89 – Savino # Sabino – De Ispani para o Brasil – Parte I

Seguindo a viagem em busca dos antepassados do escritor Fernando Sabino, o Trem de História de hoje começa com a informação estatística divulgada por Carpi (1) indicando que no ano de 1871 a população italiana totalizava 25.985.421 habitantes, dos quais 101.815 requereram passaporte para saírem do país, sendo que destes, 2.014 viviam na província de Salerno, aí não computados outros 113 que emigraram clandestinamente.

Segundo este mesmo autor, os moradores de Salerno que se dirigiam ao exterior em 1871 tinham como principal objetivo fazer fortuna como seus conterrâneos que haviam retornado ao país pouco antes, ou aqueles que enviavam grandes somas em dinheiro para os parentes que haviam permanecido na localidade de origem.

Percebe-se, nas palavras deste analista da emigração italiana da época, referência ao sonho de fare l’america que povoava a imaginação de muitos italianos que chegavam ao Brasil. Mas o autor ressalta que a saída de Salerno vinha diminuindo, se comparada com a década anterior.

Outro quadro interessante indica as profissões dos emigrados de Salerno: 1301 camponeses, 78 comerciantes, 473 artesãos, 31 proprietários rurais, 38 marinheiros e 93 profissionais diversos. Quanto ao destino, pouco mais de uma centena dirigiu-se para a América, em 1871, sendo apenas 40 para o Brasil. Já no ano de 1872, para um total de 4.499 emigrantes de Salerno, 4.081 dirigiram-se para o continente americano. E no ano de 1873, dos 4.947 emigrantes daquela província, 4.814 vieram para as Américas.

Nos relatórios consulares incluídos no volume dois da obra de Carpi, uma análise sobre os emigrantes italianos que viviam no Brasil entre os anos de 1869 e 1872 indica que a maioria era pobre, sem instrução nem capacidade para o exercício de funções que pudessem lhes proporcionar um bom rendimento. Assim despreparados, se obrigavam a aceitar qualquer trabalho ou a viver da caridade alheia. Mas, acrescenta o autor do relatório, no Brasil vivia um grande número de artistas de teatro e músicos italianos; em quase todas as cidades do Império existia um restaurante italiano; e, as atividades mais comuns para os demais era o comércio ambulante, a construção de estradas, funilaria e trabalho de garçom.

 

Zuleika Alvim (2) aborda a expectativa otimista que sustentava a decisão dos europeus pobres de emigrarem para um país chamado Brasil. Segundo ela, pregadores poloneses divulgavam a imagem de um país onde não faltavam alimentos; italianos cantavam que iriam para a terra da prosperidade, deixando o trabalho com a enxada para seus ricos senhores; a cantiga alemã ressaltava que partiriam com toda a família para a terra prometida, onde “se encontra ouro como areia”. Esta era, segundo a autora, a imagem que faziam do Brasil os imigrantes que começaram a chegar a partir de 1870. Que não foi, ressalta Alvim, imagem criada pelos agenciadores de mão-de-obra, mas introduzida na Europa pelos relatos de viajantes desde o século XVI.

Assim como outros analistas do processo, também Alvim se refere à passagem do sistema feudal para o de produção capitalista, com a concentração da terra nas mãos de poucos e os altos impostos transformando os pequenos proprietários em mão-de-obra para a nascente indústria. Em alguns países, a industrialização tardia não teve como absorver o excedente de trabalhadores que, além disso, paulatinamente tiveram algumas de suas tarefas absorvidas por máquinas.

A fome e a miséria tornaram-se ameaça constante, preocupando os dirigentes que temiam revoltas populares incontroláveis. Emigrar foi, portanto, a solução encontrada do lado de lá do Atlântico e, do lado de cá, países em desenvolvimento como Brasil e Argentina começaram a atrair imigrantes para ocupar suas terras. Segundo Alvim, “mais de 50 milhões de europeus deixaram o continente entre 1830 e 1930”, sendo que 22% deles vieram para a América Latina e os italianos eram 38% dos imigrantes que se fizeram ao mar. Na Itália, lembra a mesma autora, “o verbo buscar ganhou destaque. Buscou-se trabalho primeiramente nas cidades, e em seguida nos países vizinhos, estabelecendo-se uma migração sazonal”.

Sobre esta imigração ainda será o artigo que ocupará este espaço na próxima edição do Jornal. Aguardem.


Fontes Consultadas:

1 – CARPI, Leone. Delle Colonie e dell’Emigrazione d’Italiani all’Estero sotto l’Aspetto dell’Industria, Commercio ed Agricoltura e com Trattazione d’Importanti Questioni Sociali. Milano: Lombarda, 1874. v.1

2 – ALVIM, Zuleika. Imigrantes: a vida privada dos pobres do campo. In: SEVCENKO, Nicolau (org.) História da vida privada. v.3. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 342 no jornal Leopoldinense de 1 de novembro de 2017

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Caminho do Imigrante

No último dia 1 de novembro tivemos a grata surpresa de saber que foi aprovado o projeto de Lei que sugerimos em 2008.

Para recordar

Em 15 de maio de 2008, sob o título “Caminho dos Imigrantes”, publicanos no jornal Leopoldinense o texto em que apresentamos um desenho do local e “sugerindo respeitosamente à Câmara de Vereadores que transforme em Lei uma justa homenagem aos imigrantes, num projeto preferencialmente assinado por todos os Vereadores, concedendo o nome de CAMINHO DOS IMIGRANTES a esta via ainda sem denominação e, solicitando ao Prefeito Municipal as providências necessárias à revitalização do local.”

Imagem publicada no jornal Leopoldinense, no artigo Caminho dos Imigrantes, em 15 de maio de 2008.

Imagem publicada no jornal Leopoldinense, no artigo Caminho dos Imigrantes, em 15 de maio de 2008.

Leia a matéria completa.

No ano seguinte, mais precisamente no dia 30 de março de 2009, em nosso artigo no jornal Leopoldinense intitulado “Convite aos descendentes de Imigrantes”, reiteramos a sugestão de “uma lei dando o nome de ‘Caminho dos Imigrantes’ à pista lateral da BR-116 no trecho entre a Igrejinha de Santo Antonio à entrada da Boa Sorte”.

Leia o texto completo aqui.

Em 2010 o assunto voltou a ser mencionado no Resumo Histórico publicado pelo jornal Leopoldinense em abril, por ocasião das comemorações do Centenário da Colônia Agrícola da Constança e dos 130 anos da Imigração Italiana em Leopoldina

Centenário da Colônia Agrícola da Constança

 

Ainda em 2010, lançamos a edição virtual do livro “Imigração em Leopoldina : história da Colônia Agrícola da Constança”, em cuja página 132 inserimos nossa sugestão de criação do Caminho dos Imigrantes.

IMIGRAÇÃO EM LEOPOLDINA : HISTÓRIA DA COLÔNIA AGRÍCOLA DA CONSTANÇA

 

O assunto continuou a ser lembrado nos anos seguintes e em 2015 foi mencionado em dois de nossos textos. Em fevereiro, para marcar o “Dia do Imigrante Italiano”, lembramos a sugestão que havíamos encaminhado para a Câmara dos Vereadores em 2008.

Leia aqui.

E no dia 16 de abril, voltamos ao assunto no texto que marcou a passagem de mais um aniversário de fundação da Colônia Agrícola da Constança.

Veja o texto aqui.

Portanto, a notícia de que finalmente temos o Caminho do Imigrante, foi recebida com muito entusiasmo. Esperamos que seja o primeiro passo para revitalizar a área da antiga Colônia Agrícola da Constança.

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Filhos e netos de Biase Lammoglia e Filomena Schettino

Atualizamos o quadro de descendentes de Biase Lammoglia e Filomena Schettino, para atender consulta de visitante do site.

Há vários homônimos de Biase e do filho Antonio e não foi possível distinguir quais informações se referem a cada grupo. É possível que membros da família tenham se instalado inicialmente no estado do Rio de Janeiro e mais tarde se transferido para a zona da mata mineira.

No estado de Minas há referências a Astolfo Dutra, Carangola e Leopoldina. No estado do Rio as indicações são Carmo e Sapucaia.

Além de casamentos com descendentes de imigrantes como Lorenzetto, os descendentes se uniram também a tradicionais famílias de Leopoldina como Fajardo, Ferreira e Lacerda França.

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Descendentes de Sante Pengo

A pedido de visitante do site, apresentamos um quadro de descendentes dos italianos Sante Pengo e Felicità Antonia Spizzolatta, com as datas e locais de nascimento que encontramos.

O casal pode ter passado ao Brasil por volta de 1888 e vivido em Leopoldina, segundo indicam os batismos dos quatro primeiros filhos. Após o batismo de Sebastiana, em março de 1897, a família teria ido para a Itália e logo depois retornado, conforme se depreende de um registro na Hospedaria Horta Barbosa de setembro de 1897. Este procedimento aconteceu com várias famílias. Entretanto, o que nos surpreende é o pequeno intervalo de tempo entre o batismo da criança, a viagem para a Itália e o retorno.

No registro da entrada no Brasil em 1897, consta que saíram da Hospedaria no dia 24 de setembro com destino a Ponte Nova, MG. Algum tempo depois, estavam de volta a Leopoldina, onde nasceu e foi batizado o filho caçula, em 1903.

O estudo sobre a família é bastante difícil pelas profundas alterações sofridas nos nomes dos componentes e por não contarmos com pistas que permitam ampliar as buscas.

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Maria das Dores Neto: 150 anos

No dia 13 de novembro de 1867 nasceu Maria das Dores Neto, filha de Maria Luiza ou Bernarda da Silva e de Pedro Machado Neto, neta paterna de Joaquim Machado Neto e Ana Tereza de Jesus.

Seu pai era proprietário de lote nas proximidades de onde mais tarde foi construída a Capela de Santo Antonio de Pádua, ou Capela da Onça, sede da Colônia Agrícola da Constança.

Aos 15 anos Maria das Dores casou-se com José Gonçalves da Fonseca, filho de Severo José Galdino da Fonseca e Ana Custódia Tereza de Jesus, sendo neto paterno de Bernardo José da Fonseca, o povoador que formou a Fazenda da Grama, ao sopé do Morro do Cruzeiro. Pela avó paterna Ana de Souza da Guarda, José Gonçalves era bisneto de Ana e Alvaro Pinheiro Corrêa de Lacerda, ancestrais de muitos leopoldinenses.

Embora tenha sido encontrado um batismo de filho de Maria das Dores e José Gonçalves, ao que tudo indica o menino de nome Estêvão, nascido em setembro de 1883, faleceu antes de setembro de 1887 quando Maria das Dores casou-se pela segunda vez. Seu marido, Julius Dietz, nascido em Petrópolis em dezembro de 1860, era filho dos alemães Philipp Dietz e Philippina Katharina Deubert, proprietários de um sítio cortado pelo então caminho que levava ao distrito de Tebas, onde Philipp tinha uma oficina de ferreiro. Julius faleceu nove anos depois, sem deixar geração.

Por volta de 1898, Maria das Dores casou-se pela terceira vez, com Lino Gonçalves, nascido em 1873 em El Rozal, Pontevedra, Espanha, filho de Francisco Gonçalves e Maria Tereza Alvarez.  Residiram numa divisão da Fazenda Purys que, segundo a escritura de venda feita em 1924, foi a herança que Maria das Dores recebeu do segundo marido, Julius Dietz. Deste terceiro casamento também não houve geração.

Após vender as terras que a esposa herdara, Lino estabeleceu-se no Alto da Ventania, onde ajudou muitos imigrantes que passavam por dificuldades. Com o arruamento surgido em sua propriedade, o local passou a ser conhecido como Bairro Lino Gonçalves, mais tarde pertencente ao Bairro Praça da Bandeira. A Lei Municipal nr 948, de 17/10/1973, dá o nome de Lino Gonçalves à uma rua que liga a Rua Marechal Deodoro da Fonseca à Rua Antonio de Almeida Ramos, no Bairro Praça da Bandeira.

 

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I Seminário Mineiro de Genealogia

A família ítalo-leopoldinense do escritor Fernando Sabino é o tema da palestra de Nilza Cantoni

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Leopoldinenses nascidos em novembro de 1917

1 de novembro

Carlos Panza, filho de Francesco Panza e Maria Lammoglia

10 de novembro

Itamar, filho de Ezaú de Lacerda Leal e Maria José de Almeida

13 de novembro

Natalina Lorenzetto, filha de Emilio Lorenzetto e Angela Saggioro

17 de novembro

Palmira dos Santos Carraro, filha de Sante Carraro e Erondina Angélica da Conceição

20 de novembro

Maria de Lurdes, filha de Ismael Bento da Rocha e Ana Vargas Corrêa

25 de novembro

Maria Natalina Sangirolami, filha de Giovanni Sangirolami e Giustina Borella

28 de novembro

Maria, filha de Joaquim Vieira Ramos e Olinta Schettino de Souza

 

 

 

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88 – Savino # Sabino – Imigrantes Italianos em Leopoldina

Esta viagem do Trem de História toma novo ramal para encontrar o autor de “O Grande Mentecapto”, o escritor Fernando Sabino. E a viagem necessariamente passará pela imigração italiana em Leopoldina para contar que, a partir de 1998, foram escritos diversos artigos com o objetivo de prestar uma justa homenagem aos imigrantes italianos que se instalaram no município a partir de 1880, aos que viveram na Colônia Agrícola da Constança e a todo oriundi que ajudou a transformar a economia da cidade, abalada pelo fim da escravidão.

De início vale recordar que o interesse inicial pelo assunto surgiu no decorrer de um estudo sobre as antigas famílias leopoldinenses quando se observou, nos livros das paróquias, uma grande incidência de sobrenomes não portugueses entre noivos, pais e padrinhos de crianças batizadas. Constatou-se que 10% dos noivos do período de 1890 a 1930 eram imigrantes e, destes, 9% eram italianos e os demais, portugueses, espanhóis, sírios, açorianos, franceses, egípcios e nativos das Ilhas Canárias.

Percebeu-se, então, que um contingente significativo de habitantes estava carente de um estudo melhor sobre suas vidas e importância para o município, estatisticamente com forte presença de descendentes daqueles que, chegados ao Brasil no último quartel do século XIX, aqui se estabeleceram e muito contribuíram para o desenvolvimento econômico e social, sem que se tivesse notícia de qualquer movimento permanente no sentido de manter viva a memória daqueles conterrâneos por adoção.

Na verdade constatou-se que há poucas fontes de consulta para a época em que chegaram os personagens que serão abordados. Ainda não haviam sido implantadas as hospedarias e nem todos os manifestos de vapores foram preservados.

Assim, algumas pistas vieram de intérpretes daquele momento, incluindo a informação de que os italianos procedentes do vêneto eram mais afeitos à agricultura e que os toscanos e os meridionais procuravam as cidades para se estabelecerem com atividade comercial.

Este artigo tratará de um grupo procedente da Campania, mais especificamente da província de Salerno. Mas antes de detalhar suas características, é importante ressaltar que seria impossível compreendê-lo analisando-o de forma isolada, ainda que seus componentes pertencessem a diferentes famílias nucleares, tivessem idade diversa e possivelmente habilidades produtivas também variadas.

É importante, também, relembrar algumas informações sobre a Itália.

Como se sabe, antes da unificação a Campania pertencia ao Reino das Duas Sicílias e estava dividida em quatro províncias: Napoli, Terra di Lavoro (Caserta), Principato Citeriore (Salerno) e Principato Ulteriore (Avellino). Cada província era dividida em distritos e no Principato Citeriore os distritos eram Salerno, Sala, Campagna e Vallo.

Capa do livro Provincia di Principato Citeriore, publicado em 1843. Fonte: https://www.maremagnum.com/stampe/provincia-di-principato-citeriore/130340733

É preciso, também, ressaltar que a unificação foi um processo paulatino e que as trocas comerciais não se modificaram abruptamente com a proclamação do Reino da Itália. Por consequência, o trânsito interdistrital permaneceu e seria contraproducente definir o local de origem do grupo pelos estritos limites geográficos, porque sabe-se que as divisas são artificiais e nem sempre se preocupam com a personalidade histórica ou as práticas dos habitantes de uma localidade.

Com estas considerações, partiu-se para a busca de referências aos sobrenomes Appratto, Cazzolino, Eboli, Pagano, Polito, Petrola, Savino e Tambasco, grupo da Campania identificado em Leopoldina, cujos nomes muitas vezes estão grafados de forma diferente nas fontes paroquiais e civis aqui no Brasil.

Foram encontrados diversos vínculos entre alguns deles na documentação do Tribunal de Sala Consilina, disponíveis em microfilme da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. E o comune de Ispani surgiu como provável centro de difusão das famílias pesquisadas. Mas não havia microfilmes dos lugares mencionados naquela documentação e consultas epistolares não trouxeram o retorno esperado. Somente alguns anos depois começaram a surgir outras fontes, como alistamento militar e registros civis, publicadas em sites de arquivos provinciais, permitindo coletar mais informações.

Enquanto isso, a busca por fontes aqui no Brasil continuava. Até que no último ano, com a colaboração de Stanley Savoretti, foi possível fechar o estudo de uma das famílias. Antes, porém, é interessante refletir um pouco sobre o movimento de saída dos imigrantes de sua terra natal. Mas isto será assunto para o artigo da próxima quinzena. Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 341 no jornal Leopoldinense de 16 de outubro de 2017

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200 anos do Registro Civil do Feijão Cru

200 anos do Registro Civil do Feijão Cru
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87 – Duzentos anos do Registro Civil do Feijão Cru

A denominação de lugares ocorre de variadas formas. O registro do nome, também. Muitos lugares, que depois se transformaram em povoados, receberam nomes relativos a fatos ocorridos no início de sua ocupação pelo homem livre. Alguns perderam este nome original ao longo do tempo, no que Waldemar de Almeida Barbosa chamou de um extermínio sistemático da antiga e tradicional toponímia. É o caso de Leopoldina cujo nome original, Feijão Cru, foi substituído quando da emancipação administrativa em 1854.

Mas quando surgiu oficialmente o nome Feijão Cru? Responder a esta indagação é o que se pretende nesta viagem do Trem de História.

“Infeliz mania que entre nós existe de mudar cada dia o nome dos lugares, nomes aliás de significação tradicional, e que revelam fatos significativos da história pátria, faz-nos alheios hoje do conhecimento de episódios e personagens desaparecidos do cenário da vida” (Julio Engracia, 1904, p.129)

Liberação da Zona Proibida

Para tratar do assunto é preciso refletir sobre o processo de ocupação do território onde está o município de Leopoldina e lembrar que no final do século XVIII o governo da província mineira encontrava-se às voltas com um problema que demandava urgente solução. A Comarca do Rio das Mortes, divisão administrativa que se estendia das proximidades de Vila Rica, sede da Comarca de mesmo nome, até o sul do atual estado de Minas Gerais e também até as atuais divisas com o estado do Rio de Janeiro, tinha a agricultura como principal atividade econômica. Havia necessidade de expandir a área onde tal atividade era permitida e para isto era necessário suspender uma proibição já antiga que vedava acesso aos então considerados “sertões do leste”, a tal “zona proibida”. Por outro lado, abrir a região ao povoamento exigiria aumentar o efetivo de segurança, já que estariam desprotegidas as fronteiras por onde escoava o contrabando, seja de riquezas minerais, seja de outros produtos também submetidos a taxação.

A solução veio, então, através de duas atitudes complementares de grande significado para os leopoldinenses.

A primeira, entre 1784 e 1786, quando o militar português Pedro Afonso Galvão de São Martinho, de cuja tropa fez parte o alferes Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha O Tiradentes, foi encarregado de encontrar e destruir o pouso usado por contrabandistas de ouro chefiados por um personagem lendário conhecido por Mão de Luva.

Registre-se que a região fiscalizada por ordem do governador Luis da Cunha Menezes começava pelo Caminho Novo, nas proximidades das nascentes do Rio Novo, por sua margem direita indo até a foz no Rio Pomba, daí seguindo também pela margem direita até encontrar o Paraíba do Sul que, além de ter sido atravessado pelas tropas que se dirigiram ao Descoberto do Cantagalo, na província do Rio de Janeiro, teve também fiscalizada a sua margem esquerda, subindo até o ponto onde recebe o Rio Paraibuna.

Desta medida resultou que, a partir daí, a região até então vedada ao povoamento começou a ser conhecida pelo homem livre.

A segunda atitude veio logo depois, quando o governador preparou outro normativo para garantir a proteção das fronteiras agrícolas que viriam a ser expandidas: isentou de impostos, por dez anos, quem se fixasse nas áreas de fronteira, protegendo-a contra invasões. E desta forma, incentivou o deslocamento de agricultores para os Sertões do Leste.

As Sesmarias

Estudando as famílias que se encontravam na região nas duas primeiras décadas do século seguinte, foram identificados muitos beneficiários das sesmarias então concedidas.

Vale registrar que, naquela época, uma sesmaria media meia légua em quadra, área então equivalente a 225 alqueires mineiros ou a 1.068 hectares atualmente, sendo necessário contar com alguma estrutura que pudesse ser empregada para cumprir as exigências de ocupação, demarcação e cultivo dessas terras.

Carta de Sesmaria 1817

Observou-se, ainda, ser comum que os beneficiários destas sesmarias já tivessem tomado posse da terra cerca de 5 a 10 anos antes de enviar a carta solicitando a doação. E surgiram, nesta época, posseiros que tão logo conseguiam a doação tratavam de vendê-la para, em seguida, partir para outras regiões e reiniciar o processo ocupando novas terras. Muitas vezes estes posseiros contratavam prepostos nestas terras com o objetivo de melhor conhecer a região, identificar os locais e tomar conta até se conseguir a doação definitiva.

Nos limites do que mais tarde veio a constituir o Distrito de São Sebastião do Feijão Cru, estes fatos ocorreram de maneira variada.

As quatro mais antigas sesmarias identificadas foram doadas a dois sobrinhos de Tiradentes: os irmãos Felisberto Gonçalves da Silva e Domingos Gonçalves de Carvalho e suas respectivas esposas. Um destes sobrinhos teria se transferido para cá em 1804 e o irmão dele, quatro ou cinco anos depois. Fizeram o pedido e as Cartas de Sesmaria foram concedidas em novembro de 1813.

Outro grupo de sesmeiros, cujas cartas foram assinadas entre março e abril de 1818, era formado por parentes de Pedro Afonso Galvão de São Martinho. Um grupo do qual ainda não se tem ao certo os nomes e os limites das sesmarias pleiteadas e que, segundo Celso Falabella de Figueiredo Castro, teria pedido terras até para crianças que estavam por nascer.

Ainda de 28 de março de 1818 são outras cartas importantes para a história de Leopoldina. Tendo como beneficiários Antônio Francisco Teixeira Coelho, Hipólita Jacinta Teixeira de Melo e Maria Umbelina de Santa Brígida, as duas primeiras constituíram o dote da filha de Antonio e Maria Umbelina que se casou com Bernardo José Gonçalves Montes e foram mais tarde vendidas para Antônio José Monteiro de Barros, que nelas fundou a Fazenda Paraíso.

O nome

Mas foram duas outras Cartas de Sesmarias que se tornaram documentos esclarecedores de importante fato da história de Leopoldina. Datadas de 13 e 14 de outubro de 1817, constituem o primeiro documento de Registro Civil do Feijão Cru. Foram as primeiras peças escritas citando o nome do ribeirão em registros oficiais.

Em seus pedidos, Fernando e Jerônimo Corrêa de Lacerda, tios paternos dos irmãos Francisco e Romão Pinheiro Corrêa de Lacerda, solicitaram terras devolutas que se achavam em “um córrego que deságua no rio da Pomba chamado Feijão Cru, no Distrito de Santo Antônio do Porto do Ubá, Freguesia da Vila de Barbacena”.

Esclareça-se, a propósito, que o citado distrito de Santo Antônio é hoje o município de Astolfo Dutra, onde Francisco Pinheiro Corrêa de Lacerda teria vivido antes de vir tomar conta das terras que seus tios requereram. E tão logo elas foram vendidas, partiu para se apossar de outras no caminho que seguia para a foz do Rio Pomba, tendo falecido na província fluminense antes que o Feijão Cru se tornasse distrito. Curiosamente, por motivo que se desconhece até aqui, acabou por ser tido como fundador de Leopoldina, ficando esquecido o seu irmão, Romão Pinheiro Corrêa de Lacerda que de fato viveu em Leopoldina, adquiriu terras de Manoel Gomes de Oliveira, formou a Fazenda Memória, casou-se e constituiu a enorme família aqui estabelecida.

Por hoje o Trem de História fica por aqui. E do ponto final destaca a lembrança de que este mês marca o SEGUNDO CENTENÁRIO do Registro Civil do Feijão Cru, marco que não merece ficar esquecido. E avisa que a próxima viagem será em companhia de uma tradicional família de imigrantes. Até lá!

 

Fontes Consultadas:

Do acervo do Arquivo Público Mineiro: quase uma dezena de cartas/correspondências entre Cunha Menezes e Galvão de São Martinho, Registros de Terras realizados em paróquias da região a partir da lei de Terras de 1850 e Cartas das Sesmarias concedidas nas duas primeiras décadas do século XIX;

– Registros de nascimento, casamento e óbito de pessoas envolvidas;

– Obras publicadas por Alberto Ribeiro Lamego, Celso Falabella de Figueiredo Castro, Clelio Erthal, Danuzio Gil Bernardino da Silva, Helena Guimarães Campos, Joaquim Ribeiro Costa, Julio Engracia, Ligia Osorio Silva, Maurício de Almeida Abreu, Waldemar de Almeida Barbosa e Wilhelm Ludwig von Eschwege, além de uma série de dissertações e teses que tratam da ocupação territorial na zona da mata mineira.

Transcrição da Carta de Sesmaria concedida a Fernando Afonso Corrêa de Lacerda

Fonte: Secretaria de Governo da Capitania, seção Colonial, SC-363, páginas 190v a 191v

Dom Manoel de Portugal e Castro, do Conselho de Sua Majestade e do da Sua Real Fazenda, Governador Capitão General da Capitania de Minas Gerais.

Faço saber ao que esta minha Carta de Sesmaria virem, que tendo consideração a Fernando Affonso Correia de Lacerda a mim apresentado por sua petição, que em um córrego que deságua no rio da Pomba chamado Feijão Cru, no Distrito de Santo Antônio do Porto do Ubá, Freguesia da Vila de Barbacena, se acham terras devolutas e o suplicante as queria para ter o legítimo título de Sesmaria, me pediu lhe conceder naquela paragem meia légua de terra em quadra na forma das Ordens; digo atendendo eu e ao que responderam os oficiais da Câmara da dita Vila e o Desembargador Procurador da Coroa e Fazenda desta Capitania, aos quais ouvi, disse lhe não oferecer dúvida alguma à concessão por não encontrar inconveniente que a proibisse, e pela faculdade que Sua Majestade me permite nas Suas Reais Ordens, e na de 13 de abril de 1738, para conceder Sesmarias a moradores dela, que mas pedirem. Hei por bem fazer mercê como por esta faço, de conceder em nome de Suas Majestades, ao dito Fernando Affonso Correia de Lacerda, por Sesmaria meia légua de terra em quadra nas pedidas, sem interpolação de outras, ainda que sejam inúteis na referida paragem, não tendo outra, e não sendo esta em parte ou todo dela em áreas proibidas, e dentro das confrontações acima mencionadas, fazendo pião aonde pertencer, com declaração porém que será obrigado dentro de um ano, que se contará da data desta, a demarcá-la judicialmente, sendo para esse efeito notificados os vizinhos com quem partir, para alegarem o que for a bem de sua justiça; e ele fará também a povoar, e cultivar a dita meia légua de terra, ou parte dela, dentro de dois anos, a qual não compreenderá a situação e logradouros de algum arraial ou capela em que se administrem ao povo sacramentos com licença do Ordinário, até a distância de um quarto de légua; nem também compreenderá ambas as margens de algum rio navegável, porque neste caso ficará de uma e outra banda dele a terra que baste para o uso público de passageiros, e de uma das bandas junto à passagem do mesmo rio se deixará livre meia légua de terra para comodidade pública, e de quem arrendar a dita passagem como determina a Ordem de 11 de março de 1754, reservando os sítios dos vizinhos com quem partir esta sesmaria, suas vertentes e logradouros, sem que eles com este pretexto seguirão apropriando demasiadas em prejuízo desta mercê que faço ao suplicante, a qual não impedirá a Repartição dos Descobrimentos de terras minerais que no tal sítio hajam ou possam haver, nem os caminhos e serventias públicas que nele houver, e pelo tempo adiante pareça conveniente abrir para maior utilidade do bem comum, com declaração que partindo as ditas terras por mato virgem com outra sesmaria se deixará na sua extremidade por essa parte uma linha de duzentos palmos, e além disto se conservará a décima parte dos matos virgens das referidas terras, sendo a metade desta porção designada junto aos córregos ou rios que por elas correrem para a criação e conservação das madeiras necessárias para o uso público, a qual porção de terra assim reservada não poderá o suplicante roçar sem licença deste Governo, nem impedir que nela se cortem madeiras para os serviços minerais, proporcionalmente a arbítrio de Bom Varão, tudo na forma do Bando de 13 de maio de 1736, e possuirá a dita meia légua de terra com condição de nela não sucederem religiões, igrejas, ou eclesiásticos por título algum, e acontecendo possuí-las será com o encargo de pagar delas dízimos, como quaisquer seculares, e será outrossim obrigado a mandar requerer a Sua Majestade pela Mesa do Desembargo do Paço, confirmação desta Carta de Sesmaria dentro de quatro anos, que correrão da data desta em diante, a qual lhe concedo salvo sempre o Direito Régio, e prejuízo de terceiro, e faltando ao referido não terá vigor, e se julgará por devoluta a dita meia légua de terra, dando-a a quem a denunciar, tudo na forma das Reais Ordens. Pelo que o Juiz das Sesmarias do Termo da dita Vila dará posse ao suplicante da referida meia légua de terra em quadra nas pedidas, não sendo em parte ou todo dela em árias proibidas, e prejudiciais aos Reais Interesses, porque em tal caso se lhe não dará a dita posse nem terá efeito esta concessão; feita a demarcação e notificação como Ordeno, de que se fará Termo no Livro a que pertencer e assento nas costas desta para a todo o tempo constar o referido. E por firmeza de tudo lhe mandei passar a presente por mim assinada, e selada com o selo de minhas Armas, e que se cumprirá inteiramente como nela se contém, registrando-se nos Livros da Secretaria deste Governo, e onde mais tocam. Francisco José Teixeira Chaves a fez. Dada em Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto, a 13 de outubro. Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil oitocentos e dezessete. O Secretário do Governo João José Lopes Mendes Ribeiro a fez escrever. Dom Manoel de Portugal e Castro.

Trecho da Carta de Sesmaria concedida a Jerônimo Pinheiro Corrêa de Lacerda

Fonte: Secretaria de Governo da Capitania, seção Colonial, SC-363, páginas 192v a 193v

Dom Manoel de Portugal e Castro, do Conselho de Sua Majestade e do da Sua Real Fazenda, Governador e Capitão Geral da Capitania de Minas Gerais.

Faço saber aos que esta minha Carta de Sesmaria virem que, atendendo ao a mim apresentado por sua petição Jerônimo Pinheiro de Lacerda, que em um córrego chamado Feijão Cru que deságua no rio da Pomba no Distrito de Santo Antonio do Porto do Ubá, Termo de Barbacena, se acham terras devolutas; e que o suplicante requeria possuir por legítimo título de Sesmaria, […]

Francisco José Teixeira Chaves a fez. Dado em Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto, aos 14 de outubro. Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e dezessete. O Secretário do Governo, João José Lopes Mendes Ribeiro a fez escrever. Dom Manoel de Portugal e Castro.


 

19Uma edição completa deste estudo, incluindo reprodução das Cartas de Sesmaria, encontra-se na Biblioteca Municipal Luiz Eugênio Botelho.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 341 no jornal Leopoldinense de 16 de outubro de 2017

 

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