividadeseconômicas desenvolvidas nas Comarcas do Rio das Velhas e do Rio das Mortespromoviam a expansão pela região a oeste do São Francisco. Com o descobrimentodo ouro pelos paulistas no início do século XVIII, o processo de povoamentodaquele sertão ampliou-se significativamente. As tradicionais trilhas indígenasforam refeitas com novos propósitos. O interesse de vários grupos, comojornaleiros, faiscadores ou senhores de avultada fortuna era, além de encontrardescobertos lucrativos de ouro ou terra para pastoreio e plantio, apropriar-sedos ganhos provenientes do comércio legal de gêneros e escravos, ou docontrabando nas rotas coloniais importantes. 
Na década de 1730, em função daspossibilidades lucrativas desta rota do oeste, os arrematantes dos contratos decobrança das taxas de entrada de gêneros e escravos na Capitania de MinasGerais, os sertanistas Matias Barbosa da Silva e José Álvares, de Vila Rica,buscaram autorização dos governantes para abrirem um caminho na rota paraGoiás. Junto a eles, dois outros nomes poderosos da Vila do Carmo, atualMariana. Eram eles Caetano Álvares Rodrigues e Maximiano de Oliveira Leite. 
Soubemos, assim, que a aberturada rota para Goiás obedeceu ao mesmo modelo do Caminho Novo, ou seja, astrilhas já existiam e foram apenas melhoradas por aqueles que a históriatradicional cita como abridores do caminho. Citando o parentesco de Maximianode Oliveira Leite com Garcia Rodrigues Paes, Francisco Andrade brincou dizendoque parece uma novela: muda o cenário, mas os personagens são sempre os mesmos.O acordo com o governador só foi estabelecido em 1736, sob a alegação de que osassociados do empreendimento pretendiam favorecer o comércio legal, evitando-seos extravios. Entretanto, sabe-se que eles também participariam do contrabando.As alianças entre os membros do grupo e o poder basearam-se em laços de amizadee parentesco. Este aspecto, que hoje é visto como tráfico de influência, naépoca era uma prática absolutamente natural.
Neste ponto o palestrante lembrouque era uma forma de manter a competição entre os poderosos, no sentido daemulação, ou seja, uns buscando suplantar os outros não para destruí-los, maspara atingir fortuna maior e, consequentemente, alcançarem um patamar mais altona escala de poder. Não havia interesse em destruir o outro pela simples razãode que possuir mais do que alguém despossuído não significaria uma vitória. 
Matias Barbosa, Caetano ÁlvaresRodrigues e Maximiano Oliveira Leite eram proprietários de terras e escravos emoravam na região do Carmo Abaixo. Matias Barbosa era português e chegou àsMinas na época dos primeiros descobrimentos de ouro, tornando-se rico fazendeiro,negociante e minerador, fazendo valer seus interesses junto à justiça local.Foi, ainda, arrematante de dois contratos de direitos de Entrada na Capitania,o que lhe permitiu reforçar o caixa. O contratante José Álvares foi tãoimportante que se destacou até na praça de Lisboa, durante o período pombalino,participando de 17 contratos régios. 
Francisco Andrade ressaltou queos agentes pretendiam muito mais do que o alegado oficialmente, já que seassenhoraram de várias atividades na rota e nos encontros de rios, sempreobtendo altos lucros. Mas além dos senhores acima citados, outros poderosos daCapitania do Rio das Mortes, como Manoel da Costa Gouvêa, Manoel Martins deMelo e Francisco Bueno da Fonseca, intentaram participar das mesmas oportunidades,fazendo atalhos para a picada daqueles. Pretenderam, também, terras epossibilidades de lucro. Foram, porém, cautelosos em relação a disputas com ossenhores da Comarca de Vila Rica. 
As autoridades sempre descreverama região oeste como problemática, com quilombolas e outros viandantes queficavam circulando por ali, causando receio aos trabalhadores e fazendeiros.Com a criação da Capitania de Goiás, aumentaram as tensões sociais naquelaslocalidades, resultante da entrada constante de sesmeiros, mineradores,faiscadores e artesãos.
O palestrante destacou que aPicada de Goiás favoreceu a entrada de uma população pobre que foi se juntandoem pontos estratégicos de uma rota com boas possibilidades de lucro, legal ouilegal, especialmente porque o caminho de São Paulo também passava por ali.Assim, tudo o que saía de São Paulo, Rio de Janeiro e Vila Rica, demandando ointerior, transitava pela rota. Os mais pobres, geralmente artesãos comosapateiros e carpinteiros, ou ferreiros e pequenos comerciantes, procuravam umlugar que lhes permitisse ganhos. Os mineradores, por sua vez, dependiam destesprofissionais.
Os senhores de Vila Rica fundaramarraiais e capelas na região, onde estabeleceram dirigentes de sua confiança,os quais exerciam múltiplas atividades de interesse pessoal. Os senhorestiveram poder até mesmo para convencer o bispo de Mariana a elevar tais capelasa sedes de paróquias, causando novos conflitos. Como exemplo deste modelo denascimento de uma freguesia, foram citadas Tamanduá e Oliveira.
Além dos conflitos de interessescom os senhores da Comarca do Rio das Mortes, houve também conflito com osinteresses paroquiais desta mesma Comarca. Foi citado um capelão de Tamanduá,apadrinhado do grupo de Vila Rica, que abriu filiais em toda a região, montandouma rede de capelães a ele subordinados, invadindo a jurisdição das Comarcasvizinhas.
Concluindo, Francisco Oliveiradeclarou que ocorreu uma grande rede econômica e política bancada pelosinteresses eclesiásticos.
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