Arquivos da categoria: Personagens Leopoldinenses

Série de textos extraídos de pesquisa de Luja Machado e Nilza Cantoni sobre personagens da história de Leopoldina.

98 – Costa Cruz – Cecília, Francisco e Ana Tereza Martins da Costa Cruz

Este vagão do Trem de História traz algumas informações de mais três filhos de Joaquim José e Ana Joaquina. Lembrando que ainda permanecem, quanto a alguns dos filhos do casal, lacunas que se espera sejam preenchidas com o caminhar das pesquisas. Mas para que não se percam os dados apurados, ficam aqui registrados.

Cecília Martins da Costa Cruz, a sexta filha do casal nasceu em 1859, em Leopoldina[1]. Casou-se com Luiz Bueno e, após enviuvar-se, em segundas núpcias, em 13.01.1883, casou-se com Luiz de França Viana[2], filho de Felicíssimo de Souza Viana e Maria.

Sobre ela pouco se conseguiu reunir além de uma história triste, contada por Mário de Freitas no seu livro “Leopoldina do Meu Tempo”, páginas 41 e 42. Conforme o autor, no segundo casamento Cecília teve uma filha de nome Anita que morava no Rio de Janeiro e teria cometido suicídio, em decorrência de problemas no casamento com um médico da Marinha. Quando a avó, Cecília, foi buscar os netos, filhos de Anita, encontrou os dois deitados ao lado do corpo da mãe e um deles estava morto, provavelmente por falta de alimentação já que o pai estava foragido.

Ana Tereza Martins da Costa Cruz é o nome da sétima filha do casal Joaquim José e Ana Joaquina, indicada por diversos pesquisadores como tendo nascido em Leopoldina na década de 1860. Seu batismo não foi localizado, nem tampouco o casamento com seu primo Joaquim Martins da Costa Cruz. Desta forma, não foi possível identificar qual dos sobrinhos de Joaquim José teria sido, também, seu genro.

Francisco Martins da Costa Cruz, o oitavo filho do casal Joaquim José e Ana Joaquina, nasceu em Leopoldina[3] em 1862. Em julho de 1889 foi nomeado[4] 2º suplente de delegado de sua terra natal. Em 1892 era eleitor em Leopoldina e três anos depois se transferiu para Cataguases[5]. Em Leopoldina do Meu Tempo, página 42, Mário de Freitas a ele se refere como Nhô Chico.

Vale ressaltar que as terras da família Costa Cruz eram às margens do Rio Pomba, próximas de Cataguases, razão pela qual parte da família naturalmente acabou por fixar residência na cidade vizinha. Da mesma forma que os habitantes de Vista Alegre, que estão do outro lado do rio, em função do ramal da estrada de ferro e a menor distância, em boa parte se ligaram a Leopoldina.

Francisco Martins casou-se com Olímpia Figueira com quem teve os filhos:

1 – Joaquim, nascido[6] em Leopoldina em 1884, foi casado com Maria da Glória Martins dos Santos e em segundas núpcias com Zenar Macedo. Joaquim estudou em Ouro Preto[7] e foi promotor público em Cataguases[8].

2 – Placidina nasceu[9] em Leopoldina em 1885 e faleceu[10] em 1970. Segundo Pedro Vidigal, casou-se com Edelberto Figueira nascido em Valença, RJ e falecido em Além Paraíba, MG. Ele era filho de Francisco Bernardo da Figueira e de Brígida Maria. O casal foi pai de Emília Costa Cruz Figueira, nascida[11] em 1909 e que se casou João Moojen de Oliveira. Ele, nascido em 1904 em Leopoldina e falecido em 1985 no Rio de Janeiro, era filho de Luiz Carlos de Oliveira e Julieta Moojen. Segundo Fernando Dias Ávila Pires, no texto Personagens e Pioneiros da Universidade Federal de Viçosa, João Moojen, que não usava o sobrenome de Oliveira e dispensava o título de Professor Doutor, foi figura marcante na zoologia brasileira do século XX. O autor informa, ainda, que o cientista J. M. Oliveira deixou quatro filhos, nascidos em Leopoldina, doze netos e dois bisnetos.

3 – Dalila (n.1892)[12], casou-se com José Ribeiro Viana.

4 – Nadia (n.1895)[13], casou-se com João Batista de Souza Lima.

5 – Francisco (n1901)[14], casou-se com Maria Leitão de Sá.

6 – Angelo (n.1903)[15], casou-se com Maria Helena Ladeira Campos.

Por hoje o Trem de História fica por aqui. No próximo número virão os dois últimos filhos de Joaquim José e Ana Joaquina. Até lá.


Fontes Consultadas:

[1] Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 01 bat fls 44 termo 235.

[2] idem, lv 1 cas fls 79 termo 225.

[3] idem, lv 01 bat fls 92 termo 498

[4] Irradiação (Leopoldina, MG), 24 julho1889, ed 74 p 3.

[5] Alistamento Eleitoral de Leopoldina século XIX, Atas de Eleição.

[6] Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 02 bat fls 115 termo 1088.

[7] O Pharol (Juiz de Fora), 4 jan 1903 ed 465 p 1.

[8] VIDIGAL, Pedro Maciel. Os Antepassados. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1979 e 1980. v 2 tomo 2 1ª parte p 941.

[9] Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 02 bat fls 156v termo 1500.

[10] VIDIGAL, obra citada, v 2 tomo 2 1ª parte p 943

[11] idem, v 2 tomo 2 1ª parte p 943

[12] Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 04 bat fls 79 termo 937.

[13] idem, lv 05 bat fls 79v termo 323.

[14] VIDIGAL, obra citada, v 2 tomo 2 1ª parte p 949

[15] Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 10 bat fls 6v termo 59.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 351 no jornal Leopoldinense de 15 de março de 2018

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97 – Costa Cruz – Dilermando, vida e obra

Pensando nas ideias progressistas que buscavam soluções para o fim da escravidão e na ideia inovadora dos engenhos centrais que surgiram nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, e que chegou a Leopoldina com a criação do Engenho Central Aracaty, o Trem de História remexe o material dos baús que superlotam os vagões e destaca para a viagem de hoje o notável jornalista, escritor e poeta Dilermando Martins da Costa Cruz.

Assim, hoje se vai recordar um pouco sobre sua família e abordar a sua trajetória como o homem de letras que foi.

Dilermando nasceu em Leopoldina em 1879 e faleceu em 1935, em Juiz de Fora. Era filho de Custódio José Martins da Costa Cruz e Gabriela Augusta de Souza Lima da Costa Cruz. Neto paterno de Joaquim José da Costa Cruz c.c. Ana Joaquina Martins da Costa e, materno, de João José de Souza Lima c.c Carlota Raquel de Souza Barroso. Ainda por parte de mãe, era bisneto de Euzébia Joaquina de São José, falecida em Leopoldina, e que foi proprietária de fazenda que deu origem ao atual município de Dona Euzébia.

Dilermando casou-se com Maria Antonieta Lobato da Costa Cruz a quem dedicou o seu livro POESIAS:

“Santa – que minha vida fazes calma

E tão cheia de encantos e alegrias;

A ti, querida, e aos filhos de noss’alma.”[1]

 Era pai, dentre outros, do médico, prefeito de Juiz de Fora, deputado estadual e federal, secretário de Viação e Obras Públicas de Minas Gerais e juiz-forano, Dilermando Martins da Costa Cruz Filho [2].

Dilermando fez os primeiros estudos na sua terra natal. Estudou também em Ouro Preto e Barbacena. Moço formado, voltou para Leopoldina e iniciou sua carreira jornalística escrevendo para a Gazeta de Leopoldina e para a Folha de Leste. Aos vinte anos tornou-se empresário ao inaugurar [3] o Externato de Instrução Primária e Secundária e um Curso Noturno para adultos. Nesta mesma época, foi nomeado suplente de Inspetor Escolar Municipal [4], seu livro “Primeiras Rimas” já circulava e o segundo, “Diaphanas”, já estava à venda [5].

Em novembro de 1900, foi nomeado Promotor de Justiça [6] de Leopoldina. Dois anos depois, tornou-se Secretário de Comissão do Partido Republicano [7]. Fixando-se em Juiz de Fora, foi redator-chefe do Correio da Tarde [8], jornal que circulou algum tempo na “Manchester Mineira”, onde trabalhava em 1907.

Poeta brilhante, conforme cita o Dr. Joaquim Custódio Guimarães, na palestra Escritores Leopoldinenses, em 1986, publicou os livros: Primeiras Rimas, em 1896; Diáfanas, em 1898; Poesias, em 1909; e, Bernardo Guimarães, em 1910. Em prosa, deu a lume um caderno, que intitulou Palestras Literárias. Na época em que se verificaram as chamadas conferências de salão, espécie de jornal falado, foi notável. Estudou diversos temas – “O Belo”, “Saudades”, “Fontes”, “Caridade”, “Árvores” e vários outros, todos enfeixados em volume. Deixou um romance O Anacoreta, infelizmente inédito. Usou os pseudônimos: D.C., Diler e Celso Dinarte. Deixou obras literárias publicadas nos jornais mineiros: A Folha e Cidade de Barbacena; Gazeta de Cataguazes; Jornal do Commercio (de Juiz de Fora); Gazeta de Leopoldina, Mediador, Leopoldinense e Reação (de Leopoldina). Na imprensa carioca: Jornal do Brasil, O Paiz e Gazeta de Notícias [9].

Nelson Sodré lembra que [10], para Silvio Romero, “no Brasil […] a literatura conduz ao jornalismo e este à política”. Dilermando Martins da Costa Cruz é um exemplo clássico desta conclusão. Tipógrafo na Gazeta de Leopoldina, em seus primeiros anos publicou vários de seus poemas neste jornal. Foi uma vida de poeta, escritor e jornalista bastante intensa.

Por outro lado, sua atuação política transparece desde o início de sua carreira jornalística, em Leopoldina, bem como a de Estevam de Oliveira que fundou na mesma cidade o jornal O Povo em 1885. Ela se acentua em julho de 1907, conforme nota na edição 171 d’O Pharol, página 2, quando os dois literatos levantaram, em seus respectivos jornais Correio da Tarde e Correio de Minas, a candidatura à reeleição como presidente da Câmara do Dr. Duarte de Abreu, candidato de oposição ao governo local. Um exemplo entre os inúmeros outros que podem ser encontrados nos jornais da época, demonstrando a atividade político partidária destes dois representantes da imprensa leopoldinense.

Dilermando Martins da Costa Cruz foi um dos fundadores da Academia Mineira de Letras e, em 2010, foi escolhido Patrono da Cadeira nº 15 da Academia Leopoldinense de Letras e Artes – ALLA, ocupada por Natania Nogueira.

Por uma questão de espaço faz-se necessária mais uma interrupção. Uma parada para reabastecimento. Mas no próximo número a história dos Costa Cruz continuará. Aguardem.


Fontes Consultadas:

1 – CRUZ, Dilermando Cruz. Obras Completas. Rio de Janeiro: Typ. Jornal do Commercio, 1926. v. I, p. 161

2 – FGV/CPDOC. Disponível em <http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/dilermano-martins-da-costa-cruz-filho>. Acesso em 16.12.17.

3 – Gazeta de Leopoldina, 22 jan 1899 ed 41 p 1.

4 – idem, 4 junho 1899 4 junho ed 8 pag 1.

5 – idem, 9 abr 1899 ed 52 pag 1.

6 – O Pharol (Juiz de Fora), 6 nov 1900 ed 48 p 1.

7 – idem, 11 nov 1902 ed 419 p 2.

8 – idem, 10 out 1907.

9 – BARBOSA, Leila Maria Fonseca e RODRIGUES, Marisa Timponi Pereira (orgs.). Notícias da Imprensa sobre a Academia Mineira de Letras. Juiz de Fora, FUNALFA, 2009. p.23

10 – SODRÉ, Nelson Werneck. A História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1966, p. 212

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 350 no jornal Leopoldinense de 1 de março de 2018

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96 – Rita, Manoel e Custódio Martins da Costa Cruz

Como se viu no artigo anterior e se verá nos subsequentes, a família Costa Cruz, embora tenha ficado esquecida pelos historiadores, teve destacada participação no desenvolvimento de Leopoldina. Em função disto, continua sendo o assunto deste Trem de História. Agora, trazendo mais alguns filhos do patriarca Joaquim José da Costa Cruz.

Rita Martins da Costa Cruz foi a terceira filha de Joaquim José e Ana Joaquina. Casou-se com Teófilo Domingos Alves Ribeiro, nascido em Aracati-CE em 1843), filho de Domingos Teófilo Alves Ribeiro e Maria Joaquina Mendes.

Teófilo Domingos foi um dos nomes de destaque da família Costa Cruz. Empreendedor, em 1879 foi autorizado a fundar um Engenho Central de Açúcar, na margem do Rio Pomba, em Leopoldina, na situação denominada Aracaty, em sociedade com seu cunhado Custódio José. No ano seguinte era professor do Lyceu Leopoldinense e em 1883 aparece cobrando indenização do Governo Imperial referente à passagens de imigrantes contratados em 1882, que possivelmente passaram pela Hospedaria Jacareacanga, vizinha do Engenho.

Pessoa ativa, Teófilo Domingos foi, ainda, vereador em Leopoldina em 1886 e em 1889 e no ano de 1888 era redator do jornal Irradiação, na mesma cidade, propriedade de suas filhas. Em 1890 ele aparece vendendo o jornal Irradiação e se despedindo dos leitores, dizendo que iria para a capital do estado e nesse mesmo ano, em Ouro Preto, foi eleito presidente da Companhia Vila Rica. Mesmo com a transferência para a capital, permaneceu como Oficial da Guarda Nacional e em 1893 participou da Assembleia de Instalação da Sociedade Anonyma Arcádia Leopoldinense, da qual foi sócio. Mais tarde, em abril de 1907, era Secretário de Finanças do Estado de Minas Gerais.

Rita e Teófilo Ribeiro tiveram, pelo menos, os seguintes filhos:

1 – Teófilo, nascido por volta de 1877 em Leopoldina onde faleceu em 1897; 2 – Ester, (n.1880); 3 – Adalgisa c.c. Ismael Franzen; 4 – Maria Rita c.c. José Pedro Drumond; 5 – Guiomar c.c. Antonio Gomes Monteiro Júnior e segunda vez com Manoel Martins da Costa Cruz, promotor em Leopoldina em 1898, filho de Custódio José e Gabriela Augusta.

Manoel Martins da Costa Cruz, o quinto filho de Joaquim José e Ana Joaquina, foi batizado em Leopoldina em 1858 e dele não se tem outras notícias.

Custódio José Martins da Costa Cruz, o sexto e o mais conhecido dos filhos do casal, foi sócio do seu cunhado Teófilo Domingos no Engenho Central Aracaty, autorizado pelo Decreto nº 7.508, de 27.09.1879, que estabelecia:

“Fica concedida á companhia que Theophilo Domingos Alves Ribeiro e Custodio José da Costa Cruz organizarem para o estabelecimento de um engenho central, destinado ao fabrico de assucar de canna, mediante o emprego de apparelhos e processos modernos os mais aperfeiçoados, á margem do rio Pomba, no municipio de Leopoldina, Provincia de Minas Geraes, na zona comprehendida pela situação denominada Aracaty”.

Custódio José nasceu em Nova Era, MG. Casou-se com Gabriela Augusta de Souza Lima, filha de João José de Souza Lima e Carlota Raquel de Souza Barroso, conforme apurado pela pesquisadora Joana Capella.

Em 1875, assinou como Irmão em ata da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Paróquia de São Sebastião da Leopoldina. Três anos depois foi nomeado Delegado de Polícia da cidade e no mesmo ano obteve privilégio para construção de uma ferrovia entre Recreio e São Francisco do Glória. Em dezembro de 1890 requereu ao estado uma autorização para exploração de cobre e outros minerais em Conceição do Serro e Itabira. Em abril de 1891, no Rio de Janeiro, RJ, lançou a Cia. Minas Industrial, com atividades agrícolas, de colonização e construção. Nesta época ele vivia no distrito de Ribeiro Junqueira, Leopoldina, na Fazenda Aracati Velho, divisa do Distrito de Paz Vista Alegre.

Custódio José e Gabriela Augusta tiveram, pelo menos, os seguintes filhos: 1 – Manoel Martins da Costa Cruz, casado com sua prima Guiomar Ribeiro, filha de Teófilo Domingos e Rita; 2 – Henrique c/c Francisca Delfim Silva, filha de Camilo Delfim e Silva e Euzébia de Souza Lima; 3 – Maria Carmen c/c João José Vieira Júnior, filho de João José Vieira e Clara Pereira Nunes; 4 – Dilermando Martins da Costa Cruz, do qual se vai falar na próxima edição; 5 – Custódio Filho, nascido em 1880, editor do Correio da Tarde de Juiz de Fora; 6 – Carlos, nascido em 1881 e em 1928 era médico em Leopoldina, c.c Mercedes Paranhos de Souza com quem teve os filhos Carlos, Haroldo, Caio e Áureo; 7 – Afonso c.c. Alzira Neto;  8 – Tereza, conhecida como Zizinha Cruz, c.c. Emilio Gonçalves Júnior, editor do jornal Cidade de Barbacena; e, 9 – Cecília, citada por Pedro Maciel Vidigal, de quem não se tem outras notícias.

Muito ainda existe sobre a família Costa Cruz. Mas por hoje o Trem de História fica por aqui. No próximo número ele trará vida e obra de Dilermando Martins da Costa Cruz. Até lá.


Fontes Consultadas:

Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 01 bat fls 35 termo 184; lv 02 bat fls 35v termo 329, fls 64v termo 612 e 613.

Cemitério Nossa Senhora do Carmo, Leopoldina, MG, lv 1 1896-1903 fls 13 reg 11583 sep 1333 3º plano.

Diário Oficial da União, 10 out 1898, ed 1266, pag 2.

Lei Mineira nr 2452 de 18 out 1878; Decreto 7808 de 27 de setembro de 1879 e Decreto 406 de 6 março 1891

Jornais: A Actualidade (Ouro Preto), 30 abr 1878, ed 17 pag 3; A Província de Minas (Ouro Preto), 2 out 1880, ed 14 pag 4 e 19 ago 1886, ed 380 p.2; Gazeta de Leopoldina 26 jun1898 ed 11 pag 3; Gazeta de Leste (Leopoldina, MG), 5 out 1890, ed 1 pag 1 e 1 nov 1890 ed 5 pag 2; Irradiação (Leopoldina), 14 nov 1888 ed 39, 11 abr 1889 ed 60 p.1; 21 maio 1890 ed 117 pag 2; Minas Geraes (Belo Horizonte), 5 out 1893, ed 269 fls 5 a 7; O Liberal Mineiro (Ouro Preto), 26 out1883, ed 137, pag 3 e O Pharol (Juiz de Fora), 3 dez 1890 ed 296 pag 2, idem, 14 abril 1891 ed 87 pag 2.10 abril 1907, ed. 84, pag. 1, 17 nov 1907, ed. 273, pag. 1

FREITAS, Mário de. Leopoldina do Meu Tempo. Belo Horizonte: Página, 1985. p.41

VIDIGAL, Pedro Maciel, Os Antepassados. Belo Horizonte, Imprensa Oficial, 1979 e 1980. v 2 tomo 2 1ª parte p 910, 933 e 932.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 349 no jornal Leopoldinense de 16 de fevereiro de 2018

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95 – Joaquim José da COSTA CRUZ: Onde tudo começou

O nome de Vista Alegre, além de recordar os versos e música do Serginho do Rock “se você está triste, Vista Alegre!…” remete, também, ao trem de verdade, à Maria Fumaça que trazia e levava o progresso pelos trilhos da inesquecível Estrada de Ferro da Leopoldina. E para aproveitar estas lembranças gostosas, o Trem de História começa hoje uma viagem pela família COSTA CRUZ e o Engenho Central Aracaty que a ela pertenceu, vizinhos da hoje abandonada Estação Ferroviária de Vista Alegre.

Para isto promete trazer, nos próximos vagões, um pouco da genealogia e do passado desta família, seus vínculos com o lugar e com as terras das duas margens do Rio Pomba, nos municípios de Leopoldina e Cataguases. Promete recordar o Engenho Central Aracaty, que parece ter emprestado seu nome ao atual distrito vizinho, Aracati.

O Aracaty foi um dos poucos Engenhos Centrais criados em solo mineiro e fazia parte de política do governo para melhorar a qualidade e alavancar a exportação do açúcar brasileiro, segundo Roberta Meira. Além de trazer informações sobre o empreendimento, a série que ora se inicia promete trazer para os dias de hoje o nome, a obra e a história do leopoldinense Dilermando Martins da Costa Cruz. Um esquecido professor, empresário, promotor de justiça, poeta brilhante, jornalista e escritor. Um dos fundadores da Academia Mineira de Letras e, hoje, patrono da Cadeira nº 15 da ALLA – Academia Leopoldinense de Letras e Artes.

Pois a viagem com a família “COSTA CRUZ” começa com Joaquim José da Costa Cruz, nascido por volta de 1816 e falecido em 24.06.1881, em Leopoldina. A mais antiga referência a ele encontrada em Leopoldina é o batismo de um filho de escravos seus, ocorrido em maio de 1855.

Sabe-se que Joaquim José era casado com Ana Joaquina Martins da Costa, filha de Manoel Martins da Costa Neto e Teresa Maria de Jesus, neta paterna de Manoel Martins da Costa Filho e Maria do Carmo Ferreira Cabral.

Em 1856, Joaquim declarou ser proprietário de aproximadamente 180 alqueires de terras nas vertentes do Rio Pomba, em Leopoldina, tendo como vizinhos: Albina Joaquina de Lacerda (Fazenda Benevolência); João Gualberto Ferreira Brito (Fazenda Fortaleza); e, terras dos Barbosa, possivelmente localizadas mais para os lados da Vargem Linda (Piacatuba).

Joaquim José e Ana Joaquina foram pais de: 1 – Teresa; 2 – Maria do Carmo; 3 – Rita; 4 -Custódio José; 5 – Manoel; 6 – Cecilia; 7 – Ana Tereza; 8 – Francisco; 9 -; 10 – Armando; e, 11 – Antonio Martins da Costa Cruz.

A primeira filha, Teresa Martins da Costa Cruz c/c João Batista Martins Guerra, filho de Quintiliano Martins da Costa e Maria Perpétua Rodrigues Guerra, que chegou a ser nomeado Juiz Municipal em 1873. O casal, Tereza e João teve, pelo menos, os filhos nascidos em Leopoldina: Armando matriculado no Colégio Caraça em 1878; Joaquim Martins Guerra, (n.1867) que se casou com a prima Cornélia Martins da Costa Cruz, filha de Antonio Martins da Costa Cruz e Carlota Rodrigues; Laura, (n.1868); Cecilia, (n.1879); Quintiliano que residia em Leopoldina em 1891; e, Laudelina c.c. Manoel Olimpio da Costa Cruz, filho de tio Antonio e Carlota, tios de Laudelina. Do casal Laudelina e Manoel são os filhos Eduardo e Joaquim. Este último, (n. 1898) em Leopoldina, foi prefeito de Cataguases.

A segunda, Maria do Carmo Martins da Costa Cruz, casou-se com Antonio José de Lima Castello Branco e com ele teve onze filhos, conforme indicado por Pedro Maciel Vidigal e dos quais foram identificados apenas os quatro a seguir, nascidos em Leopoldina: 1 – Aristides, (n.1867), c/c com Alice Spinelli com quem teve o filho Antonio. Numa segunda união, com Judith Cunha, teve os filhos Elisiário e, Judith da Cunha Castelo Branco que se casou com seu primo Luciano Jacques de Moraes; 2 – Alfredo, (n.1869), c/c Elvira Ferreira da Fonseca. Pais de Candida c/c Alfredo João Mayall; Antonio c/c Beatriz Saldanha da Gama Frota; Clotilde c/c Eugênio Pirajá Esquerdo Curty; Enéas c/c Ana da Rocha Ribas; Marcelo c/c Maria de Lourdes de Souza Lima; Sofia c/c Manoel Iberê Esquerdo Curty; Elvira, homônima da mãe, foi uma das esposas de seu primo Luciano Jacques de Moraes acima citado. 3 – Acacio, (n.1873) c/c Clotilde Ferreira da Fonseca Cortes e em segundas núpcias, com Maria Lucila de Almeida Magalhães; e, 4 – Ana, (n.1884) de quem não se tem outras informações.

Aqui é necessário que se faça uma pausa. Na próxima edição a história dos descendentes do Joaquim José da Costa Cruz continuará. Aguardem!


Fontes Consultadas:

Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv orig misto fls 9 e lv 01 bat fls 19 termo 98, fls 194 termo 932, fls 210 termo 1008, fls 233 termo 1116, fls 266 termo 1275; lv 02 bat fls 23 termo 202, fls 166v termo 1572

Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114, Registro de Terras de Leopoldina, nr 24.

Cemitério Público de Leopoldina, MG Livro 1880-1887, folhas 5 sepultura 118.

Colégio do Caraça, Livro de Matrículas, nr. 1164

Gazeta de Leste Leopoldina, MG), 17 jan 1891 ed 16 pag 3.

MEIRA, Roberta Barros. Os louvores ao açúcar nas terras do café: o crescimento da produção açucareira paulista e fluminente entre 1875-1889. Revista Territórios e Fronteiras. Campo Grande-MT, v.2 n.1, p.6-26, Jan/Jun 2009. p.8

VIDIGAL, Pedro Maciel. Os Antepassados. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1979 e 1980,. v 2 tomo 2 1ª parte p 804.

PORTO, Elisa de Moraes Sobrino. Frondosas Árvores Raízes da Mineiridade. Rio de Janeiro: Razão Cultural, 1998. p. 249.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 348 no jornal Leopoldinense de 1 de fevereiro de 2018

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94 – Savino # Sabino – A grafia do sobrenome

De forma proposital, nesta série de artigos o Trem de História inverteu a ordem tradicional de abordagem deste assunto. Embora arriscada, esta foi uma decisão pensada a partir de certos pressupostos que serão explicados a seguir.

Como bem lembrou Mioranza (1), “a onomástica envolve áreas da linguística, da antropologia, da sociologia, da geografia, da história e da psicologia”. E acreditam os autores não ser adequado desconsiderar este caráter multidisciplinar por conta da acepção da própria palavra: onomástica. Que, como se sabe, é um termo grego que se compõe de ónoma (nome) e tékne (arte), significando, então, arte dos nomes. É sabido que toda arte provém de um conjunto de conhecimentos e a onomástica busca suas bases na linguística histórica que reflete o conjunto das práticas de cada momento.

Necessário, ainda, lembrar que o mesmo Mioranza aponta a contribuição inestimável dos tabeliães e escrivães para a fixação das formas dos atuais sobrenomes que, na maioria das vezes, surgiram num momento em que a ausência de normas ortográficas foi suprida pela melhor forma de transcrever informações orais. Razão pela qual são encontradas variações de grafia contemporâneas, não sendo possível determinar-lhes a prevalência.

Mas o sobrenome é como um símbolo ou etiqueta de um tronco familiar. E como tal, se a ideia é considerar as relações familiares num estudo, faz-se mister agrupar todos os personagens sob uma só etiqueta. Assim, como metodologia de trabalho fez-se a opção pela grafia encontrada em fontes relativas ao genearca do grupo.

Tal decisão metodológica se fundamenta, também, em duas razões práticas. A primeira, porque o uso de variações ortográficas praticamente invalida a indexação automática e a busca no sistema de processamento de dados. A outra razão é que a forma utilizada no país de origem permite identificar rapidamente a procedência do imigrante. A família objeto deste estudo é um exemplo clássico: em Leopoldina existem os Sabino, procedentes do centro de Minas e os Savino, de origem italiana.

Para esclarecer a origem do sobrenome Savino tomou-se por base, inicialmente, outra obra de Mioranza na qual ele informa que Savino origina-se do latim Savinus ou Sabinus, “termo étnico pertencente ao povo dos sabinos, estabelecido nos arredores de Roma” quando de sua fundação.

Segundo Devoto & Oli, o sobrenome Savino vem de um povo antigo da Itália central, cuja tradição linguística é classificada como osco-umbra, denominação de uma das três subfamílias linguísticas do território italiano.

Para Fischer, o dialeto sabínico sobreviveu por mais tempo ao contato com as outras subfamílias – picena e latina, sendo esta a origem da forma Savino. Devoto & Oli acrescentam que o povo Sabini vivia no território compreendido entre Tevere, Nera, Aterno e Aniene, ou seja, na região setentrional do Lazio, a noroeste da Campania. Entretanto, Orlandini indica a Campania como origem do povo Savini que posteriormente migrou para o Lazio.

Assim como há divergência entre o ponto de origem e de dispersão do povo antigo por parte dos estudiosos, também a grafia adotada como sobrenome, séculos depois, não é unívoca. Nos livros de registros civis do século XIX, encontra-se a forma Sabino na Puglia e na Sicilia. Na Campania e no Lazio, a grafia é Savino. Mas especificamente para a família estudada, todas as fontes italianas a que se teve acesso trazem a forma SAVINO, razão porque foi adotada para os que de lá migraram para Leopoldina.

Com estas explicações fica, então, concluída a apresentação da família italiana do escritor Fernando Sabino. Na próxima edição iniciaremos nova viagem do Trem de História. Até lá!


Bibliografia Consultada:

1 – MIORANZA, Ciro. Filius Quondam. 2.ed. São Paulo: Larousse, 2009 e Dicionário dos Sobrenomes Italianos v.1 São Paulo: Escala, 1977

2 – DEVOTO, Giacomo e OLI, Gian Carlo. Il Dizionario della Lingua Italiana. Firenze-TO: Le Monnier, 2000.

3 – FISCHER, Steven Roger. Uma breve história da linguagem. Osasco-SP, Novo Século, 2009.

4 – ORLANDINI, Attilio Zuccagni. Corografia fisica, storica e statistica dell’Italia e sue Isole. v.2 Firenze-TO: s.nº.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 347 no jornal Leopoldinense de 16 de janeiro de 20183

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93 – Savino # Sabino – Segundo casamento de Nicola Savino

Seguindo os passos de Nicola Savino, hoje o Trem de História conta mais um capítulo: o do segundo casamento dele.

Algum tempo depois da morte da primeira esposa, em 1891, Nicola viajou para a Itália. Não se sabe se levou os filhos. Mas é certo que eles tiveram seus batismos transcritos em livro de registros de Ispani em 1893.

Também não foi possível apurar se ele se casou pela segunda vez na Itália ou somente ao retornar ao Brasil. O que se sabe é que Nicola teve outros sete filhos, em Leopoldina, com Rosa Ana Giudice, filha dos italianos Rocco Giudice e Angela Savino. E não há notícia de que os pais de Rosa tenham viajado para o Brasil.

Mas considerando que Nicola estava de volta a Leopoldina em agosto de 1895, e que o filho mais velho dele com Rosa Ana nasceu em 1901, é de se supor que o segundo casamento tenha sido realizado no Brasil.

Registre-se, por oportuno, que em Casaleto Spartano, comune próximo a Ispani, foram encontrados vários usuários do sobrenome Giudice, incluindo alguns de nome Rocco. Por esta razão, foram feitas algumas buscas naquela localidade, sem sucesso.

Por outro lado, pouco se sabe sobre os filhos de Nicola e Rosa. Segundo informações orais, após a morte dele em 1914, a esposa teria se transferido com os filhos para o Rio de Janeiro ou Belo Horizonte. Uma mudança que pode ter sido estimulada por Domingos, o filho mais velho de Nicola, porque naquela época era comum que ao falecer o patriarca, o primogênito assumisse seu lugar. De todo modo, pelo menos um dos filhos ainda permanecia em Leopoldina na década de 1930.

Existem, ainda, divergências entre datas de nascimento informadas por familiares e as encontradas em fontes de Leopoldina. Em alguns casos, o registro civil mencionado por parentes indica data de nascimento posterior à data de batismo. Mas tais registros não foram localizados em Leopoldina e, por não se saber onde e quando foram feitos, não foi possível consultá-los. Sendo assim, pode-se apenas informar que:

7) José nasceu a 03 de março de 1901 em Leopoldina, onde foi batizado no dia 30 de setembro do mesmo ano;

8) Brígida teria nascido dia 02 de fevereiro de 1902 em Leopoldina, onde teria falecido solteira no dia 06 de outubro de 1967, conforme informações e datas fornecidas por parentes e não localizadas nos respectivos livros;

9) Angela teria nascido aos 15 de maio de 1903 em Leopoldina, onde não foi encontrado seu batismo nem o registro civil;

10) Umberto nasceu no dia 01 de junho de 1907 em Leopoldina, onde foi batizado no dia 13 de setembro do mesmo ano;

Sobre este filho há uma curiosidade. Seus padrinhos de batismo foram seu irmão João Batista, então com 20 anos e a futura sogra dele, Filomena Vargas. Ocorre que um irmão de Filomena, de nome Olímpio Vargas Corrêa, migrou para Manhuaçu na primeira década dos novecentos, estabelecendo-se na atual reserva particular Monte Alverne que permanece como propriedade de seus descendentes. Mais tarde Olímpio teria atraído outros parentes para a região, incluindo um jovem de sobrenome Sabino que seria seu afilhado e nascido em Leopoldina. Este mesmo jovem é referido por descendentes de outro irmão de Filomena que migrou para Faria Lemos. Nenhum dos informantes, no entanto, soube dizer o nome. Seria Umberto?

11) Nicolau Cataldo nasceu no dia 10 de março de 1908 em Leopoldina, onde foi batizado no dia 02 de janeiro de 1909, embora em seu registro civil conste que seu nascimento ocorreu no dia 11 de maio de 1905. Casou-se aos 06 de fevereiro de 1932, em Leopoldina, com Antonieta Andebert, natural de Paraíba do Sul, RJ, filha de Domingos Pinto Rezende e Gabriela Andebert;

12) Maria do Carmo teria nascido em Leopoldina em 1908, segundo informações de parentes;

13) Eugenio nasceu dia 05 de setembro de 1911 em Leopoldina, onde foi batizado no dia 20 de setembro do mesmo ano.

Aqui se encerra a história dos SAVINO # SABINO, da família do escritor Fernando Sabino, descendente de imigrantes italianos que residiram em Leopoldina. Mas para fechar o assunto, mais um artigo se faz necessário e ele virá na próxima edição do Jornal, para explicar a grafia do sobrenome e a razão pela qual foram adotadas as duas formas SAVINO e SABINO nos títulos desta série de artigos. Aguardem!


Fontes consultadas:

Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 09 bat fls 47v termo 391; lv 11 bat fls 79 termo 253; lv 12 bat fls 26 termo 2; lv 16 bat fls 2 termo 463 e lv 7 cas fls 22 termo 7.

Gazeta de Leopoldina 29.08.1895 ed 19 p.2.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 346 no jornal Leopoldinense de 1 de janeiro de 2018

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92 – Savino # Sabino – Primeiro casamento de Nicola Savino

Nicola Savino casou-se a primeira vez com Angela Maria Grazia Appratto, filha de Vincenzo Appratto e Antonia Pagano, com quem teve seis filhos nascidos em Leopoldina. Após o falecimento da esposa, em 1891, Nicola viajou à Itália onde mandou transcrever os registros de batismo dos seis filhos e foram estes os registros encontrados nos livros do Tribunal de Sala Consilina no início das buscas para este trabalho.

Não se sabe se foi durante a estadia na Itália que Nicola se casou em segundas núpcias com Rosa Ana Giudice, com quem teve outros sete filhos, também nascidos em Leopoldina ou, se esta união se efetivou no Brasil após o retorno. Fato é que Nicola Savino faleceu em Leopoldina em 1914 deixando a viúva Rosa Ana com os seus sete filhos.

E como foi lembrado por seu neto, ele foi proprietário de um bar sobre o qual declarou Botelho:

“bar do Nicolau Sabino, o mais categorizado […] a fina sociedade ali se reunia […] O velho Nicolau Sabino era auxiliado pelos seus filhos […] Havia no bar uma taboleta que dizia assim; Perdute tuta esperanza quelle che entrata senza dinaro”(3)

Na relação de contribuintes de impostos no Município de Leopoldina para o exercício de 1897, publicada no jornal O Mediador, Nicola Savino aparece como proprietário de prédio urbano, hotel e oficina de sapateiro. O jornal O Arame acrescenta que existia um Tiro ao Alvo no Salão Recreio, de propriedade de Savino.

De sua primeira união, com Angela Maria Grazia Appratto, Nicola Savino deixou os seguintes filhos:

1) Domingos, nascido aos 18.04.1881 em Leopoldina, que se casou em Belo Horizonte, no dia 06 de setembro de 1913, com Odete Lacerda Tavares, nascida em 02.05.1891 em Leopoldina. Ela era filha de Fernando Pinheiro de Souza Tavares e Maria da Glória Lacerda, sendo descendente dos Lacerda e Werneck, antigas famílias de Leopoldina.

Odete formou-se na Escola Normal do Ginásio Leopoldinense em 1909 e, segundo o Laemmert, era professora da Escola Estadual do distrito de Abaíba em 1911. Foi também professora do Grupo Escolar de Leopoldina que mais tarde recebeu o nome de Ribeiro Junqueira, onde ficou até 1913, quando se mudou para Belo Horizonte. Em 1917 foi nomeada Auxiliar da Diretora do Grupo Escolar Silviano Brandão de Belo Horizonte.

Domingos foi aluno de escola pública do Professor José Maria Tesson, no então distrito de Argirita. Em 1904 lançou uma fábrica de águas minerais em Leopoldina, que pode ser o empreendimento citado por seu neto Fernando Sabino como “fábrica de Soda e de Água de Selters”. Em 1909 mudou-se para Belo Horizonte para dirigir o escritório da Companhia Brasileira de Eletricidade Siemens Schuckerverke. No ano seguinte, trabalhou no Rio de Janeiro retornando em 1911 para a direção do escritório da empresa em Belo Horizonte.

Em 1926 Domingos era representante da Metropolitan-Vickers Electrical Export Company Limited. Segundo Laemmert, em 1930 pertencia ao quadro de servidores da Chimica Industrial Bayer Meister Lucius em Belo Horizonte, MG. Faleceu em São Lourenço, MG, em 1948.

Domingos e Odete foram pais de Luiza (1914-2001), Gerson (1915-1998), Marilia (1916-?), Maria da Conceição (1918-?), Antonio (1919-?), Berenice (1920-1978) e Fernando Tavares Sabino (1923-2004).

2) Vicente Miguel, o segundo filho de Nicola e Ângela Maria, nasceu em 05.06.1883 em Leopoldina. Casou-se no Rio de Janeiro, em 27.06.1914, com Silvia Micaela Bianca Petrola, nascida por volta de 1893, em Leopoldina, filha dos italianos Nicola Petrola e Margherita Cazzolino. Vicente faleceu no Rio de Janeiro em dezembro de 1930.

3) Maria Antonia nasceu em 05.12.1886 em Leopoldina.

4) João Baptista nasceu em 04.08.1887 em Leopoldina onde se casou com Maria das Dores Levasseur, filha de Benjamim Levasseur de Vasconcelos e Filomena Vargas Corrêa. Ela, nascida em 05.07.1889 em Leopoldina onde faleceu em 14.05.1969. Maria das Dores era neta paterna de Antoine Urbain Levasseur e por sua mãe descendia dos povoadores do Feijão Cru, Antonio Rodrigues Gomes e Manoel Antonio de Almeida.

Segundo Freitas, João Baptista e Maria das Dores residiram na Praça Gama Cerqueira onde vivia a família Levasseur que cultivava o gosto pelo piano. Maria das Dores se formou na Escola Normal do Ginásio Leopoldinense em 1909 e foi professora no Grupo Escolar Ribeiro Junqueira.

5) Deolinda nasceu em 12.10.1888 em Leopoldina.

6) Ernane nasceu em 10.04.1891 em Leopoldina.

Como ficou dito no início deste artigo, após o falecimento da primeira esposa, em 1891, Nicola se casou com Rosa Ana Giudice, com quem teve outros sete filhos, também nascidos em Leopoldina. Mas por uma questão de espaço este segundo casamento será abordado na próxima viagem do Trem de História. Até lá!


Fontes Consultadas:

Archivio di Stato di Sala Consilina, Salerno; Arquivo da Diocese de Leopoldina; Igreja de São José, Belo Horizonte; Cartórios de Notas e de Registro Civil do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte, com a colaboração Eliana Sabino, Mariana Estill Sabino e Stanley Savoretti; Cemitério do Bonfim, Belo Horizonte, e Cemitério Nossa Senhora do Carmo, Leopoldina, MG.

Imprensa Periódica: A Imprensa (Rio de Janeiro); A Noite (Rio); Gazeta de Leopoldina; Gazeta de Notícias (Rio); O Arame (Leopoldina); O Jornal (Rio); O Leopoldinense; O Mediador (Leopoldina); O Paiz (Rio) e O Pharol (Juiz de Fora).

BOTELHO, Luiz Rosseau. Dos 8 aos 80. Belo Horizonte: Vega, 1979.

FREITAS, Mário de. Leopoldina do Meu Tempo. Belo Horizonte: Página, 1985.

LAEMMERT, Eduardo e Henrique. Almanak Laemmert. Rio de Janeiro: 1911.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 345 no jornal Leopoldinense de 16 de dezembro de 2017

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91 – Savino # Sabino – Savino em Leopoldina

Nicola Carmelo Rosario Savino foi um dos imigrantes italianos pioneiros da fase da Grande Imigração em Leopoldina, tendo chegado ao município antes de 1880. Era natural de Ispani, província de Salerno, região da Campania.

Ele nasceu(1) no dia 03 de outubro de 1852 em Ispani, filho de Domenico Savino e Brigida Petrola. Era neto paterno de Giovanni Battista Savino e Angela Giudice e neto materno de Rosanna Pagano e Nicola Felice Petrola, sendo este filho de Rocco Petrola e Brigida Teula, todos residentes em Ispani na época do nascimento de Nicola.

Domenico Savino e Brigida Petrola se casaram(2) em Ispani no dia 06 de julho de 1843 e tiveram, pelo menos, mais quatro filhos: Giovanni Battista Salvatore Carmelo nascido(3) em 1844, Rosanna Angela Nicolina nascida(4) em 1849, Carmine(5) nascido em 1856 e Rosana Filomena nascida em 1859.

Nicola Savino exerceu a profissão de sapateiro e em Leopoldina tornou-se sócio ou proprietário de alguns empreendimentos. Casou-se a primeira vez com Angela Maria Grazia Appratto, filha de Vincenzo Appratto e Antonia Pagano. Em segundas núpcias com Rosa Ana Giudice, filha dos italianos Rocco Giudice e Angela Savino.

Por entrelaçamentos familiares e negociais, sua história está ligada a alguns outros imigrantes italianos que chegaram ao Brasil em 1877. Um deles, Nicola Pagano, então com 30 anos de idade, que viajou no mesmo vapor em que vieram Giuseppe Tambasco e Domenico Pagano.

Registre-se que este Giuseppe era parente de Antonio, Sebastiano e Giovanni Tambasco, três irmãos que se estabeleceram em Recreio, distrito de Leopoldina na época.

Nicola Pagano, que era irmão de Antonia Pagano mãe de Nicola Savino, casou-se com a cunhada deste último e com ele realizou negócios em Leopoldina. Nicola Pagano foi sócio, também, de seu irmão Giuseppe Biaggio Pagano, na firma Braz Pagano & Irmão.

Noutra empresa que envolve estes imigrantes, denominada N. Petrola & Pagano, não se sabe qual dos Pagano foi sócio de Nicola Petrola, negociante em Bom Jesus do Rio Pardo (6) – atual município de Argirita, antigo distrito de Leopoldina – do final da década de 1870 até 1898.

A filha de Nicola Petrola e Margherita Cazzolino, Silvia Micaela Bianca Petrola, nascida por volta de 1893, casou-se em 27.06.1914 com o filho de Nicola Savino, Vicente Miguel.

Como se vê, não é muito simples rastrear os vínculos entre estes imigrantes. Além dos casamentos deles próprios e de seus filhos. Nos batismos é possível comprovar o compadrio que parece ter surgido também das relações comerciais entre eles.

Veja-se, por exemplo, os entrelaçamentos seguintes: a mãe de Nicola Savino chamava-se Brigida Petrola e não há dúvida de que seja familiar de Nicola Petrola; a sogra de Nicola Savino, Antonia Pagano, era irmã e também sogra de Nicola Pagano. E comadre nas famílias Eboli, Conte, Pagano e Brando.

Outro aspecto que chama a atenção é que, deste grupo de imigrantes alguns viajaram à Itália pelo menos uma vez, aparentemente para realizar negócios. Fato que os distingue de outros que vieram inicialmente com as famílias e com elas voltaram para a Itália e mais tarde resolveram retornar ao Brasil.

Quanto a Nicola Savino, sabe-se ainda que além da profissão de sapateiro (7), auxiliado pelos filhos mantinha um bar bem frequentado, onde a sociedade leopoldinense se reunia.

Sobre este bar, conta o seu neto Fernando Sabino (8):

“Meu avô Nicolau, italiano de nascença, era dono do Salão Recreio, um bar com pitoresco caramanchão na antiga rua 1° de Março, local também conhecido como praça do Ginásio, com uma tabuleta à entrada em que, para não vender fiado, ele se valia da célebre advertência de Dante: Lasciate ogni speranza voi ch’entrate.”(9)

O neto informa, também, que Nicola Savino importava barris de vinho Chianti da Itália e que vendia sorvete. Ao falar de seu pai, Fernando Sabino declara:

“E meu pai, seu Domingos, (antes de casar-se com a suave dona Odette), inspirado mais pelo vinho que pelo sorvete, juntou-se a um farmacêutico de nome João Teixeira e abriu uma fábrica de Soda e de Água de Selters – precursora, portanto, da alka-seltzer. Dos dois feitos muito me orgulho.”

Registre-se, por fim, que nos manifestos de vapores disponíveis no Arquivo Nacional foram encontrados alguns usuários do sobrenome. Entre eles há um Nicolau Sabino que desembarcou (10) do vapor Paulista no porto do Rio de Janeiro no dia 21 de fevereiro de 1872, proveniente de Santos. Mas por falta de outros dados, não se pode afirmar que seja o personagem do qual se falou aqui e se ocupará no próximo artigo, tratando do seu primeiro casamento. Até lá.


Fontes Consultadas:

1 – Archivio di Stato di Salerno, 1852 Atto di nascita nº 23.

2 – Archivio di Stato di Salerno, lv. 3 de matrimonio, 1843 p. 19 termo 3.

3 – Archivio di Stato di Salerno, Atto di nascita nº 33.

4 – Archivio di Stato di Salerno, Atto di nascita nº 7.

5 – Archivio di Stato di Salerno, Atto di nascita 1856 nr 1.

6 – Gazeta de Leopoldina. (Leopoldina, MG) 08.04.1898 ed 52 p.2.

7 – Na transcrição dos registros de nascimento dos filhos feita em outubro de 1893 em Ispani, Nicola declarou-se sapateiro.

8 – SABINO, Fernando. O Grande Mentecapto. 54.ed. Rio de Janeiro: Record, 2002.

9 – Interpretação livre: perca as esperanças de consumo se entrou aqui sem dinheiro.

10 – Jornal do Commercio (Rio de Janeiro) 22.02.1872, edição 53 p.1.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 344 no jornal Leopoldinense de 1 de dezembro de 2017

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90 – Savino # Sabino – De Ispani para o Brasil – Parte II

Conforme prometido no artigo anterior, a imigração de Ispani para o Brasil continua para falar um pouco mais sobre alguns imigrantes que vieram para Leopoldina.

Na consulta aos informativos do Centro Internazionale Studi Emigrazione Italiana para o período objeto deste estudo e observou-se que entre 1878 e 1882 a Campania aparecia com o maior número de expatriados, numa avaliação das províncias do sul e das ilhas italianas.

Considerando que as poucas informações de fonte oral obtidas indicam origem rural do grupo de interesse para este trabalho, foram procurados indicadores das atividades econômicas e condições de moradia da região de origem.

Segundo Fondi(1) e Taruffi et all(2), o tipo de habitação rural na Campania era uma espécie de cabana circular de paredes construídas com pedras e tijolos de argila e esterco, cobertas de palha. O telhado era sustentado por pedra calcária. Em geral, as casas eram divididas em dois ambientes: num deles dormia a família inteira e no outro, os porcos e galinhas.  As paredes eram escuras, mal rebocadas e sujas. O chão era de terra batida. Raros móveis e algumas caixas de madeira compunham o ambiente.

Quanto à dieta, Alvim(3) informa que era composta de pão de farinha de cevada ou centeio com verduras ou cebolas cruas. E neste quadro de penúria eles valorizavam, fundamentalmente, a posse da terra, ainda que exercessem profissões pouco especializadas nos núcleos urbanos mais próximos da moradia no campo.

Diante do quadro, não é difícil compreender o fascínio que lhes despertou a hipótese de se tornarem proprietários de uma gleba num país distante onde não faltava alimento, teto e religião. Mesmo aqueles que já se haviam proletarizado nas periferias dos centros urbanos, como operários de fábricas, sonhavam retomar seu modo de vida rural, dentro da estrutura familiar a que estavam habituados.

Os italianos que chegaram ao Brasil entre o final da década de 1870 e o início da seguinte aportaram num país que não tinha políticas de imigração bem delineadas e a introdução podia ser feita por conta do governo federal, dos governos provinciais ou mesmo de particulares.

Em Minas Gerais a administração central não tinha recursos.  Os primeiros tempos foram repletos de problemas de toda ordem.  A maioria não pensava em se fixar aqui, mas em conseguir algum dinheiro e voltar ao seu país. Esta ansiedade se reflete na trajetória de grupos que não paravam em fazenda alguma, sempre em busca de melhores salários.

Por outro lado, aos fazendeiros não interessava arcar com as despesas de transporte dos imigrantes para sua propriedade sem garantir que lá permaneceriam. Donde surgiram procedimentos que visavam cercear a liberdade dos colonos e que, muitas vezes encontrou forte reação entre eles. O mais comum era o imigrante abandonar a fazenda e pegar a estrada sem destino bem definido. Com a ampliação da malha ferroviária pela zona da mata sul, contam-se inúmeros casos de famílias que passavam poucos meses na fazenda e logo estavam de volta à estação, buscando embarque para outro destino.

Segundo Trento(4), Minas Gerais era a terceira área em ordem de importância dentre as atingidas pela emigração peninsular. Entretanto, somente em 1887 o governo mineiro começou a incentivar a imigração. Até 1893, os viajantes tinham que reembolsar 2/3 da passagem.

Trento lembra que a ocupação dos imigrantes que se dirigiram para a Corte e a província fluminense era diferente da ocorrida em Minas Gerais. Segundo ele, para o Rio de Janeiro vieram meridionais, principalmente das províncias de Cosenza, Potenza e Salerno, e, em número menor, de Nápoles, Caserta e Reggio Calábria.

A proximidade de Leopoldina com a província fluminense permite suspeitar que alguns imigrantes destinados ao Rio de Janeiro atravessaram o Paraíba do Sul e se estabeleceram no município que, na época, destacava-se no cenário regional. Seria o caso dos Eboli, Pagano, Savino e Tambasco, cuja entrada no país ainda não está completamente esclarecida.

É de Angelo Trento a afirmação de que a maior parte dos italianos meridionais dedicava-se ao comércio ambulante das mais variadas mercadorias, incluindo itens de vestuário, alimentação e ferramentas. E informa que em 1874 o comércio ambulante aparecia como a principal atividade dos italianos, seguida das função de engraxate, amolador, sapateiro, jardineiro, marceneiro e barbeiro.

A próxima viagem do Trem de História trará um dos italianos do grupo acima citado. Até lá!


Fontes Consultadas:

1 – FONDI, Mario. La Casa Rurale nella Campania. v.23 s.l.: L.S.Olschki, 1964.

2 – TARUFFI, Dino; NOBILI, Leonello de; VILLARI, Pasquale. La questione agraria e l’emigrazione in Calabria. Firenze: G. Barbèra, 1908.

3 – ALVIM, Zuleika. Imigrantes: a vida privada dos pobres do campo. In: SEVCENKO, Nicolau (org.) História da vida privada. v.3. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

4 – TRENTO, Angelo. Do outro lado do Atlântico – um século de imigração italiana no Brasil. São Paulo: Nobel, 1988.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 343 no jornal Leopoldinense de 16 de novembro de 2017

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89 – Savino # Sabino – De Ispani para o Brasil – Parte I

Seguindo a viagem em busca dos antepassados do escritor Fernando Sabino, o Trem de História de hoje começa com a informação estatística divulgada por Carpi (1) indicando que no ano de 1871 a população italiana totalizava 25.985.421 habitantes, dos quais 101.815 requereram passaporte para saírem do país, sendo que destes, 2.014 viviam na província de Salerno, aí não computados outros 113 que emigraram clandestinamente.

Segundo este mesmo autor, os moradores de Salerno que se dirigiam ao exterior em 1871 tinham como principal objetivo fazer fortuna como seus conterrâneos que haviam retornado ao país pouco antes, ou aqueles que enviavam grandes somas em dinheiro para os parentes que haviam permanecido na localidade de origem.

Percebe-se, nas palavras deste analista da emigração italiana da época, referência ao sonho de fare l’america que povoava a imaginação de muitos italianos que chegavam ao Brasil. Mas o autor ressalta que a saída de Salerno vinha diminuindo, se comparada com a década anterior.

Outro quadro interessante indica as profissões dos emigrados de Salerno: 1301 camponeses, 78 comerciantes, 473 artesãos, 31 proprietários rurais, 38 marinheiros e 93 profissionais diversos. Quanto ao destino, pouco mais de uma centena dirigiu-se para a América, em 1871, sendo apenas 40 para o Brasil. Já no ano de 1872, para um total de 4.499 emigrantes de Salerno, 4.081 dirigiram-se para o continente americano. E no ano de 1873, dos 4.947 emigrantes daquela província, 4.814 vieram para as Américas.

Nos relatórios consulares incluídos no volume dois da obra de Carpi, uma análise sobre os emigrantes italianos que viviam no Brasil entre os anos de 1869 e 1872 indica que a maioria era pobre, sem instrução nem capacidade para o exercício de funções que pudessem lhes proporcionar um bom rendimento. Assim despreparados, se obrigavam a aceitar qualquer trabalho ou a viver da caridade alheia. Mas, acrescenta o autor do relatório, no Brasil vivia um grande número de artistas de teatro e músicos italianos; em quase todas as cidades do Império existia um restaurante italiano; e, as atividades mais comuns para os demais era o comércio ambulante, a construção de estradas, funilaria e trabalho de garçom.

 

Zuleika Alvim (2) aborda a expectativa otimista que sustentava a decisão dos europeus pobres de emigrarem para um país chamado Brasil. Segundo ela, pregadores poloneses divulgavam a imagem de um país onde não faltavam alimentos; italianos cantavam que iriam para a terra da prosperidade, deixando o trabalho com a enxada para seus ricos senhores; a cantiga alemã ressaltava que partiriam com toda a família para a terra prometida, onde “se encontra ouro como areia”. Esta era, segundo a autora, a imagem que faziam do Brasil os imigrantes que começaram a chegar a partir de 1870. Que não foi, ressalta Alvim, imagem criada pelos agenciadores de mão-de-obra, mas introduzida na Europa pelos relatos de viajantes desde o século XVI.

Assim como outros analistas do processo, também Alvim se refere à passagem do sistema feudal para o de produção capitalista, com a concentração da terra nas mãos de poucos e os altos impostos transformando os pequenos proprietários em mão-de-obra para a nascente indústria. Em alguns países, a industrialização tardia não teve como absorver o excedente de trabalhadores que, além disso, paulatinamente tiveram algumas de suas tarefas absorvidas por máquinas.

A fome e a miséria tornaram-se ameaça constante, preocupando os dirigentes que temiam revoltas populares incontroláveis. Emigrar foi, portanto, a solução encontrada do lado de lá do Atlântico e, do lado de cá, países em desenvolvimento como Brasil e Argentina começaram a atrair imigrantes para ocupar suas terras. Segundo Alvim, “mais de 50 milhões de europeus deixaram o continente entre 1830 e 1930”, sendo que 22% deles vieram para a América Latina e os italianos eram 38% dos imigrantes que se fizeram ao mar. Na Itália, lembra a mesma autora, “o verbo buscar ganhou destaque. Buscou-se trabalho primeiramente nas cidades, e em seguida nos países vizinhos, estabelecendo-se uma migração sazonal”.

Sobre esta imigração ainda será o artigo que ocupará este espaço na próxima edição do Jornal. Aguardem.


Fontes Consultadas:

1 – CARPI, Leone. Delle Colonie e dell’Emigrazione d’Italiani all’Estero sotto l’Aspetto dell’Industria, Commercio ed Agricoltura e com Trattazione d’Importanti Questioni Sociali. Milano: Lombarda, 1874. v.1

2 – ALVIM, Zuleika. Imigrantes: a vida privada dos pobres do campo. In: SEVCENKO, Nicolau (org.) História da vida privada. v.3. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 342 no jornal Leopoldinense de 1 de novembro de 2017

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