Arquivos da categoria: Trem de História

Coluna publicada no jornal Leopoldinense, da cidade de Leopoldina, por Luja Machado e Nilza Cantoni.

123 – Fontes das Informações

Resgatar a história da cidade e, por via de consequência, a Imigração Italiana em Leopoldina, tem sido um trabalho prazeroso. Principalmente quando se olha para o conhecimento sobre a população leopoldinense que se conseguiu ordenar e disponibilizar para pessoas que quase nada sabiam sobre o passado da cidade e das famílias que aqui se instalaram.

Mas hoje o Trem de História quer fazer um registro importante. Quer deixar claro que é reconhecida a impossibilidade de se retratar fielmente todo o passado, uma vez que, por mais que se controle a análise dos documentos, ela é sempre orientada pelo presente, ou seja, pela interpretação que o pesquisador é capaz de fazer dos vestígios que consegue recuperar. Está sempre sujeita a novas descobertas e interpretações.

Como recorda o mestre francês Marc Bloch[1], “o conhecimento do passado é uma coisa em progresso, que incessantemente se transforma e aperfeiçoa”.

Através de pistas fornecidas pelos colaboradores, foi possível fazer uma comparação entre as citações encontradas nas fontes. Inclusive, e isto é de enorme importância, entrevistas indicaram caminhos para se identificar transformações sofridas por grande número de sobrenomes.

Nunca será excessivo mencionar dois exemplos clássicos encontrados nos documentos pesquisados. Num deles, um italiano aparece no registro de estrangeiros com o nome de Severino Terceira, nome que dificilmente seria original. O outro exemplo é o de Sancio Maiello que noutras fontes se transformou em Francisco Ismael.

Além disso, nos últimos oito anos foi possível ter acesso a documentos italianos que apresentam grafia diferente para nomes e sobrenomes registrados em outras fontes também produzidas no país de origem do imigrante, confirmando que a divergência de grafia existiu tanto lá quanto cá.

De qualquer forma, permanece em vigor a determinação metodológica, do início da pesquisa, de utilizar a grafia encontrada na fonte mais antiga e estendê-la a todos os membros do grupo familiar. Isto se deve à total impossibilidade de manter todas as variações num universo tão amplo de pessoas. Afinal, o trabalho intenta abordar os imigrantes que chegaram a Leopoldina entre 1860 e 1930, identificados nas fontes disponíveis.

É certo que não foram poucos os casos em que um mesmo personagem apareceu com diversas formas de nomes. E somente após inúmeras comparações foi possível reuní-los sob um único sobrenome. Provavelmente mais ainda o serão, quando outros estudiosos se dedicarem ao assunto.

Por outro lado, muitos leitores se surpreendem com algumas ocorrências frequentes. Na maioria das vezes resultado do anacronismo, ou seja, de se olhar o passado sob a ótica atual. As pessoas não compreendem que o registro civil, seja de nascimento, casamento ou óbito, não é a melhor fonte para o período estudado. Há inúmeros casos em que a data de nascimento no registro civil é posterior à data do batismo, como se fosse possível batizar a criança no ventre da mãe ou até mesmo antes de ser gerada. Diversos, também, são os casos de casamento civil muitos anos após o nascimento dos filhos, como se os pais fossem solteiros. E pessoas se manifestam de forma pouco cortês quando não encontram o registro de óbito no cartório da localidade onde ocorreu a morte.

Mas há justificativas para os três casos, como se verá.

Sobre o registro civil de nascimento, basta lembrar que até fevereiro de 1931 havia cobrança de multa por atraso. É fácil concluir que, para evitar o pagamento da multa, era comum alterar a data do nascimento.

Com o Decreto Lei 1.116, de 24 de fevereiro de 1931, ficou estabelecido em seu Art. 1º que “Os nascimentos ocorridos no país desde 1º de janeiro de 1879 e não registados no tempo próprio deverão ser levados a registo até 31 de dezembro do corrente ano”.

Este decreto esclarece, de uma só vez, duas situações. A primeira, que o registro civil no Brasil não foi implantado com a República. E que os registros realizados a partir deste normativo poderiam conter enganos de data e local, já que eram feitos com base em informações orais.

Quanto ao casamento, foi observado que o registro civil acontecia nos casos em que os noivos residiam próximo ao cartório ou, em casos menos frequentes, quando o oficial se deslocava até alguma fazenda e ali registrava vários eventos no mesmo momento.

Há, ainda, relatos de que os trabalhadores não podiam arcar com os custos cobrados pelos cartórios, o que também justificaria a inexistência ou demora no registro.

Já para a falta de registro de óbito, diversos oficiais de cartório informam a ausência deles para um período relativamente longo. Há várias explicações possíveis, entre elas as mortes e sepultamentos ocorridos longe das áreas urbanas.

De todo modo, e ainda reforçando a metodologia definida desde o início da pesquisa, foi dada prioridade aos assentos paroquiais relativos a eventos ocorridos no Brasil. Para os italianos, sempre que possível se recorreu aos Archivi di Stato, instituições que guardam os registros de nascimento, casamento e óbito em solo italiano, entre outros documentos.

E que fique claro: nenhuma das distorções justificaria abandonar a ideia de continuar com o resgate da história.

Por hoje o Trem de História fica por aqui. Na próxima edição ele trará algumas informações sobre a movimentação dos imigrantes dentro de Leopoldina e, também, para fora dela. Até lá!


Nota 1: BLOCH, Marc Leopold Benjamin. Apologia da História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p.75

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 376 no jornal Leopoldinense de 16 de março de 2019

 

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122 – Relembrando a pesquisa publicada em 2010

Em diversas viagens do Trem de História, na série de artigos que lembraram o Centenário da Colônia Agrícola da Constança em 2010, foi ressaltado um ensinamento do teórico francês Jacques Le Goff a respeito das duas formas de alimentar a memória: os monumentos e os documentos. Ensinou ele que monumento é o que pode evocar o passado e permitir a recordação do vivido, como estátuas, construções e documentos.

Na viagem atual será abordado, segundo os ensinamentos daquele autor, um tipo de “documento de memória” formado pela “escrita da história local”. Reúne o conhecimento que se obteve sobre o assunto até o momento em que foi escrito. E poderá ser sempre enriquecido com novas pesquisas, especialmente pelo olhar de outros pesquisadores que vierem se debruçar sobre o mesmo assunto.

É um documento que se iniciou pela pesquisa, ou seja, pela consulta de documentos de onde se extraíram dados que foram analisados à luz de outras fontes para então constituir a base sobre a qual foi realizada a escrita, como ocorreu com o resgate da história da Imigração Italiana em Leopoldina.

Durante anos os autores reuniram dados e escreveram sobre o assunto. Em abril de 2010, por ocasião das comemorações do Centenário da Colônia Agrícola da Constança, o jornal Leopoldinense publicou um resumo histórico sobre aquela instituição, composto por alguns dos textos publicados entre 1998 e aquela data na imprensa local. Simultaneamente, os autores publicaram uma edição virtual de toda a pesquisa e suas conclusões.

Criou-se, portanto, um ‘documento de memória’ que começa, agora, a ser revisado. Porque o tempo decorrido, as pesquisas que se sucederam e outros fatores determinaram a necessidade de tal revisão.

Um aspecto importante a ser destacado é que a pesquisa começou num tempo em que ainda não existiam as novas tecnologias de reprodução da informação, obrigando o pesquisador a copiar, manualmente, os dados encontrados nas fontes pertencentes aos acervos dos diversos centros de documentação visitados.

No decorrer da década de 1990, com o surgimento de novos meios de reprodução, algumas instituições passaram a fornecer cópias que permitiram a primeira revisão ou a conferência do que se tinha obtido até então.

Na mesma década, com o início do acesso comercial à rede mundial de computadores, tornou-se mais rápido solicitar documentos dos países de origem dos imigrantes. Entretanto, a popularização do acesso demorou ainda algum tempo e até o final do projeto, em 2010, muitas instituições nacionais e estrangeiras ainda não estavam aptas a atender aos pedidos. Nos anos seguintes, muito mais se obteve, seja remotamente ou pela aquisição de cópias digitais diretamente nos locais detentores dos acervos.

Outro fator a ser considerado é que, em 1997, quando a rede mundial de computadores era muito pouco conhecida e utilizada no Brasil, os autores publicaram o primeiro site dedicado a divulgar suas pesquisas sobre a história de Leopoldina. Com a popularização da rede, já em meados da década passada, descendentes dos imigrantes que viveram em Leopoldina começaram a entrar em contato através do site. A visitação e os contatos aumentaram sensivelmente após a publicação da mencionada edição de 2010. Portanto, nos últimos oito anos houve aumento substancial de indicadores que levaram a novas buscas com muitas confirmações do que já se sabia, mas também com algumas alterações importantes.

O objetivo desta revisão é, pois, acrescentar informações ao que foi publicado nos últimos vinte anos e apresentar novas descobertas. Além de recordar a Colônia Agrícola da Constança, cuja fundação completará 110 anos em 2020, será feita, também, uma ampliação do período de análise da imigração italiana em Leopoldina.

No trabalho anterior, o recorte temporal foi de 1880 a 1930. Agora, as novas descobertas obrigam a retroceder com a data de início acrescentando 20 anos ao recorte temporal, em virtude da identificação de imigrantes italianos chegados à Leopoldina na década de 1860, ano que se torna, assim, o marco inicial da pesquisa cujo término permaneceu em 1930.

Diante desta mudança, os 130 anos da Imigração Italiana em Leopoldina, comemorados em 2010, necessariamente serão corrigidos para 160 anos em 2020.

Mas antes de se embrenhar por estes caminhos, o Trem de História faz uma parada para reabastecimento antes de retomar a viagem, na próxima edição, com nova bagagem. Aguardem!


Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 375 no jornal Leopoldinense de 1 de março de 2019

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121 – Imigrantes Italianos em Leopoldina – O início do estudo

Hoje o Trem de História inicia uma nova viagem, em cuja estação de embarque são recolhidas informações publicadas pelos autores nos últimos vinte anos, as quais servirão de guia para uma nova série de artigos.

Sabe-se que pesquisar é buscar resposta para uma questão que surge no contato com um tema. De modo geral, o processo tem início quando, ao procurar conhecimento sobre um assunto, o leitor se sente atraído por um aspecto não abordado nas obras disponíveis. No caso de pesquisas historiográficas relativas ao resgate da memória de uma cidade, como é o caso deste trabalho sobre a imigração em Leopoldina, isto se torna mais claro por não sido encontrada uma fonte suficiente para esclarecer o assunto.

A convivência com descendentes de naturais de outros países que aqui se estabeleceram desde o século XIX, acrescida mais tarde da pesquisa em fontes documentais, da leitura de obras sobre o tema e de entrevistas com descendentes e especialistas, resultou numa parceria que vem produzindo diversos trabalhos, seja para publicar no jornal da cidade ou para apresentação em seminários.

Um deles foi “A Imigração em Leopoldina vista através dos Assentos Paroquiais de Matrimônio”, cuja primeira versão data de 1999. Nele ficou demonstrado que 10% dos noivos que se casaram em Leopoldina no período de 1890 a 1930 eram imigrantes, sendo 9% italianos e os demais vieram de Portugal, Espanha, Síria, Açores, França, Ilhas Canárias e Egito.

Registre-se que, num primeiro momento, parte destes casais ficou sem definição do país de origem. Mais tarde, através de assentos paroquiais de batismo, foi acrescentada a origem germânica de alguns casais que aqui viviam no período.

Naturalmente, uma questão se impôs logo no início da pesquisa: quem eram aqueles imigrantes? Questão que se tornou a justificativa primeira para realizar a busca delineada.

Embora o senso comum reconheça que o centro urbano é habitado por grande número de descendentes de italianos, eram desconhecidas iniciativas de valorização de tal comunidade. A exceção era a representação anual na Feira da Paz, evento dos clubes de serviço com atividades festivas de congraçamento.

Assim, logo se viu que a busca por informações se mostrava infrutífera, já que as pessoas consultadas nada sabiam sobre a chegada dos primeiros imigrantes nem sobre a trajetória das famílias. Mas para quem já se dedicava há tantos anos a buscar conhecimento sobre Leopoldina, uma certeza já se fixara ali.

Sabia-se que a ordenação de informações resultaria em benefício para os moradores, na medida em que conhecer a própria origem dá ao ser humano a oportunidade de reconhecer-se no tempo e no espaço, realimentando sua própria identidade e abrindo um novo olhar para o mundo.

Sendo assim, ficou decidido que seria feita uma análise daquela sociedade a partir de um de seus elementos constitutivos – os imigrantes, com o objetivo de oferecer aos conterrâneos uma informação cultural até então pouco discutida, qual seja o reconhecimento da presença dos descendentes em todas as atividades locais.

Ao ser esboçado o projeto, foi feito um levantamento das fontes passíveis de serem consultadas. Decidiu-se que os dados obtidos no levantamento dos livros paroquiais seriam comparados com os registros de entrada de estrangeiros; processos de registro dos que viviam no município por ocasião do Decreto 3010 de 1938 [1]; livros de sepultamento; pagamento de impostos e tributos municipais; escrituras de compra e venda de imóveis; e notícias na imprensa periódica.

Como se sabe, é fundamental estabelecer um recorte temporal para tornar viável o empreendimento, bem como o objetivo da pesquisa. No caso em pauta, por ser um primeiro trabalho sobre o universo estudado, era aconselhável restringir também o número de pessoas a serem estudadas. Entretanto, levantou-se a hipótese de variações em torno da lista de nomes identificados nos livros paroquiais. E em razão disto ficou estabelecido que seriam acrescentados os nomes que surgissem nos demais documentos disponíveis e que a citação em mais de uma fonte seria tomada como base para o reconhecimento do imigrante como residente em Leopoldina. Determinou-se, a partir daí, que o período de análise corresponderia à segunda fase da história de Leopoldina, o que se verá nos artigos seguintes.

Por hoje, com os cumprimentos às centenas de descendentes de italianos que vivem em Leopoldina, pela passagem do Dia Nacional do Imigrante Italiano no próximo dia 21, o Trem de História dá uma parada para embarque da carga que seguirá viagem na próxima edição do jornal. Até lá!


Nota 1 – Este Decreto, promulgado por Getúlio Vargas, determinava que todo imigrante residente em território nacional deveria preencher um requerimento a ser encaminhando para controle pelo Departamento de Polícia Marítima, Aérea e de Fronteiras, com dados de identificação pessoal e de sua imigração.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 374 no jornal Leopoldinense de 16 de fevereiro de 2019

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120 – Outros olhares sobre Manoel Funchal Garcia

Hoje o Trem de História encerra a série sobre o leopoldinense Funchal Garcia. Propositadamente em fevereiro de 2019 para marcar os 130 anos de nascimento desse conterrâneo. Personagem que soube, como poucos, escrever e pintar sobre o que viu, como atestam os artigos anteriores e as várias notas dos jornais a seguir selecionados.

Correio Paulistano[1]:

“O pintor leopoldinense Manuel Funchal Garcia inaugurou no saguão do Theatro Alencar uma exposição dos seus quadros. A exposição consta de 26 quadros, inclusive dois de Raul Pederneiras e dois de Paulo James, inteligente caricaturista, também nosso conterrâneo, que muito se tem distinguido no Rio, como collaborador de diversas revistas. Dos 26 quadros de Manoel Funchal, mais de 10 já foram adquiridos”.

O Paiz[2]:

“Exposição de quadros – Foi encerrada a exposição de quadros, do intelligente pintor Manoel Funchal Garcia, nosso estimado conterrâneo. Foi um verdadeiro sucesso”.

A Época[3]:

“Funchal Garcia – O talentoso e inspirado artista, que é o jovem pintor Funchal Garcia, acha-se nesta cidade, em excursão artística. Funchal, que ainda há pouco, realizou aqui uma bela exposição dos seus quadros, reveladores de um espirito superiormente educado, está organizando uma nova collecção de suas obras, com as quaes pretende conquistar o premio de viagem de estudos ao Velho Continuente, por conta do Estado”.

O Globo [4] destacou a Menção Honrosa recebida por Manoel Funchal Garcia no XXXVII Exposição Geral de Belas Artes, em 1930.

O Radical [5]:

“Funchal Garcia contou-me, há tempos, o seguinte caso. – Muitos quadros, poucos compradores. Eu preciso offerecel-os para vencer a situação financeira difícil de atravessar. Fui procurar o sr. Ribeiro Junqueira que prometeu adquirir um deles. Sorte! Tudo combinado, excepto o preço. O pintor sabia a tradição de parcimônia do titular da Republica. Pedir o valor real do quadro seria fazer fracassar a transacção.

– Quanto é?

– Oitocentos mil réis, senador!

– Você enlouqueceu, menino. Com este dinheiro eu compro uma vacca.

O artista concordou irônico: – Faz muito bem. Compre o animal e dependure na parede!”

A Noite [6]:

“Notícia de exposição organizada por Thomaz J. Wasson, de 30 de maio a 21 de julho no Rio, depois em São Paulo e Buenos Aires, composta por “93 quadros dos mais famosos pintores de  todas as partes do mundo, e de 150 gravuras”.  Funchal Garcia é um dos artistas brasileiros incluídos na exposição”.

Diário da Noite[7]:

“Homenagem ao Professor Funchal Garcia, o professor Luiz A. P. Victoria faz grandes elogios a Funchal. Chama-o de “poeta do pincel. Sente com a alma o que o pincel espalha na tela. […] Nascido no velho e aristocrático município de Leopoldina, não teve a fortuna a bafejar-lhe o berço. Todavia, a sorte não lhe foi de todo madrasta. Dotou-o de uma sensibilidade fina e de um gosto requintado. […] Funchal é um produto da força de vontade. Ainda criança, quase entregue a sua sorte, oferecia-se para trabalhar em circos. Conseguindo vir para a capital, cursou a Escola de Belas Artes. Granjeou logo amigos entre os mestres que viam nele um espirito de eleição. Voltando para o interior fez-se professor. Seu entusiasmo pelo belo não encontrava todavia correspondência. Insulava-se, então, na sua arte. […] Funchal Garcia é um pintor emotivo. Seus quadros teem alma e colorido.”

O Jornal[8]:

“Como já noticiamos, no Museu Nacional de Belas Artes, tem se realizado reuniões dos componentes dos diversos juris do “Salão” de 1944. Hoje, no entanto, podemos informar que da Divisão Geral, dos 411 trabalhos apresentados 69 foram aceitos e 342 recusados. Entre os trabalhos aceitos encontram-se nomes de […] Funchal Garcia – Na saída do capoeirão”.

O Dia, jornal paranaense[9]:

“Funchal Garcia é um pintor que merece palmas. Ninguém ama mais, sente mais encanto pela terra mater que esse paisagista de recursos amplos, de inspiração sadia e superior. Professor de dezenho de um estabelecimento de ensino, Funchal, que é tambem novelista de mérito, sempre que dispe de tempo toma o caminho das florestas, dos morros, das montanhas, a fim de colher com seu pincel tudo quanto de impressionante oferece a nossa exuberante e portentosa natureza.

Segundo Paulo Mercadante[10], Funchal Garcia

“pincelava a exuberância da natureza, a graça dos “flamboyants”. […] O brado tropical, irrompendo nas margens dos riachos, crescia com força não sufocada. Um modo de ser bandeirante, que de pincel e tela, procurava o trecho de beleza escondida. Alcançando as colinas, com os barrancos já feridos pela erosão, a perspectiva era ampla e iluminada”.

Muito mais se teria para falar sobre Funchal Garcia. A limitação de espaço, porém, indica o fim do trajeto. Na próxima edição, novo assunto será abordado.  Até lá!


Fontes consultadas;

1 – Correio Paulistano (São Paulo, SP) 07.11.1913, ed. 18068 p. 3 coluna 2, Notícia do Correio de Minas sob o título ‘Leopoldina Arte’

2 – O Paiz (Rio de Janeiro, RJ) 11.11.1913, ed 10627, p. 8 coluna 5, Notícia de Leopoldina

3 – A Época (Rio de Janeiro, RJ) 06.05.1914, ed 620, p. 4 coluna 5. Notícia de Cataguazes

4 – O Globo (Rio de Janeiro, RJ), 28.08.1930, p. 2

5 – O Radical (Rio de Janeiro, RJ) 04.11.1937, ed 1705, p. 2 coluna 6

6 – A Noite (Rio de Janeiro, RJ) 10.05.1941, ed 10503, p. 3 coluna 6, ‘Tres séculos de gravura nos Estados Unidos e Arte Contemporanea no Hemisferio Ocidental’

7 – Diário da Noite (Rio de Janeiro, RJ) 16.09.1943, ed 3879, p. 3 coluna 1, ‘A Arte e o Artista’

8 – O Jornal (Rio de Janeiro, RJ) 20.09.1944, ed 7485, 2ª seção p. 1 coluna 4 ‘O Salão de 1944’

9 – O Dia (Curitiba, PR) 05.09.1944, ed 6462, p. 4 coluna 8, ‘Quatro Notas de Arte’

10 – MERCADANTE, Paulo. Crônica de uma comunidade cafeeira: Carangola, o vale e o rio. Belo Horizonte: Itatiaia, 1990. p.106

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 373 no jornal Leopoldinense de 1 de fevereiro de 2019

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119 – A produção literária de Manoel Funchal Garcia.

Chega a vez do Trem de História descarregar o material sobre a obra literária de Funchal Garcia. É hora de se conhecer o trabalho desse grande artista leopoldinense, que em 1979, poucos meses após sua morte, recebeu homenagem de sua cidade natal nomeando[1] a avenida do bairro São Cristóvão que segue paralela ao córrego Jacareacanga, criando assim um monumento à memória desse nosso artista.

Funchal Garcia, com se pode observar pelos artigos anteriores, atuou em várias áreas. Os que viveram em Leopoldina nas décadas de 1940 e 1950 certamente se lembram da inesquecível dupla carnavalesca formada pelos saudosos Funchal Garcia e Dr. Irineu Lisboa. Dois artistas do melhor teatro.

Por outro lado, quem hoje anda pela Praça Félix Martins conhece o mural do conjunto da concha acústica, que retrata a lenda do Feijão Cru e provavelmente sabe que foi pintado por ocasião do centenário da cidade, conforme registra Barroso Júnior[2]. Talvez saiba também que, conforme as palavras de Mário de Freitas[3], aquela obra é de autoria do “laureado pintor Funchal Garcia”.

É sabido que diversos trabalhos seus a lápis, a bico de pena, a óleo, aquarela ou pastel, receberam elogios e alguns deles, prêmios. A tela “Pontão da Bandeira”, por exemplo, em 1939 foi escolhida[4] para exposição na Galeria de Ciências e Artes da Feira Mundial de Nova York e na Exposição Internacional de São Francisco, na Califórnia.

O que poucos sabem é que o pintor também escreveu comédias e novelas e como jornalista se destacou publicando matérias em diversos jornais e revistas de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, marcando importante presença nessa área, conforme consta na introdução do seu livro “Cachimbo e Cachaça…”[5]

Em 1937 Funchal Garcia publicou o seu primeiro livro: Memórias de Ivan Trigal, uma autobiografia que mereceu a seguinte nota[6] do Diário da Noite:

“Além de folhetos e artigos de imprensa, Funchal Garcia não tinha publicado ainda um volume. Com o “Memórias de Ivan Trigal”, oferece-nos muito mais do que um livro de reminiscências. Figuras simbólicas personificando virtudes ou defeitos ombreiam com as pessoas reais que vivem dentro do livro como no próprio mundo, falando uma linguagem simples, às vezes crua no seu naturalismo, escondendo crimes e perversidades, cultivando pequenas manias, irradiando simpatia ou pureza. Avulta, entre eles, a extraordinária sensibilidade de Ivan Trigal, em que o autor fixou os traços mais característicos da própria personalidade e os impactos culminantes de uma fase de sua vida.”

Do Litoral ao Sertão é seu segundo livro[7], no qual relata suas viagens pelo interior do país, em especial, a sua estada em Canudos, onde obteve o depoimento de testemunhas remanescentes da tragédia conhecida como Campanha ou, Guerra de Canudos.

Depois escreveu Retalhos da Minha Vida[8], em que retorna ao assunto do seu primeiro livro e a passagens de sua vida. Dois anos depois lançou Cachimbo e Cachaça, Verdade e Fumaça[9] de cuja introdução se conclui que ele deixou inéditos “livretes e livros”.

O Trem de História de hoje fica por aqui. Mas resta um vagão de Funchal Garcia que virá com um pouco mais sobre o que se publicou a respeito deste importante personagem leopoldinense. Até lá.


Fontes consultadas:

[1]- Lei Municipal nº 1.393, de 16.11.79.

[2] BARROSO JÚNIOR. Leopoldina e Seus Primórdios. Rio Branco-MG: Gráfica Império, 1943. rodapé da p.14

[3] FREITAS, Mário de. Leopoldina do Meu Tempo. Belo Horizonte, 1985. p.199.

[4] Diário de Notícias. Rio de Janeiro: 1 nov 1939, ed 5220, p. 3, primeira seção, coluna 5.

[5] FUNCHAL GARCIA, Manoel. Cachimbo e Cachaça, Verdade e Fumaça. Rio de Janeiro, GB: autor, 1971.

[6] Diário da Noite. Rio de Janeiro: 31 ago 1937 ed 3022 p. 2 col.7

[7] FUNCHAL GARCIA, Manoel. Do Litoral ao Sertão. Rio de Janeiro: Bibliex, 1965.

[8] FUNCHAL GARCIA, Manoel. Retalhos da Minha Vida. Belo Horizonte, MG: autor, 1969.

[9] FUNCHAL GARCIA, Manoel. Cachimbo e Cachaça, Verdade e Fumaça. Rio de Janeiro, GB: autor, 1971.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 372 no jornal Leopoldinense de 16 de janeiro de 2019

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118 – Manoel Funchal Garcia, artista de vários instrumentos.

Segue a viagem do Trem de História. Agora, com Manoel Funchal Garcia, o renomado pintor e escritor Funchal Garcia, lembrado nesta série de artigos sobre ele e sua família.

Funchal Garcia nasceu[1] em Leopoldina no dia 03.02.1889 e faleceu no Rio de Janeiro (RJ) em 30 de junho de 1979.[2] Fez seus primeiros estudos em sua terra natal. Seguiu depois sua carreira de estudante na cidade do Rio Grande (RS) e no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro (RJ). Estudou desenho e pintura com Maurício Jobim, Honório da Cunha Melo e César Formenti.

Por volta de 1912 casou-se[3] com Guiomar da Mota, com quem teve pelo menos sete filhos: Pedro Américo, Miguel Ângelo, Mariana, Ruth, Maria da Conceição, Maria Helena e Guiomar Garcia

Foi professor, renomado pintor paisagista, jornalista e escritor. Trabalhou em Carangola (MG), cidade onde tem sua profissão e nome homenageados em uma rua.

No dizer dele próprio,[4] conheceu “o Brasil de norte a sul, de este a oeste e, oito países da Europa”. Retratou muitas das belas paisagens que encontrou nessas viagens.

Em 1915 era professor do Ginásio Carangolense[5] e em 1917 lecionava na Escola Normal Arthur Bernardes da mesma cidade, ao lado, dentre outros, do Prof. Joaquim de Souza Guedes Cardoso Menezes Machado. Lecionou, também, em Faria Lemos. Em 1927 voltou para Leopoldina para tomar novamente o destino de Carangola poucos anos depois, sob contrato com o Instituto Propedêutico Carangolense. Posteriormente fixou-se no Rio de Janeiro onde trabalhou até aposentar-se como professor do ensino secundário.

Na obra Retalhos da Minhas Vida, Funchal Garcia inseriu comentários publicados por autores como Manoel Esteves, em ‘Pelas Terras Longínquas de Minas’: “No belo e expressivo ‘ex-libris’ pôs êle a seguinte lenda, que, como tôda a marca de posse, deve retratar verdadeiramente o seu possuidor: (Nos píncaros, os pés… a fronte, nas estrelas…)”. Já no dizer de Gastão Penalva[6]:

“Se alguém disser a Funchal Garcia que lá longe nas grimpas da Mantiqueira, nos desvãos do Araguaia, nas vizinhanças do Iguaçu ou Paulo Afonso, há um trecho de natureza bastante digno de um pincel, ele não quer escutar mais nada: entrouxa o necessário, abarraca à cabeça o chapelão desabado, diz à família um rápido até logo e, lá vai, com as pernas magras a saltar de trem em trem, de morro em morro, de cidade em cidade, até chegar ao ponto desejado, que saúda com todos os rompantes da sua grande alma de artista”.

Na década de 1940, era funcionário[7] da prefeitura do Distrito Federal, em atividades educacionais, e continuava encantando os admiradores de sua arte, como o professor Luiz Victoria[8]:

“Chama-o de poeta do pincel, que sente com a alma o que o pincel espalha na tela. […] Nascido no velho e aristocrático município de Leopoldina, não teve a fortuna a bafejar-lhe o berço. Todavia, a sorte não lhe foi de todo madrasta. Dotou-o de uma sensibilidade fina e de um gosto requintado. […] Funchal é um produto da força de vontade. Ainda criança, quase entregue a sua sorte, oferecia-se para trabalhar em circos. Conseguindo vir para a capital, cursou a Escola de Belas Artes. Granjeou logo amigos entre os mestres que viam nele um espirito de eleição. Voltando para o interior fez-se professor. Seu entusiasmo pelo belo não encontrava todavia correspondência. Insulava-se, então, na sua arte. […] Funchal Garcia é um pintor emotivo. Seus quadros tem alma e colorido.”

Em 1950 foi encarregado de pintar os lugares onde se travaram os maiores combates da Campanha de Canudos e outros recantos dos sertões da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe[9].

Funchal Garcia pertenceu[10] à Associação dos Artistas Brasileiros; à Sociedade de Homens de Letras do Brasil, empossado em 1943, onde fez parte de comissão para prestar solidariedade às vítimas do ciclone que devastou dois estados do México e saudação a novo sócio; à Academia Valenciana de Letras, empossado[11] em 1955; à Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais[12], como representante do município de Leopoldina, empossado em 1965; e, em 2008 tornou-se patrono[13] da cadeira nº 12 da Academia Leopoldinense de Letras e Artes – ALLA.

Por uma questão de espaço o Trem de História de hoje precisa parar por aqui. No próximo número ele ainda trará mais um vagão com as obras deste grande pintor e escritor leopoldinense, passageiro destas últimas viagens. Até lá.


Fontes consultadas:

1 – Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 3 bt fls 80

2 – GARCIA, Maria José Ladeira. Saga de um Sonhador. Disponível em <http://almanaquearrebol.blogspot.com/2015/07/funchal.html>. Acesso em 20 set. 2016

3 – Cálculo feito a partir da dedicatória da p. 11 do seu livro Do Litoral ao Sertão.

4 – FUNCHAL GARCIA, Manoel. Do Litoral ao Sertão. Rio de Janeiro, RJ: Bibliex, 1965. p. 16.

5 – O Paiz. Rio de Janeiro, 28.04.15, ed 11160, p. 7 col. 1, Notícia de Carangola. FUNCHAL GARCIA, Manoel. Retalhos da Minha Vida. Belo Horizonte, MG: do autor, 1969. p.63

6 – PENALVA, Gastão. O bandeirante da pintura. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, 17 set 1941, ed 219, p. 5, col. 1-2

7 – O Jornal. Rio de Janeiro: 07 ago. 1943 ed. 7410 p. 10 col. 7;  A Manhã. Rio de Janeiro: 22 fev. 1945 ed 7613 p. 5 col.3

8 – VICTORIA, Luiz A. P. A Arte e o Artista. Diário da Noite: Rio de Janeiro, 16.09.43, ed 3879 p. 3 col.1

9 – FUNCHAL GARCIA, Manoel. Do Litoral ao Sertão. Rio de Janeiro, RJ: Bibliex, 1965. p. 57

10 – A Noite, Rio de Janeiro, 13.12.45, ed 12134, p. 24 col. 1; 4 maio 1943 ed 11215 p. 5 col.6; 17 jan. 1944, ed 11470, p. 2 col.1-2; 04 maio 1943, ed 11215, p. 5 col.6.

11 – Ofício de Elizabeth Santos Cupello, ex-Presidente da AVL, em julho 2018.

12 – TOGEIRO, Angela. Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, comunicação eletrônica  <amulmig@gmail.com> em 11 de agosto de 2018.

13 – Academia Leopoldinense de Letras e Artes, Posse do Acadêmico Antônio Márcio Junqueira Lisboa.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 371 no jornal Leopoldinense de 1 de janeiro de 2019

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117 – João Funchal Garcia, o irmão jornalista.

Conforme ficou dito na quinzena passada, o Trem de História de hoje se ocupará com a vida e obra do filho caçula de Alfredo Garcia Ribeiro e Mariana dos Prazeres Funchal, o oitavo deles, João Funchal Garcia, nascido[1] no dia 11 de agosto de 1895 em Leopoldina.

E começa informando que em 1920 ele trabalhava[2] no Posto de Profilaxia de Além Paraíba, onde era colega de seu conterrâneo e amigo Luiz Rousseau Botelho, a quem conhecera na infância na rua Tiradentes.

João se casou com Zilca Macedo com quem teve, pelo menos, os filhos Carlos Alberto e Maria José, esta nascida[3] aos 14 de maio de 1925 em Leopoldina.

Iniciou sua carreira jornalística em 1927 quando escreveu para o jornal da terra natal a matéria intitulada[4] “A “Santa” existe?”, falando da aparição na Serra dos Andrés. O artigo descreve uma excursão que fez à localidade situada em território da atual cidade de Recreio (MG), bem ao estilo de um repórter em busca da notícia.

Naquele ano, João havia sido nomeado escrevente do Cartório do 3º Ofício de Palmyra, atual Santos Dumont (MG), onde também foi secretário[5] do jornal A Notícia. No ano seguinte, foi nomeado[6] Ajudante de Procurador da República na mesma cidade.

Em 1930, já no Rio de Janeiro, era[7] repórter de polícia do jornal A Pátria e em 1939 trabalhava como jornalista[8] no Diário Carioca onde conheceu Alberto Romero, que sobre ele escreveu[9]:

“No Rio pouca gente sabe hoje que o repórter Funchal Garcia optou pela rendosa profissão de mendigo para contar tudo mais tarde numa série de reportagens no DC. Funchal me disse que viveu não sei quantos meses do produto das esmolas. O salário do jornal era entregue à mulher dele, que ignorava a natureza da sua missão jornalística. O mais impressionante é que o velho Funchal chegou a tomar tanto gosto pela mendicância (ele próprio me confessou) que até pensou em abandonar o jornalismo, e certamente não faria mau negócio.”

Anos depois um jornal carioca[10] registrava que João Funchal Garcia era um dos jornalistas que assinaram telegrama ao presidente Eurico Gaspar Dutra em apoio ao ato que extinguiu o jogo no Brasil. Vale lembrar que a proibição dos chamados jogos de azar, considerados uma prática degradante para a sociedade, ocorreu com a publicação do Decreto nº 9215, de 30.04.46, do presidente Dutra.

Em 1947[11], o então funcionário João Funchal Garcia foi transferido da Agência Nacional para o Departamento de Segurança. Mas o jornalista continuava ativo e mesmo residindo no Rio de Janeiro, em 1949 enviou matéria[12] especial pelo Dia do Aviador para jornal de Santos Dumont, com o título “Santos-Dumont e o dever patriótico de Palmira”.

Em 1958 recebeu[13] Medalha Comemorativa do II Congresso de Polícia pela cobertura jornalística do evento. Aposentou-se[14] em agosto de 1960 mas continuou sendo procurado pelos colegas do meio e em 1965 foi chamado a opinar sobre o livro[15] ‘O Assunto é Jornal’, publicando uma crítica no mesmo Diário Carioca onde trabalhou.

O jornalista João Funchal Garcia faleceu no Rio de Janeiro, no dia 25 de maio de 1967.

Por hoje a história fica por aqui. No próximo Jornal o Trem de História trará a carga relativa à vida e obra do pintor e escritor (Manoel) Funchal Garcia. Aguardem!


Fontes consultadas:

1 – Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 06 bat fls 18 termo 586.

2 – BOTELHO, Luiz Rousseau, Dos 8 aos 80. Vega: Belo Horizonte, 1979 p. 293.

3 – Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 22 bat fls 9 termo 109.

4 – Gazeta de Leopoldina. 19 fev 1927 ed 224 p. 4 coluna 3.

5 – Jornal de Queluz. Conselheiro Lafaiete, MG, 24 nov 1928 ed 141 p. 1 coluna 5

6 – Correio da Manhã. Rio de Janeiro, RJ, 8 out. 1929 ed 10667 p. 7 coluna 9.

7 – Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, RJ, 24 e 25 julho 1949 ed 172 2ª seção p. 2 coluna 4

8 – Diário Carioca. Rio de Janeiro, RJ, 1 dez 1939 ed 3522 p. 11.

9 – idem, 2 ago 1965 ed 11460 p. 8.

10 – A Manhã. Rio de Janeiro, RJ, 01 maio 1946, ed 1449, p. 2 coluna 8

11 – A Noite. Rio de Janeiro, RJ, 05 ago 47, ed 12635, p. 4, coluna 3

12 – O Sol. Santos Dumont, MG, 23 out 49, ed 1125, p. 3

13 – Diário Carioca. Rio de Janeiro, RJ, 27 maio 1958 ed 9161 p. 10 coluna 7.

14 – idem, 11 ago 1960 ed 9853 p. 6 coluna 5.

15 – idem, 2 ago 1965 ed 11460 p. 8.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 369 no jornal Leopoldinense de 16 de dezembro de 2018

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116 – Alfredo Funchal Garcia, o irmão engenheiro

Até aqui não se sabia que o terceiro filho de Alfredo Garcia Ribeiro e Mariana dos Prazeres Funchal, nascido[1] em Leopoldina no dia 02 de janeiro de 1885, tinha trabalhado[2] nas instalações telefônicas de Paranaguá e Rio Negro, no Paraná. Hoje se conhece isto e um pouco mais.

Alfredo era Engenheiro eletricista, em 1912 foi contratado pela Fernandes & Co, de propriedade de Paulino Fernandes, Aurélia Tanneg e Ignacio D. de Carvalho, para dirigir os trabalhos de instalação do serviço telefônico em Cataguases, Muriaé e Palma, em Minas Gerais, assim como em Santo Antônio de Pádua, no Estado do Rio.

Em 1922 era chefe[3] da secção de eletricidade da Secretaria de Agricultura do Espírito Santo, cargo que o levou a constantes viagens dentro do estado e também para o Rio de Janeiro.

É de se destacar, ainda, um relato[4] publicado em jornal de Conselheiro Lafaiete que se transcreve com a ortografia da época:

“De há muito que se tornou assumpto obrigatório em rodas de inteligentes a discussão sobre a radiographia e a radiophonia. Entretanto, até há poucos dias, o assumpto não era de nosso pleno conhecimento, pois, se bem que já houvéssemos lido muito e muito escutado sobre o assumpto, não nos tinha sido proporcionada a ocasião de ver um desses aparelhos e ver o seu funcionamento, se bem que já houvéssemos tido ocasião de ouvir, por uma gentileza dos Srs. João Hallais de Oliveira e Brandimarte do Valle, algo cantado no Rio, por intermédio do aparelho que o primeiro desses senhores tem funcionando em Buarque[5], mas pela linha da Comp. Telephonica de Queluz, cuja ligação nos permitiu amavelmente o segundo. Só há bem pouco, no ‘Meridional-Hotel’, conseguimos ver um desses apparelhos funcionar, quando ali se encontrava hospedado o Sr. Alfredo Funchal Garcia, residente no Rio à rua Maris e Barros n. 294, atencioso representante da Red-Corporation, com sede no Rio de Janeiro, e da General Eletric, também com sede no Rio, á Avenida Rio Branco ns. 60 a 64.

[…]Agora, porém, o nosso Municipio já possue diversos aparelhos radiophonicos. Tem o do Sr. João de Oliveira, em Buarque. Outro existe na Comp Santa Mathilde, o qual, segundo nos asseveraram, ainda não conseguiu funcionar perfeitamente.

Em Congonhas do Campo formou-se uma sociedade, que adquiriu um desses modernos aparelhos, que, nos informam com segurança, está funcionando perfeitamente. O Dr. Victorino dos Santos Ribeiro, ainda é informação que temos, vae colocar um desses aparelhos em sua residência. Para o Meridional-Hotel, o Sr. Leonidio Dias também já adquiriu um magnifico aparelho, dos mais modernos e potentes, o qual está funcionando regularmente.”

Como se vê, o leopoldinense Alfredo Funchal Garcia participou da difusão de um meio de comunicação que representou, para a época, o equivalente ao que a rede mundial de computadores passou a representar nos últimos vinte anos. E não foi só isso. Em 1926, Alfredo estudava[6] a implantação de uma usina hidroelétrica em Conselheiro Lafaiete (MG), para fornecer força e luz ao distrito de Morro do Chapéu daquele município.

Em 1938, era professor[7] do Gymnasio de Porto Novo do Cunha, da cidade de Além Paraíba, onde se tornou sócio fundador[8] do Aero-Clube local, em junho de 1943, fazendo parte da primeira diretoria com o cargo de diretor de material.

A história de Alfredo fica por aqui. Mas a dos irmãos Funchal Garcia continuará na próxima edição, quando o Trem de História trará o caçula, João Funchal Garcia, que se destacou noutra atividade. Até lá.


Fontes consultadas e nota:

1 – Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 02 bat fls 128 termo 1214.

2 – A Imprensa. Rio de Janeiro, 27 jun. 1912, ed 1638, p. 7, coluna 1

3 – Diário da Manhã. Vitória, ES, 23 mar. 1922 ed 183 p. 3 coluna 2.

4 – Correio da Semana. Queluz de Minas, MG, 26 de março de 1925 ed 517 p. 4 colunas 2/3.

5 – Buarque é a forma simplificada de Buarque de Macedo, distrito de Conselheiro Lafaiete (MG).

6 – O Jornal. Rio de Janeiro, RJ, 14 nov. 1926 ed 2433 p. 10 coluna 8.

7 – Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, RJ, 17 jul. 1938 ed 167 p. 8 coluna 5.

8 – O Jornal. Rio de Janeiro, RJ, 29 ju.1943 ed 7373 p. 2 coluna 2.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 368 no jornal Leopoldinense de 1 de dezembro de 2018

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115 – Os irmãos do pintor Funchal Garcia

A viagem do Trem de História segue pela família de Manoel Funchal Garcia, trazendo um pouco sobre os filhos do casal Alfredo Garcia Ribeiro e Mariana dos Prazeres Funchal.

Maria Amélia nasceu em 28 de outubro de 1880 e foi batizada no dia 07 de novembro do mesmo ano, tendo por padrinhos Antonio Francisco Alves Neto e Rosa Martins Funchal, esposa de José Joaquim, tio materno da batizanda. Maria Amélia se casou com o português Antonio Alves de Freitas com quem teve, pelo menos, quatro filhos: Adelia, Altilia, Irene e José, este ultimo advogado[1] em Carangola em 1939. Maria Amélia faleceu no Rio de Janeiro aos 24 de setembro de 1924.

O segundo filho de Alfredo e Mariana foi Silvandino Funchal Garcia. Nascido[2] em novembro de 1882. Por volta de 1910 Silvandino assumiu a padaria da família. Dele, vale ressaltar que numa demonstração de boa percepção dos avanços da época, em fevereiro de 1913 adquiriu[3] amassadeira mecânica e outros aparelhos acionados por energia elétrica para modernizar as instalações ainda bem precárias da padaria e aproveitar a eletricidade que havia chegado a Leopoldina pouco mais de 4 anos antes.

Silvandino casou-se com Esmenia Ferreira, nascida em Leopoldina aos 29 de novembro de 1884, filha de João Batista Ferreira e Leopoldina Esméria de Almeida, com quem teve sete filhos, dentre eles Paulo Ferreira Garcia que ocupou a cadeira nº 16 da Academia Leopoldinense de Letras e Artes e, José Ferreira Garcia, nascido em Leopoldina aos 16 de junho de 1913, pai de Maria José Ladeira Garcia que ocupa a cadeira nº 13 da mesma Academia.

Alfredo Funchal Garcia foi o terceiro filho do casal e será abordado em artigo especial.

O quarto filho de Alfredo e Mariana foi Antônio Funchal Garcia Nascido por volta de 1887, faleceu[4] em Leopoldina aos 04 de setembro de 1963. Segundo Mário de Freitas[5], só veio a falar de maneira inteligível após a morte da mãe. Figura popular nas ruas de Leopoldina, eventualmente era vítima de brincadeiras desagradáveis da garotada.

O pintor Manoel Funchal Garcia, foi o quinto filho e é o personagem leopoldinense que se homenageia com esta série de artigos que pretendem marcar os 130 anos do seu nascimento.

O sexto filho do casal foi Aurora, nascida[6] aos 23 de janeiro de 1891, de quem nada se conseguiu apurar.

José Funchal Garcia, o sétimo filho, nasceu[7] a 28 de fevereiro de 1893 e faleceu[8] a 27 de setembro de 1966 em Leopoldina. Vivia no Rio de Janeiro na década de 1930. Morou[9] na Rua da Candelária nº 93. Em 1933 era funcionário[10] da Companhia de Armazéns Geraes Mineiros, sediada na então Capital da República.

João, o oitavo filho de Alfredo Garcia Ribeiro e Mariana dos Prazeres Funchal, terá sua trajetória comentada em artigo à parte.

Completada a família, encerra-se aqui a viagem de hoje. No próximo encontro, o Trem de História trará a história do filho Alfredo Funchal Garcia que se destacou como engenheiro eletricista e foi figura importante na implantação da telefonia em diversas cidades dos estados de Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro. Aguardem!


Fontes consultadas:

1 – O Radical. Rio de Janeiro, RJ, 1 dez. 1939 ed 2343 p. 2 coluna 7

2 – Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 02 bat fls 83 termo 755.

3 – O Paiz. Rio de Janeiro, RJ, 12 de fevereiro de 1913 ed 10355 p. 4 coluna 2

4 – Cemitério Nossa Senhora do Carmo, Leopoldina, MG, lv sepultamentos 1963-1975 fls 6 nº 251 plano 2 sep 125.

5 – FREITAS, Mário de. Leopoldina do Meu Tempo. Belo Horizonte: 1985. p.39

6 – Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 03 bat fls 186v termo 95.

7 – Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 04 bat fls 117v termo ordem 1140.

8 – Cemitério Nossa Senhora do Carmo, Leopoldina, MG, lv sepultamentos 1963-1975 fls 30 nr 256 plano 2 sep 703.

9 – Crítica. Rio de Janeiro, RJ, 24 jun 1930 ed 507 p. 8 coluna 2.

10 – A Noite. Rio de Janeiro, RJ, 10 jan 1933 ed 7590 p. 8 coluna 3.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 367 no jornal Leopoldinense de 16 de novembro de 2018

 

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114 – A formação da família Funchal Garcia

O Trem de História segue por sua linha principal cujo objetivo é trazer para os dias de atuais os personagens leopoldinenses que contribuíram para o desenvolvimento da cidade.

A partir de hoje, numa sequência de vagões, pretende trazer a vida e obra de um renomado pintor e professor leopoldinense. Do autor do mural do conjunto da concha acústica da Praça Félix Martins que retrata a lenda do Feijão Cru. Do conterrâneo que empresta seu nome a uma avenida do bairro São Cristóvão. E, do também jornalista e escritor, patrono da cadeira nº 12 da Academia Leopoldinense de Letras e Artes – ALLA, (Manoel) Funchal Garcia, nascido[1] a 03.02.1889 em Leopoldina e falecido no Rio de Janeiro (RJ) em 1979.

E começa trazendo um pouco sobre a sua família, iniciada em 31 de janeiro de 1880, em Leopoldina, com o casamento[2] dos portugueses Alfredo Garcia Ribeiro e Mariana dos Prazeres Funchal.

Alfredo, filho de Francisco Garcia Monteiro e Ana Ribeiro Borges, segundo descendentes, procedia de Midões, em Portugal. Importante registrar que esta informação sobre o local de origem de Alfredo não foi, ainda, devidamente documentada. Sabe-se que Midões é designação geográfica que remete o pesquisador a três diferentes locais: o primeiro deles, pertencente à freguesia de Sazes do Lorvão, Concelho de Coimbra; o segundo, à freguesia de Tábua, também no Concelho de Coimbra; e, o terceiro, a uma freguesia do Concelho de Barcelos, extinta em 2013. Daí não se saber o exato local do nascimento de Alfredo.

Alfredo Garcia Ribeiro faleceu por volta de 1900, possivelmente em Leopoldina. Foi sócio[3] da empresa Araújo & Ribeiro até janeiro de 1882 quando desfez a sociedade e assumiu todo o negócio. Segundo notícia de jornal da época, a empresa funcionava na Rua do Rosário nº 49. Ao que tudo indica, o mesmo endereço[4] da Casa de Pensão que em 1896 funcionava na já então nomeada Rua Tiradentes nº 30. Endereço de moradia da família e onde funcionava a padaria[5] de Alfredo, que após sua morte ficou sob administração da esposa e, mais tarde, do filho mais velho.

Mariana, filha de José Antonio Funchal e Francisca Inácia Mendes, tem como origem provável a cidade de Funchal, capital da Região Autônoma da Madeira, uma das ilhas atlânticas de Portugal.

Sobre Mariana, conta-se que no dia 11 de outubro de 1933 ela foi atropelada[6], na rua Tiradentes, pelo automóvel dirigido por José Vilela. Segundo algumas fontes, a partir daí passou por sucessivos problemas de saúde até 1939 quando, bastante doente, os filhos a levaram para o Rio de Janeiro, onde faleceu[7] no dia 30 de novembro daquele ano.

Registre-se, por fim que, segundo Luiz Rousseau Botelho[8], Dona Mariana participava do mais antigo Centro Espírita de Leopoldina[9].

A carga de hoje termina aqui. Mas no próximo Jornal tem mais Funchal Garcia. Aguardem.


Fontes consultadas:

1 – Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 3 bt fls 80 termo s.nº

2 – Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 1 cas fls 31 termo 79.

3 – O Leopoldinense. Leopoldina, MG,. 22 jan. 1882, ed. 7, p. 3.

4 – O Mediador. Leopoldina, MG,. 28 jan. 1896, ed. 21, p. 3

5 – idem, 1 nov. 1896, ed 50, p. 1

6 – Gazeta de Leopoldina. Leopoldina, MG, 14 out 1933 ed 143 p. 2 coluna 2.

7 – Diário Carioca. Rio de Janeiro, RJ, 1 dez 1939 ed 3522 p. 11.

8 – BOTELHO, Luiz Rousseau. Dos 8 aos 80. Belo Horizonte: Vega, 1979. p. 44.

9 – Almanack do Arrebol. Leopoldina-MG, 1984-1985, ano 2, nº 6, p. 6.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 366 no jornal Leopoldinense de 30 de outubro de 2018

 

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