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76 – Biblioteca Leopoldinense

Hoje não temos uma viagem, mas uma parada do Trem de História na oficina. O objetivo é consertar uma narrativa colocada nos trilhos na viagem de nº 54, em agosto de 2016. Vem contar a história da Biblioteca Pública, recentemente instalada no prédio do antigo fórum, para fazer ajustes ao que se conhece.

A história mais conhecida inicia-se em 1959 quando, a título de cooperação do Ministério da Educação e Cultura(1) para com a administração do Município de Leopoldina, o Ministro Clóvis Salgado designou o professor João Barroso Pereira Junior para proceder a estudos que visavam organizar o Departamento de Cultura na cidade. Nessa mesma época, Barroso Júnior foi nomeado pelo Ministro Clóvis Salgado como primeiro Diretor da Biblioteca Municipal de Leopoldina que foi então instalada em parte do segundo andar do Colégio Estadual Professor Botelho Reis. Sob sua orientação a Biblioteca buscava ir além das estantes de livros para oferecer cultura geral aos usuários através de revistas, jornais, obras de arte e peças antigas.

“Barrosinho”, como a ele se refere carinhosamente Mário de Freitas(2), era professor, bibliotecário, historiador e jornalista. Daí sua grande importância para as áreas de educação e cultura de Leopoldina. Por sua orientação e criação pela Lei Municipal nº 316, de 1959, surgiu o  quadro de funcionários da Biblioteca Pública Municipal com o qual se viabilizou o seu funcionamento, a partir de 29.09.60, na ala esquerda do 2º andar do prédio do Ginásio, ao lado da agência do então Departamento Nacional de Obras Contra a Seca – DNOS.

E sob a coordenação de Ana Eugênia de Azevedo Filha, até 1969 funcionou com a colaboração de Antonio Sérgio Lima Freire (Serginho do Rock, patrono da cadeira nº 9 da Academia Leopoldinense de Letras e Artes), Welsor Machado e Petrina Gomes Machado.

Posteriormente a professora Maria Helena Vieira Campos assumiu a coordenação e entendendo que a Biblioteca tem por finalidade promover a cultura, criou o 1º Concurso de Poesias Augusto dos Anjos cuja 25ª edição ocorreu em 2016.

O nome atual de Bibioteca Pública Municipal Luiz Eugênio Botelho foi determinado pela Lei Municipal nº 1106, de 1975, um mês depois da morte do homenageado, autor de livros de memórias sobre Leopoldina.

Tudo isto é sobejamente conhecido de todos e não há o que se discutir quanto à importância dessas ações para o desenvolvimento cultural da cidade.

Um novo capítulo na história da Biblioteca Municipal

O que poucos leopoldinenses sabem é que a Biblioteca Leopoldinense, organizada e valorizada por Barroso Junior por orientação do Dr. Clóvis Salgado, tem sua fundação mais de meio século antes.

Na página 2 da edição de 23/09/1895 da Gazeta de Leopoldina, encontramos a seguinte notícia:

“A camara municipal, desde o dia 17 do corrente, passou a funcionar no palacete que foi do Dr. Gabriel, adquirido para este fim. Hoje é o Itamaraty da terra. É ocasião apropriada para se dar novo regulamento à biblioteca, o que aliás desde muito é reclamado. Augmentada, em uma sala independente e com um bibliottecario cuidadoso – muito proveito poderá trazer a todos aquelles que queiram se instruir.”

Mas ao que tudo indica essa biblioteca não deve ter tido a ampliação sugerida e, possivelmente foi abandonada, uma vez que dez anos depois ela retorna ao noticiário em matéria publicada pelo Jornal O Pharol de 27.09.1905, edição 228 p. 2, conforme aqui se reproduz:

“Devido aos ingentes esforços do dr. Custodio Lustosa, integro juiz de direito de nossa comarca, a Bibliotheca Leopoldinense torna-se uma realidade pois, o que hontem não passava de uma idéa, hoje é um facto. A creação da bibliotheca é de utilidade palpitante, e isto, graças a Deus, vae sendo comprehendido por todos os bons leopoldinenses, que estão sempre promptos a trabalhar, luctar, desde que desse trabalho e lucta, possa brotar uma scentelha de progresso para esta velha e legendaria Leopoldina. A bibliotheca já tem recebido quarenta e muitos livros e vários jornaes.Têm feito offertas de livros os seguintes cidadãos: drs Custodio Lustosa, Randolpho Chagas, Rodrigues Campos, Pessoa Lins, Costa Cruz, Nunes Pinheiro, solicitadores Sylva Junio, Ricardo Martins, Arthur Leão, e o sr. Juvenal Carneiro. É de esperar que todos os nossos municipes concorram para o engrandecimento da Bibliotheca Leopoldinense.”

Curioso observar que, mesmo nesta nova fase, a Biblioteca Leopoldinense é anterior à criação do Ginásio Leopoldinense, considerado um marco do desenvolvimento cultural da cidade.

Importante ressaltar, também, o relativo esquecimento a que foi deixado este seu fundador, o Juiz de Direito Dr. Custódio de Almeida Lustosa, que durante 23 anos, de 1904 a 1927, esteve à frente da Comarca de Leopoldina.

Dr. Custódio Lustosa, segundo sua autobiografia, além dos trabalhos de Juiz, lecionou português, história universal e psicologia no Ginásio Leopoldinense e tomou parte nas bancas examinadoras de latim e grego. É da sua época na cidade a construção do Fórum na Praça Félix Martins (hoje, Centro Cultural Mauro de Almeida Pereira), da Santa Casa (Casa de Caridade Leopoldinense), do cinema (Cine Brasil que existiu na esquina das atuais ruas João Lamarca e Custódio Junqueira), além da fundação do Colégio Imaculada Conceição e de outros benefícios que reanimaram a cidade.

Chama a atenção, também, o esquecimento dos nomes citados na matéria publicada no jornal O Pharol como doadores das primeiras obras que formaram o acervo da Biblioteca Leopoldinense. E uma curiosidade: quem fizer uma visitinha à Biblioteca observará que, entre as obras raras, há vários títulos da área do Direito. Talvez alguns deles remontem ao tempo em que os bacharéis capitaneados por Custódio Lustosa doaram seus livros para engrandecer o patrimônio cultural de Leopoldina. Nem todos eram leopoldinenses de nascimento, mas adotaram a cidade quando para cá vieram exercer suas funções. E não eram só advogados os que compunham o grupo: Nunes Pinheiro era médico, Ricardo Martins era jornalista e Juvenal Carneiro era guarda-livros. A maioria deles foi professor no então Colégio Leopoldinense fundado em 1906.

E pela atualidade do assunto, para encerrar esta parada nas oficinas do Trem de História, vale lembrar trecho da sua autobiografia em que Custódio Lustosa registra: “Quando lá cheguei (em Leopoldina, em 1904) ainda se faziam sentir os efeitos da FEBRE AMARELA que estava aniquilando o Brasil. Bendito Osvaldo Cruz!”.

A mesma Febre Amarela para qual a Fundação Oswaldo Cruz hoje, 113 anos depois, fabrica milhões de doses de vacina para combater um novo surto que ameaça a todos. Bendito Osvaldo Cruz, repetimos.


Fontes consultadas:

1 – Diário Oficial da União (DOU) • 13/03/1959• Seção 1 • p. 25. Portaria 97 de 05/03/1959. Disponível em <http://zip.net/bbs7xl>. Acesso em 30 nov. 14.

2 – FREITAS, Mário de. Leopoldina do Meu Tempo. Belo Horizonte: Página, 1985. p.236 e 244

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 330 no jornal Leopoldinense de 27 de abril  de 2017

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56 – Barroso Júnior na visão de terceiros

O último vagão com informações sobre João Barroso Pereira Júnior traz opiniões e comentários de pessoas que conhecem a sua obra.

E começa com o material de José Barroso Junqueira(1), citando o tabloide “Leopoldina – 155 anos de História”, jornal publicado em comemoração aos 155 anos da cidade, em 27 de abril de 2009. Para José Barroso, em função de seu tio ter sido “educado desde criança, em colégios de padres, adquiriu sentimentos de moral e religiosidade cristã, desfrutando de estima e consideração de todos que o conheciam.” Segundo a mesma fonte, “sua vida e sua dedicação às causas sociais não ficaram, entretanto, restritas exclusivamente aos preceitos da religião católica. No seio da família, nas reuniões sociais, nos meios literários, sempre baseado na moral teológica, fazia-se admirado pela sua jovialidade, pela sua inteligência, quer palestrando, quer através de produções literárias e históricas.” E acrescenta que, “como jornalista e historiador, o passado o envolvia” e “era evocado em todos os seus acontecimentos dignos de registro”.

Sobre a sua principal obra publicada, “Leopoldina – Os seus primórdios”, José Barroso Junqueira assim se manifesta:

“Uma obra pioneira. Levantamento histórico de episódios relacionados com a nossa cidade, seus vultos, suas vidas e realizações. Esse trabalho, de investigação, levantamento e interpretação de sua significação na vida leopoldinense e publicado em 1943 é, até hoje, leitura e consulta obrigatória de pesquisadores para conhecimento de coisas, fatos e pessoas ligadas à nossa História. Foi escrito com primor e com palavras poéticas, que evidenciam o amor do autor pela cidade que adotou como sua para viver e morrer.”

Mário de Freitas(2), que a ele se refere chamando-o carinhosamente de “Barrosinho”, relaciona-o como professor, bibliotecário, historiador e jornalista.

Sérgio Otávio Bassetti(3), ao historiar a política de educação especial em Santa Catarina, ressalta que as ideias precursoras de educação especial naquele estado organizaram-se em 1954, quando da visita a Florianópolis do Professor Barroso Júnior, que ali esteve para divulgar a novidade do Instituto Nacional de Educação de Surdos – INES, do Rio de Janeiro (RJ). Nessa ocasião o INES havia criado um curso para formação de professores do ensino primário voltado para alunos com deficiência auditiva. Como foi dito no primeiro artigo da série, durante seis meses Barroso Junior prestou apoio à Fundação Catarinense de Educação Especial(4) e ao Instituto de Surdos Mudos de Florianópolis (SC).

Destacamos, ainda, que no discurso de inauguração da Biblioteca Municipal de Leopoldina, proferido em 29 de setembro de 1960, declarou Barroso Júnior:

“Singular solenidade marca hoje a inauguração dessa instituição municipal. Congregamo-nos neste recinto para marcar o início das solenidades culturais da Biblioteca Pública. Aspiração de longos anos, hoje, para gáudio de todos, o novo instituto abre suas portas para o povo”.

Para a coluna Trem de História, ao organizar a Biblioteca Municipal, Barroso Júnior solidificou sua imagem de cidadão preocupado com o acesso de todos aos bens culturais. Por tudo o que fez, foi e escreveu, é personalidade que merece respeito e admiração de todos os leopoldinenses. Suas contribuições para a área cultural leopoldinense, por ações próprias ou, delegadas, pelas peças jornalísticas ou literárias que divulgaram a cidade e, acima de tudo, pelos registros históricos que ainda hoje são base segura para pesquisa de quantos se preocupam com a história de Leopoldina, João Pereira Barroso Júnior está entre os que mais lutaram pelo desenvolvimento cultural da cidade.

Na próxima edição o Trem de História abordará outra personalidade. Aguardem!


Fontes consultadas:

(1)Discurso de posse na Academia Leopoldinense de Letras e Artes, em maio de 2009, sobre seu patrono.

(2) FREITAS, Mário de. Leopoldina do Meu Tempo. Belo Horizonte: Página, 1985. p.236 e 244

(3) BASSOTI, Sérgio Otavio. Política de Educação Especial do Estado de Santa Catarina: proposta. 2006. p.8. Disponível em <http://zip.net/bws76t>. Acesso em 18.11.14.

(4) DESTRI, Débora Silva (Org.) Caderno Técnico do Centro de Avaliação e Encaminhamento – 2008. p.13. Disponível em < http://zip.net/bns7MZ>. Acesso em 01.12.14.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 26 de agosto de 2016

Personagens Leopoldinenses: série Barroso Júnior

53 – Barroso Júnior: o Cidadão 

54 – Barroso Júnior: a família e as atividades 

55 – Barroso Júnior: o escritor 
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