Arquivos da categoria: Imprensa em Leopoldina

Textos baseados em trabalho de Nilza Cantoni para o curso de pós graduação em História Cultural que investigou o período 1879-1899.

45 – A Título de Conclusão

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Como foi dito no início, a pesquisa que deu origem a esta série de artigos teve por objetivo reunir e sintetizar informações obtidas na leitura dos jornais publicados em Leopoldina nas duas últimas décadas do século XIX.

Neste processo foram confirmadas as palavras de José Honório Rodrigues, em “Teoria da História do Brasil”, para quem “o jornal pode dar-nos a cor e a vivacidade de uma época [e] pode guiar-nos nas manobras externas da vida política”.

No período examinado teriam sido publicados vinte e um periódicos no município de Leopoldina:

01) – O Leopoldinense, o mais antigo deles, circulou de 1879 a 1900; 02) – O Correio da Leopoldina, de 1881; 03) – O Povo, que circulou de 1885 a 1890 no distrito de Campo Limpo; 04) – Princípio da Vida, de 1885; 05) – O Pássaro, lançado em 1886; 06) – Estrela de Minas lançado em 29.07.1887; 07) – Ideia Nova de 17.11.1887; 08) – Irradiação que circulou entre 1888 a 1890; 09) – A Voz Mineira, de 1890; 10) – Gazeta de Leste que circulou entre 1890 e 1891; 11) – A Leopoldina cuja primeira edição data de 16.02.1893; 12) – A Phalena de 1894; 13) – A Voz de Thebas que circulou entre 1894 a 1897 no distrito de mesmo nome; 14) – O Correio de Leopoldina, de 1894; 15) – A Gazeta de Leopoldina, lançada em 1895; 16) – O Mediador que circulou entre 1895 a 1896; 17) – O Tiradentes, publicado em 1897; 18) – O Arame que circulou entre 1898 a 1899; 19) – A Lyra que circulou em 1898 no distrito de Campo Limpo; 20) – O Pelicano, consagrado à maçonaria, lançado em 1898; e, 21) – O Recreio, lançado em 1899 no então distrito de mesmo nome.

Entretanto, da maioria destes só foi encontrada referência em outras publicações por não terem sido preservados os próprios jornais. Ao final puderam ser analisadas quinhentas e quarenta e oito edições de apenas doze periódicos entre os anos de 1879 e 1899.

Percebeu-se que alguns deles tiveram distribuição fora dos limites do município e até mesmo em cidades de outras regiões. Além disso, o público atingido não se limitou a pessoas alfabetizadas, já que notas dos próprios periódicos indicam a prática de leitura pública em locais de concentração da cidade.

Não foi identificada uma diferença significativa entre o teor das matérias abordadas nas diferentes fases estudadas. A destacar, sob este aspecto, apenas a extinção de textos sobre a escravidão na década de 1890 e o acirramento das denúncias de cunho político a partir de 1894, quando se deu a criação de um jornal pela família que acabara de alcançar o poder municipal.

Conforme destacou Agnes Heller, em “O Cotidiano e a História”, a “vida cotidiana não está fora da história, mas no centro do acontecer histórico”. Por esta razão, acredita-se que as pautas escolhidas, assim como o enfoque dado a cada um dos assuntos tratados ao longo daqueles vinte anos refletem “a essência da substância social”.

E se, conforme Nelson Werneck Sodré, em “A História da Imprensa no Brasil”, a ampliação da cultura impressa se deu através dos almanaques, que funcionavam como livros para consulta generalizada, aos primeiros jornais de Leopoldina pode ser creditado o valor de prestar informações muitas vezes semelhantes aos almanaques da mesma época, bem como a formação de um público leitor que viria a se tornar consumidor de outros jornais e dos livros divulgados nas páginas daqueles pioneiros. E podem servir, também, ao resgate de parte da história da cidade e da sociedade como fizemos nesta série de textos.

Quanto a nós, que nos servimos deste trabalho para formatar esta série de artigos sobre a Imprensa em Leopoldina entre 1879 e 1899, resta-nos agradecer a paciência de todos, dizer que o Trem de História vai continuar viajando pela história de Leopoldina e, lembrar que a história não é importante pelo que se lê nela, mas pelo que se pode deduzir dela.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de abril de 2016

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44 – Conceitos Norteadores

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Como o leitor pode observar nos artigos desta série, o estudo sobre a Imprensa em Leopoldina entre 1879 e 1899 pretendeu abordar diversos aspectos e situações.

Isto porque um dos conceitos norteadores do trabalho nasceu da declaração de Monica Pimenta Velloso, em “História e Imprensa: Representações Culturais e Práticas de Poder”, de que em sua pesquisa as revistas tiveram dupla dimensão: eram fonte e objeto de análise.

Sabe-se que os jornais se tornaram objeto de averiguação histórica no Brasil a partir da década de 1970, quando começaram a surgir trabalhos que tomavam a imprensa como “objeto de investigação” conforme ensinam Capelato e Prado citados por Tânia de Luca em “História dos, nos e por meio dos Periódicos”. Quando se trata de um período mais distante, como foi o caso do estudo aqui abordado, a imprensa se torna a voz da sociedade daquela época, manifestada através das escolhas dos editores e redatores.

Com a finalidade utilizar os primeiros jornais de Leopoldina como fonte e objeto de análise, buscou-se firmar as melhores condições para o estudo. E para tentar entender a relação existente entre o mundo do texto e o do leitor daqueles jornais, concluiu-se que era preciso ler um grande número deles até que fosse possível formar uma opinião a respeito de cada aspecto a ser estudado.

Nos ensinamentos de Maria Beatriz Nizza da Silva, em “A Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822): Cultura e Sociedade”, encontrou-se um direcionamento para classificar as matérias, bem como para analisar as características da população e o cotidiano que ressaltasse das folhas consultadas. Para, através deste caminho, atingir o objetivo proposto.

E a ele se chegou, ainda que parcialmente. Em primeiro lugar porque os anúncios, meio bastante utilizado para este mister, no caso dos periódicos estudados eram de acanhada amplitude. E, por outro lado, porque a classificação das matérias por assunto deixou claro que apenas uma pequena parcela da sociedade merecia a atenção dos redatores. Por exemplo, em quase todas as edições há notícias sobre chegadas e partidas, seja de moradores da cidade ou de visitantes. Este era um tema que interessava muito mais à elite, ansiosa por notícias sobre o que faziam ou como se movimentavam os seus pares.

Durante a etapa de leitura dos jornais, chamou a atenção aquilo que Tânia Regina de Luca denominou “materialidade de jornais e revistas em diferentes momentos”. As modificações na aparência d’O Leopoldinense, entre 1879 e 1895, mereceram um cuidado maior na avaliação da importância dada às matérias publicadas. A simples observação permitiu suspeitar da ocorrência de avanços tecnológicos nos equipamentos de impressão disponíveis, os quais determinaram mudanças de formato do periódico.

Por outro lado, tomando como exemplo a coluna literária, observou-se que, em determinado período, ela fazia parte da primeira página e em outra época ocupou, indistintamente, a segunda ou terceira páginas. Sendo assim, seria inadequado utilizar uma classificação de importância dos temas a partir de uma hierarquização pelas páginas do jornal. Esta variação foi observada, também, nas mudanças de localização ocorridas nos cinco anos da Gazeta de Leopoldina que foram analisados.

A coluna literária surgiu nos jornais de Leopoldina como mais um fruto da época de forte expressão cultural da cidade – as últimas décadas do século XIX. Mais tarde foi desaparecendo das folhas, possivelmente em razão dos problemas apontados por Wagner Ribeiro em “Noções de Cultura Mineira”, que afirma: “Quem conhece as dificuldades, o desdém esterilizante, a falta de meios e de estímulos com que ainda hoje a imprensa do interior luta para afirmar-se e subsistir, pode calcular o que não representa de idealismo e tenacidade, a obra desses anônimos trabalhadores, numa época remota e em localidades então desprovidas dos menores recursos materiais para a consecução dos seus planos”.

Por hoje o assunto fica por aqui. Na próxima parada o Trem de História chegará ao final deste ramal sobre a Imprensa em Leopoldina. Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 16 de março de 2016

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43 – O Mediador

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Entre os jornais que circularam em Leopoldina entre 1879 e 1899, O Mediador é um dos que ainda não foram trazidos pelo Trem de História, o que se faz agora.

O endereço dele era a Rua Barão de Cotegipe número 42. O redator e proprietário era o advogado Alberto Moretz-Sohn Monteiro de Barros que, além deste jornal sufocado como tantos outros pela política dominante, criou também A Ordem e A Reação nos primeiros anos do século XX. Segundo Dilermando Cruz, em matérias publicadas em O Pharol, periódico da cidade de Juiz de Fora, Alberto Moretz-Sohn escrevia para a Folha do Leste e foi “diretor político” de outro jornal de Leopoldina, O Echo, que circulava por volta de 1905. O seu secretário-gerente foi Alexandre Chaves. No período analisado, além dos residentes na sede municipal, contava com assinantes em todos os distritos de Leopoldina.

O redator mantinha escritório de advocacia na Rua Octavio Ottoni e fora casado com sua prima Ana Miranda Monteiro da Silva, falecida no dia 13 de abril de 1896. No dia 18 de julho de 1904, casou-se pela segunda vez com Adelaide da Gama Fernandes, filha de Francisco de Paula P. Fernandes e Luiza Amélia da Gama Cerqueira, em cuja casa Dom Pedro II almoçara naquela rápida visita a Leopoldina em 1881.

Nota publicada na primeira página do jornal O Mediador, edição número 21 de 28 de janeiro de 1896, dá a medida de seu posicionamento diante do poder público municipal, não se sujeitando à lei da mordaça que parece haver sido tentada na época. Noticia o redator, na primeira página, que o Conselho Distrital impusera multa injustificada a um cidadão após os “empregados da Gazeta de Leopoldina” terem encontrado, nos fundos do quintal do morador, “uma pequena porção de carne seca corrompida”. A nota prossegue informando que não havia prova de que o cidadão tenha sido o responsável pela dispensa do lixo de forma inadequada e que a intenção do Conselho ficou clara logo em seguida: a pessoa multada era o 2º Juiz de Paz que, com o acontecido, ficou impedido de se manifestar em outros processos injustos contra “negociantes multados por capricho”.

Esta era uma característica de O Mediador observada nas edições preservadas, todas do acervo do Arquivo Público Mineiro. Fazia denúncias de forma direta, sem temer o poder econômico do proprietário da Gazeta de Leopoldina, que de tudo fazia para calar a oposição.

Sua primeira edição teve a data de 14 de julho de 1895, três meses após o lançamento do periódico criado por José Monteiro Ribeiro Junqueira.

Durante o período em que O Mediador resistiu à dificuldade de circular num município em que o poder público não aceitava contestações, não foram poucas as matérias que publicou fustigando o Agente Executivo e proprietário da Gazeta de Leopoldina. Numa destas ocasiões o jornal informou que, pela terceira vez, o Agente ameaçara renunciar ao cargo. Na edição de 5 de fevereiro de 1896 o leitor ficou sabendo que o motivo da ameaça foi o “não querer alterações nem modificações” nos planos que pretendia executar à frente da administração municipal, rejeitando qualquer manifestação contrária do poder legislativo que, na prática, era composto majoritariamente por seus aliados.

O jornal denunciava, também, as artimanhas perpetradas pelos empregados da Gazeta de Leopoldina no sentido de desestabilizar os Conselhos Distritais. Um destes casos veio à luz na edição de 18 de março de 1896, em resposta ao órgão de propriedade do Chefe do Executivo municipal que divulgara ter sido o Dr. Guimarães Júnior responsável pela renúncia do presidente do Conselho de Tebas. Os membros do Conselho negaram a interferência de Guimarães Jr e o redator de O Mediador acrescentou que motivos para a renúncia não faltavam, conforme vinha sendo denunciado pela Voz de Thebas, jornal bastante ácido já comentado nesta série de artigos sobre a Imprensa em Leopoldina no final do século XIX.

Além de matérias políticas, a maioria delas denunciando desmandos na administração municipal, O Mediador se ocupava de temas gerais que eram característicos da sua época. No que tange à educação feminina, artigo publicado em março de 1896 deixa clara a posição de seu redator: a mulher não poderia ter todos os direitos permitidos aos homens, devendo ser orientada para o cuidado do lar, dos filhos e do bem estar do marido. Neste aspecto, não se distinguia da maioria.

Em 1896, foi o primeiro órgão de imprensa a denunciar os casos de febre amarela que assolavam o município, notícia claramente contrária ao interesse do administrador municipal. Talvez para interromper suas denúncias, no final daquele ano foi agraciado com matéria do poder público sobre os impostos municipais que seriam cobrados no ano seguinte. Sim, agraciar parece ser o termo mais adequado para aquele momento. As verbas públicas utilizadas para publicação de atos da administração municipal raramente eram destinadas aos demais órgãos de imprensa local, ficando restritas ao jornal de propriedade da família Ribeiro Junqueira.

O assunto poderia ir um pouco adiante. Mas o Trem de História precisa encerrar por aqui. Na próxima edição o Trem seguirá viagem.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de março de 2016

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42 – Gazeta de Leopoldina

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O Trem de História de hoje pretende falar sobre o mais duradouro e conhecido dos periódicos da cidade, a Gazeta de Leopoldina, fundada em abril de 1895, tendo como redatores e proprietários os senhores José Monteiro Ribeiro Junqueira e Antonio A. Teixeira. E como secretário gerente, Emílio A. Pereira Pinto.

Mas antes de tratar do assunto proposto, é importante registrar um agradecimento especial à Casa de Leitura Lya Maria Müller Botelho, detentora do acervo deste jornal, pela oportunidade de consultar o material ali existente. Até o início da redação da monografia de conclusão da pós-graduação, haviam sido consultados apenas os números existentes na Biblioteca Nacional e no Arquivo Público Mineiro. O acesso ao conjunto completo do mais longevo periódico que existiu em Leopoldina foi fundamental para compreender alguns aspectos que só se descortinaram com a leitura de números publicados na década posterior ao fim do período que foi objeto do trabalho.

Nelson Werneck Sodré, em A História da Imprensa no Brasil, afirma que as últimas décadas do século XIX representam uma grande época política e também literária.

Analisando os periódicos que circularam em Leopoldina no período, pode-se concluir que a efervescência literária marcou a imprensa local, num momento em que a cidade se destacava culturalmente e contava com muitas instituições de ensino de qualidade. Dentre os periódicos, a Gazeta de Leopoldina foi exceção por ultrapassar todos os outros em carga política.

Registre-se que este jornal surgiu quando a cidade contava com um bom número de folhas em circulação. E já em seus primeiros números mostrou a que veio: pavimentar a estrada para seu proprietário alcançar postos mais altos na política.05

É bom que se recorde que, naquele momento, o Sr. Ribeiro Junqueira não tinha assegurada sequer a sua posição à frente do governo local. Então, para ele que demonstrava pretensões claras, era crucial afastar os eventuais oponentes. E um dos meios a ser utilizado era a imprensa. Assim, de abril de 1895, quando veio à luz, a dezembro de 1899, último número analisado para este trabalho, raras foram as edições da Gazeta de Leopoldina que não disseminaram ironias e acusações contra seus oponentes. Fossem artigos do redator ou dos colaboradores, todos os periódicos publicados naquele quinquênio receberam alfinetadas mais ou menos intensas da folha que pretendia ser líder. E todos deixaram de circular pouco depois. Alguns sendo substituídos por outros títulos que também não sobreviveram ao furor com que a Gazeta lutava para reinar sozinha.

Nas edições do final do ano de 1896, a Gazeta de Leopoldina não deixou de dar algumas espetadelas em O Mediador e O Leopoldinense, pelo fato de terem sido escolhidos para publicar, no ano seguinte, os Atos da Câmara. E não foi apenas contra o nome dos periódicos que subterfúgios linguísticos frequentaram as páginas da Gazeta de Leopoldina, com o objetivo de desacreditar os concorrentes. Em diversas oportunidades também cita nomes de redatores ou proprietários dos outros jornais, quase sempre com alguma pitada de sarcasmo para denegri-los.

Como se vê, nos seus primeiros anos de vida, que correspondem aos últimos da série aqui estudada, a Gazeta de Leopoldina operava de forma bem diversa do que se conhece dos anos posteriores. Era, em certos momentos, um verdadeiro pasquim da imprensa local. Diante disto, e reconhecendo o seu valor histórico no meado dos novecentos, o Trem de História ressalta que ler só a Gazeta impedirá o leitor de conhecer o panorama sócio cultural que vigorava na Leopoldina daqueles tempos. Infelizmente, porém, não há edições dos demais periódicos na Biblioteca local, tendo sido necessário consultar os acervos da Biblioteca Nacional e do Arquivo Público Mineiro. Atualmente não é mais necessário visitar estas instituições, pois ambas dispõem de uma Hemeroteca digital em seus sites.

Na próxima edição o Trem de História abordará o último periódico utilizado em nossos estudos. Até lá!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 16 de fevereiro de 2016

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41 – Correio de Leopoldina

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O Trem de História traz hoje um periódico do qual se encontrou apenas a edição de lançamento, em dezembro de 1894, e uma de 03.01.1895, ambas pertencentes ao acervo da Biblioteca Nacional. Poucos exemplares de um periódico importante pelo que divulgou e pelas pessoas que o conduziram.

Registre-se que a primeira edição não traz a data completa, mas o jornal O Pharol de Juiz de Fora, edição de 11 de dezembro de 1894, página 1, anuncia que acabara de receber o primeiro exemplar do Correio de Leopoldina.

É bom registrar também que, embora a última edição encontrada tenha sido de 1895, Xavier da Veiga em A Imprensa em Minas Gerais [Revista do Arquivo Público Mineiro, 1898, pag. 235]  inclui o Correio da Leopoldina na relação dos que circulavam em 1898.

Este Correio de Leopoldina tinha Henrique Cancio como redator e Antonio Luis Deslandes como gerente da Empresa Editora Mineira, responsável pela publicação e distribuição do periódico.

De Henrique Cancio sabemos tratar-se de um jornalista e literato mencionado em vários jornais de Minas e do Rio, ora como autor de poemas e contos, ora de matéria jornalística. Segundo consta, trabalhou no Correio de Leopoldina e teria sido também redator do Correio Fluminense de Niterói (1891); do Estado de Minas do Sul, jornal separatista (1892); de O Globo, do Rio de Janeiro (1899); do Assobio, periódico publicado no Rio de Janeiro (1902); da Pátria, da mesma cidade (1896); do jornal Cidade do Rio (1901) e, correspondente d’O Pharol de Juiz de Fora (1901-1906).

N’O Pharol, edições de 20 e 21 de março de 1892, página 1, Henrique Cancio é apontado como mau aluno em Ouro Preto que participou de baderna em Três Corações e Rio Verde, no movimento armado que pretendia formar o Estado de Minas do Sul. No jornal O Estado de Minas Geraes, página 2 da edição de 19 de março de 1892, matéria Presos Políticos, informa-se que “Henrique Cancio, um dos redatores do jornal oficial do novo estado” estava preso.

Em 15 de agosto de 1893, na cidade de Conceição do Turvo (Minas), foi orador oficial de homenagem a um padre, conforme notícia da página 4, edição de 17 de setembro de 1893 do jornal O Apóstolo, do Rio. Neste mesmo jornal, edição de 24 de setembro de 1893 publica um poema em homenagem ao mesmo padre.

Na lista de colaboradores em dezembro de 1894, o Correio de Leopoldina trazia alguns nomes bem conhecidos no meio jornalístico da época. Dentre eles: José Monteiro Ribeiro Junqueira, Ernesto de La Cerda e José James Zig Zag, de Leopoldina; e, Gustavo Santiago, Arthur Itabirano, Jacobino Freire (que colaborou também com o periódico A Leopoldina e com diversos jornais mineiros). Além destes, colaborava também José Maia, radicado na Capital Federal.

Indicando a linha editorial a que se propunha, em sua apresentação, no editorial da primeira página, ele sugeria que se plantasse o café e também cereais, que uma fábrica de tecidos era necessária, assim como emancipar-se do estrangeiro, ou seja, do trabalhador imigrante. Na página seguinte desta mesma edição, trazia a mensagem de Prudente de Moraes ao tomar posse da Presidência da República no dia 15 de novembro de 1894.  Diferentemente dos demais jornais de Leopoldina, o Correio já se apresentou com oito páginas que na primeira edição traziam notas locais e nacionais, dois textos literários, os objetivos da Empresa criada para publicar o periódico, o plano do almanaque planejado para 1895 e anúncios classificados.

O Trem de História de hoje chega à estação. Na gare, matérias de outros periódicos aguardam o momento do embarque. E no primeiro lugar da fila de espera está a Gazeta de Leopoldina que embarcará no próximo Trem. Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de fevereiro de 2016

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40 – Assuntos dos Antigos Jornais

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A imprensa em Leopoldina (MG) entre 1879 e 1899

Nesta reta final dos textos sobre a Imprensa em Leopoldina entre 1879 e 1899, o Trem de História traz hoje os assuntos que mais se destacaram nos periódicos estudados.

Verá o leitor que o formato de quase todos os jornais da época se limitava a uma dúzia de grupos de assuntos, tratados em cada periódico de acordo com a linha do seu editor.

Vale ressaltar que destes doze temas apenas a Escravidão foi assunto exclusivo do período anterior à assinatura da Lei Áurea, como se o normativo legal de 1888 tivesse eliminado o problema e suas consequências. Como se tivessem passado um limpa-trilhos mágico ou, uma supervassoura que varreu totalmente dos informativos as manchas da casa grande e da senzala.

Com esta ressalva, os demais assuntos estiveram presentes nos diferentes jornais durante todo o período estudado, com frequência maior ou menor segundo a linha editorial foram os seguintes:

Administração Pública – Matérias oriundas do Legislativo ou do Executivo como Avisos sobre recolhimento de Tributos, Alistamento Militar, Fiscalização e Atas. Eventualmente tais matérias eram republicadas de forma resumida nos jornais que não as recebiam diretamente dos respectivos órgãos.

Agroindústria – Artigos sobre Feira de Gado, Exposição Industrial, Café, Club Agrícola e, principalmente, instrução para melhoria da produção agrícola e de outras atividades econômicas da época, como criação do Bicho da Seda ou produção de leite e seus derivados. Na época estudada, embora o café ocupasse lugar de destaque, havia uma boa diversificação da atividade econômica no município.

Educação – Artigos, notícias e anúncios sobre escolas regulares, públicas e particulares, bem como cursos noturnos e aulas de música, incluindo-se pauta de reuniões, nomeação de professores, folha de presença, resultado de exames anuais e anúncios de livros à venda.

Escravidão – Artigos sobre emancipação, manumissão, libertação, Lei do Ventre Livre, descumprimento de leis e anúncios de fuga de escravos foram até 1888.

Imigração – Artigos de opinião sobre a substituição da mão de obra escrava pelos imigrantes; orientação para contratar e receber colonos imigrantes e anúncios sobre pedidos e chegada de imigrantes na Hospedaria Horta Barbosa, em Juiz de Fora.

Literatura – Contos, Folhetins e Poesia tinham espaço garantido. Os dois primeiros eram apresentados, na maioria das vezes, em capítulos.

Poder Judiciário – Nesta categoria enquadram-se as convocações para o tribunal do júri; notícias sobre julgamentos, prisão e fuga de presos; providências relativas a desordens públicas e, determinações gerais sobre cumprimento de normas.

Política – Alistamento eleitoral, resultado de pleitos, propaganda política e, na última fase, colunas de opinião enaltecendo ou acusando os líderes políticos.

Religião – Artigos com matéria de fé, como explicação de orações; anúncios sobre comemorações religiosas e campanhas de arrecadação para as obras pias.

Serviços Públicos – Matérias elogiando ou denunciando problemas em vias públicas, pontes, falta d’água e infração de posturas municipais.

Social – Condecorações, visita de personalidades, notícia sobre viagens a negócios ou turismo – na época denominado vilegiatura, anúncios de festas de aniversário, bodas, doenças e óbitos.

Transportes – Artigos e notícias sobre estradas e, principalmente, ferrovia.

Variedades – Anúncios de peças teatrais, carnaval, corridas de cavalo, construção de teatro, fundação de banda de música, apresentações circenses e, também, piadas e charadas.

Conforme citado em alguns textos desta série, dos 21 periódicos que circularam em Leopoldina entre 1879 e 1899, poucos tiveram edições preservadas em acervos públicos ou particulares. Até aqui já foram comentados O Leopoldinense, que circulou de 1879 a 1900; Irradiação, entre 1888 a 1890; Gazeta de Leste, entre 1890 e 1891; A Leopoldina, lançado em 1893; A Voz de Thebas, publicado entre 1894 e 1897; e, O Arame, que circulou entre os anos 1898 a 1899.

Por hoje o vagão está completo. Nas próximas colunas serão abordados mais alguns jornais. Aguardem.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de janeiro de 2016

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39 – Relembrando a partida inicial do Trem de História

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A partir de 16 de junho de 2014, com o artigo “Apresentação e início da história” o Trem de História começou a divulgar para o leitor do Jornal Leopoldinense um pouco do passado da cidade.

Na maioria das vezes, falando da Imprensa em Leopoldina no período de 1879 a 1899. Vez por outra, intercalando um assunto do momento.

A escolha do assunto principal partiu da afirmação de Xavier da Veiga na monumental obra intitulada ”Efemérides Mineiras”, de que Leopoldina estava entre os municípios mineiros com maior presença da imprensa periódica no final do século XIX. E porque, no dizer de Maria Beatriz Nizza da Silva, no livro Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822), os jornais são fontes preciosas para o historiador como documento da vida cotidiana, permitindo observar aspectos “que dificilmente se encontram em outra documentação”.

Majoritariamente foram textos baseados no trabalho de Nilza Cantoni para o curso de pós graduação em História Cultural pela Universidade Gama Filho, para o qual ela dedicou infinitas horas lendo e analisando periódicos da época. Leituras que permitiram esboçar um panorama da sociedade da época, despertando para o “estudo de um saber local nos moldes históricos” de que Lynn Hunt, em “A Nova História Cultural”, trata ao definir o que é a História Local.

Fato é que, manuseando este rico material, Nilza tirou algumas conclusões interessantes e constatou, como ainda se verá em mais alguns artigos que virão a público nos números seguintes do Trem de História, que os primeiros jornais de Leopoldina funcionaram muitas vezes como os almanaques da época, os quais formavam uma coletânea de informações que se destinavam a instruir o público leitor a respeito dos mais variados assuntos. Concluiu, ainda, que aqueles periódicos se propunham a atuar na formação de um público leitor que viria a se tornar consumidor de outros jornais e dos livros por eles divulgados.

Mostrar qual seria “O público alvo dos periódicos” foi preocupação do segundo artigo da série. Porque era fundamental conhecer as pessoas que se sentariam no banco do trem, na espreguiçadeira do alpendre ou, na cadeira da sala para ler o jornal.

Trabalho que começou pelo mais antigo jornal da cidade, “O Leopoldinense”, que em sua primeira edição se apresentava como “Folha Comercial Agrícola Noticiosa” e no subtítulo dizia ser “Consagrado aos Interesses dos Municípios de Leopoldina e Cataguases”.

Seria, entretanto, uma simplificação perigosa afirmar que O Leopoldinense tinha como público alvo apenas os moradores de Leopoldina e Cataguases porque poderia ser constituído pelos 59.390 habitantes da área de influência de Leopoldina.

E para entender esta ampliação do público alvo basta lembrar o fato de que alguns dos distritos emancipados estavam subordinados a municípios onde ainda não havia imprensa periódica. Além de Cataguases, este é o caso dos distritos que foram transferidos para Mar de Espanha, Muriaé e São João Nepomuceno, como pode ser deduzido da obra de José Xavier da Veiga, quando mostra que o primeiro jornal de Mar de Espanha é de 1882 e informa que em Muriaé e São João Nepomuceno os primeiros apareceram somente em 1887.

Interessante destacar que, do total de moradores apurado em 1872, apenas 65,54% deles eram cidadãos livres, o que poderia levar à conclusão de que o mercado do jornal seria de 38.924 pessoas, das quais apenas 9.010 eram alfabetizadas. Entretanto, o baixo índice de alfabetização não se torna totalmente excludente por conta de notas encontradas em vários jornais consultados, as quais confirmam a opinião de Walmir Silva, em A Imprensa e a Pedagogia Liberal na Província de Minas Gerais, que citando Gramsci afirma que: “o referido público não se resumia a letrados, sendo condição da pedagogia liberal alcançar os simples”. Conforme o mesmo autor, a oralidade teve grande importância num ambiente de baixa alfabetização: “a circulação dos periódicos e sua leitura pública alimentavam uma elite intelectual moderada, em sentido amplo”. E no mesmo sentido coloca-se Marcus de Carvalho, em A Imprensa na Formação do Mercado de Trabalho Feminino no Século XIX, ao mencionar a leitura em voz alta e também a frequência aos locais de concentração de pessoas como os meetings e clubs, para ter acesso à informação.

Ainda há o que contar. Mas o Trem de História de hoje precisa ficar por aqui. Precisa reabastecer a caldeira para o próximo número.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de janeiro de 2016

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21 – Mais um pouco de opinião e política

Logo da coluna Trem de História no jornal Leopoldinense

Conforme o prometido no artigo anterior, o Trem de História preencherá o vagão de hoje com o que resta na plataforma de opinião e política.

Para começo do trabalho, busca a edição de nº 3 do Arame, publicada em 11.12.1898, que bem representa o que foi este periódico. Nela se encontram matérias que descortinam vários assuntos daquele momento, numa clara demonstração de que este pequeno jornal praticava realmente a crítica assumida em seu subtítulo.

Um dos temas é uma “disputa de lavadeiras” entre a Gazeta de Leopoldina e O Leopoldinense, denunciada na primeira página. Conselho do articulista: que O Leopoldinense dê o exemplo de comedimento, calando-se, e deixe a Gazeta “gritar [porque] ela tem força é mesmo na língua”.

Logo depois, vem uma mensagem aparentemente cifrada: “as cabras preservam os outros animais da epizootia”, razão pela qual “o Zezé tomou o Mingote”.

Traduzindo-se por comparação com outras matérias d’O Arame, esta frase poderia significar que os jornais leopoldinenses deveriam agir como as cabras, defendendo-se da enfermidade contagiosa (epizootia) representada pelo Mingote (Ribeiro Junqueira).

E assim, sucessivamente as quatro páginas do periódico traziam também notícias como a do lançamento de um jornal em distrito da cidade, ao lado de reclamações por maus serviços públicos, bem como notas sociais. Na seção literária, inicialmente foram publicados poemas ou frases de Voltaire e José Alencar, além de máximas do escritor e teatrólogo francês Edmond de Goncourt que, na época, saíam em jornais parisienses e nacionais. Mais tarde esta seção, que inicialmente chamou-se “Pensamentos” e localizava-se na terceira página, passou para a primeira e publicou ensaios literários de autores sem fama conhecida.

Vale registrar que em todos os periódicos leopoldinenses analisados foi encontrado, de forma mais ou menos frequente, material produzido em ou sobre localidades distantes e até mesmo vindas do exterior. Num primeiro momento pensou-se na hipótese de serem republicações de outros jornais a que os editores tinham acesso. Contudo, informações sobre a trajetória profissional de Ricardo José de Oliveira Martins encaminharam as sondagens em outra direção.

Nascido em Leopoldina no dia 03.04.1879, aos 20 anos Ricardo Martins era encarregado da composição de tipos na Gazeta de Leopoldina, portanto empregado de Ribeiro Junqueira que o nomeou para o cargo de Agente do Correio. Através de acusações e cartas de defesa publicadas nas páginas d’O Leopoldinense e da Gazeta, entre dezembro de 1898 e abril de 1899 envolvendo Ricardo Martins, entende-se que houve problemas com a entrega de telegramas que trariam informações importantes para os jornais concorrentes.

Diga-se, a propósito, que antes da inauguração da Estrada de Ferro Leopoldina a população contava com um único meio de receber correspondência: as cartas vinham pelo Correio que, segundo A. Assis Martins e J. Marques Oliveira, no Almanak Administrativo, Civil e Industrial da Província de Minas Geraes para o ano de 1865, deveriam chegar a Leopoldina às 18 horas dos dias ímpares de todos os meses do ano. Depois da ferrovia, conforme ensina Joseph D. Straubhaar e Robert La Rose, em “Comunicação, Mídia e Tecnologia” “a estrada de ferro e o telégrafo se integraram e se complementaram” e o interior teve acesso a um novo meio de comunicação. A partir daí, segundo os mesmos autores “o desenvolvimento do telégrafo […] levou a uma revolução na distribuição das notícias”. Opinião corroborada por Nelson Werneck Sodré para quem, até 1874, as notícias chegavam ao interior por carta e telégrafo que, ao agilizar o acesso, estimulou até mesmo a criação de página dedicada a notícias internacionais.

Por hoje o Trem de História fica por aqui. No próximo ele volta com outro assunto.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA
Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de abril de 2015

Parte XVI de A Imprensa em Leopoldina (MG) entre 1879 e 1899

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20 – Opinião e Política

Logomarca da coluna Trem de História

O Trem de História de hoje volta à sobra de carga amontoada na estação desde o artigo anterior e segue a falar de opinião e política da época da Maria Fumaça. E conta que em outubro de 1898, quando O Arame veio à luz, a imprensa em Leopoldina estava praticamente reduzida à Gazeta de Leopoldina, legítima representante do tipo em que não há espaço para críticas ao poder vigente.

Para se ter uma ideia de como as coisas funcionavam naquela época, basta analisar um fato envolvendo profissionais da imprensa periódica em Leopoldina.

O editor de O Arame, Ovídio Rocha, casou-se quatro anos depois do lançamento deste jornal com uma sobrinha de Luiz Falcão, que fora proprietário e editor d’O Leopoldinense da terceira fase. Segundo Luiz Eugênio Botelho, em “Leopoldina de Outrora”, O Arame “era de oposição aos Ribeiro Junqueira que então começavam a dominar a política em Leopoldina”. E para que se tenha uma pálida ideia do nível da contenda, em 05.11.1899 a Gazeta de Leopoldina publicou uma nota acusando Ovídio Rocha de ter tentado deflorar uma jovem. Seria uma acusação real ou apenas uma tentativa de desacreditar o redator concorrente?

É interessante observar a leitura d’O Arame, um jornal que se apresenta como sendo “de caráter puramente crítico e noticioso”. O tom jocoso perpassa quase a totalidade das suas matérias. Na edição nº 3, por exemplo, o editorial da primeira página é um agradecimento aos “colegas da Gazeta de Leopoldina pelos efeitos da propaganda que fizeram em prol do nosso jornalzinho” e continua nos seguintes termos, com adaptação da ortografia feita pelos autores desta coluna, preservando a pontuação original:

Já não temos mãos a medir com tantos pedidos de assinaturas e números avulsos da parte dos verdadeiros apreciadores da prosa amena e espírito fino e delicado. Todos quantos sabem ler querem possuir um número do Arame cuja leitura é um corretivo dos efeitos da prosa massuda, soporífera de Júlio Caledônio. E, dr. Zezé e de quanto bicho implume infesta a pobre imprensa mineira.

Vendo que a Gazeta de nós se ocupava com a asinina delicadeza que lhe é proverbial, o público que se orienta pela leitura da Gazeta fazendo justamente o contrário do que ela aconselha, compreendeu logo que havia uma pontazinha de inveja nas palavras do dr. Zezé, que é o “toma larguras” daqui da terra.

Como não ser grato aos distintos amigos pelos relevantes serviços que nos prestaram?

E que melhor modo de patentear essa nossa gratidão do que registrando o espantoso sucesso do Arame e atribuindo a quem de direito esse resultado?

A não ser por este modo só pelo voto, mas este pertence já ao dr. Zezé para todo e qualquer cargo que ele pretenda de futuro; porque é preciso dizer-lhes, e não costumamos errar em nossos vaticínios: o nosso muito amado dr. Zezé, na marcha em que vai há de ir longe. Dentro em pouco não haverá em Leopoldina lugar nenhum que não seja por ele ocupado.

Não nos admirará se o virmos a disputar ao Jerônimo a vaga deixada pelo Chico Tibúrcio.

Aqueles $3 ou $4 da carceragem sempre dão para o charuto do Mingote. Deixá-los ir para as mãos de outrem é que não é de boa política jagunça.

Pois é. Trem de História encheu mais um vagão e não acomodou toda a opinião e política que restava na plataforma. Terá que voltar ao assunto no próximo artigo. E o fará, com certeza.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA
Publicado no jornal Leopoldinense de 16 de março de 2015

Parte XV de A Imprensa em Leopoldina (MG) entre 1879 e 1899

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19 – A Voz de Thebas e O Arame

Logomarca da coluna Trem de História

O título está a mencionar Tebas, distrito a que temos acesso passando pela Colônia Agrícola da Constança, lembrada no Dia Nacional do Imigrante Italiano em 21 de fevereiro.

Distrito importante e que já foi sede do município de Leopoldina em tempos passados. Terras tebanas que, embora não tenham conhecido os trilhos da estrada de ferro, participam da história da imprensa em Leopoldina por ter ali circulado um dos periódicos que abordaremos neste texto.

O Trem de História de hoje recolhe dados para levar ao leitor duas publicações que circularam por pouco tempo, mas que merecem uma atenção especial: A Voz de Thebas e O Arame.

A Voz de Thebas parece ter circulado por apenas três anos e trazia no cabeçalho a informação de ser um “órgão republicano constitucional”. Foi lançado cinco anos após a Proclamação da República, seu slogan parecia indicar que pretendia diferenciar-se dos demais embora não se tenha conseguido determinar a que outro jornal pretendia contrapor-se. Porque, à exceção d’O Leopoldinense, é possível que os demais periódicos existentes nos anos anteriores não tenham sobrevivido ao primeiro ano de circulação. Além disto, durante o segundo ano d’A Voz foi fundada a Gazeta de Leopoldina, em páginas da qual foram publicadas respostas ácidas a acusações feitas pelo jornal de Tebas, em outubro de 1895.

Diferentemente dos jornais republicanos analisados por Nelson Werneck Sodré, em “A História da Imprensa no Brasil”, A Voz de Thebas parece ter servido apenas de veículo para manifestações virulentas de seu editor, Francisco Sequeros Teixeira, que era também proprietário da Photographia Moderna, estabelecida no centro de Leopoldina, na Rua da Estação nº 4. Pelas três únicas edições encontradas, todas pertencentes ao acervo do Arquivo Público Mineiro, pode-se apenas informar que publicaram editoriais arrebatados e aparentemente cifrados, não sendo o conteúdo compreensível por falta de dados esclarecedores. Além disso, apenas em uma das edições foi encontrado um único anúncio, o que remete a um possível patrocínio do próprio editor, apesar de indicação de preços de assinatura.

José César da Silva, em “Memória de um Tebano”, página 49, diz; “Há muito tempo, um aventureiro que se chamava Teixeira, podendo-se dizer que veio sem se saber de onde, imprimiu aqui um jornalzinho que tinha o nome de Voz de Tebas. O nome, na verdade, era mesmo bonito, mas de fato, devia ter o nome de Voz de Satanás, que nem merece aspas, pois era um verdadeiro pasquim que somente servia para difamar, arquitetar intrigas e provocar desordens”.

O segundo periódico, O Arame, apresenta algumas semelhanças com o de F. S. Teixeira. Lançado em 1899, foram localizadas 23 das 25 primeiras edições, sendo que a última encontrada parece ter sido a derradeira do jornal. De certa forma, O Arame e A Voz de Thebas assemelham-se aos pasquins que Nelson Sodré definiu como sendo de características específicas, não tendo nascido de desejos ou de deficiências dos jornalistas da época, mas da realidade circundante. Para este autor, os folhetos muitas vezes injuriosos surgiram quando as publicações existentes deixavam de observar e denunciar o que não estava funcionando a contento, assemelhando-se à imprensa áulica que, segundo ele mesmo, alugava penas “de alguns notórios jornalistas […] desonra da classe que não pode por eles ser aferida”, com o intuito de publicar apenas o que agradasse ao poder instituído.

O Arame apareceu no momento em que O Leopoldinense circulava irregularmente, fazendo suspeitar que passasse por problemas financeiros após o corte das publicações oficiais. Este foi o provável motivo para o encerramento das atividades d’O Mediador no ano anterior e de outros mais que eram considerados de oposição. Coincidentemente, o período do início da carreira política de José Monteiro Ribeiro Junqueira que, naquele momento, trabalhava pelo sepultamento da liderança de oposição na região, representada pelo Senador Joaquim Antonio Dutra.

Esclareça-se que José Monteiro Ribeiro Junqueira era um dos sócios da Gazeta de Leopoldina e, segundo o site do Senado Federal, foi Presidente do Conselho Distrital em 1895, Deputado Estadual entre 1895 e 1900, Deputado Federal de 1903 a 1930, Deputado Constituinte 1933-34 e Senador de 1935 a 1937. Durante a deputança estadual foi, também, Agente Executivo do município de Leopoldina, assim como o fora seu opositor Joaquim Antônio Dutra.

Infelizmente restou, ainda, carga na plataforma da estação, mas o Trem de História precisa fazer uma pausa porque política é carregamento estafante. No próximo Jornal a viagem continuará. Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 01 de março de 2015

Parte XIV de A Imprensa em Leopoldina (MG) entre 1879 e 1899

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