43 – O Mediador

logomarca da coluna Trem de História

Entre os jornais que circularam em Leopoldina entre 1879 e 1899, O Mediador é um dos que ainda não foram trazidos pelo Trem de História, o que se faz agora.

O endereço dele era a Rua Barão de Cotegipe número 42. O redator e proprietário era o advogado Alberto Moretz-Sohn Monteiro de Barros que, além deste jornal sufocado como tantos outros pela política dominante, criou também A Ordem e A Reação nos primeiros anos do século XX. Segundo Dilermando Cruz, em matérias publicadas em O Pharol, periódico da cidade de Juiz de Fora, Alberto Moretz-Sohn escrevia para a Folha do Leste e foi “diretor político” de outro jornal de Leopoldina, O Echo, que circulava por volta de 1905. O seu secretário-gerente foi Alexandre Chaves. No período analisado, além dos residentes na sede municipal, contava com assinantes em todos os distritos de Leopoldina.

O redator mantinha escritório de advocacia na Rua Octavio Ottoni e fora casado com sua prima Ana Miranda Monteiro da Silva, falecida no dia 13 de abril de 1896. No dia 18 de julho de 1904, casou-se pela segunda vez com Adelaide da Gama Fernandes, filha de Francisco de Paula P. Fernandes e Luiza Amélia da Gama Cerqueira, em cuja casa Dom Pedro II almoçara naquela rápida visita a Leopoldina em 1881.

Nota publicada na primeira página do jornal O Mediador, edição número 21 de 28 de janeiro de 1896, dá a medida de seu posicionamento diante do poder público municipal, não se sujeitando à lei da mordaça que parece haver sido tentada na época. Noticia o redator, na primeira página, que o Conselho Distrital impusera multa injustificada a um cidadão após os “empregados da Gazeta de Leopoldina” terem encontrado, nos fundos do quintal do morador, “uma pequena porção de carne seca corrompida”. A nota prossegue informando que não havia prova de que o cidadão tenha sido o responsável pela dispensa do lixo de forma inadequada e que a intenção do Conselho ficou clara logo em seguida: a pessoa multada era o 2º Juiz de Paz que, com o acontecido, ficou impedido de se manifestar em outros processos injustos contra “negociantes multados por capricho”.

Esta era uma característica de O Mediador observada nas edições preservadas, todas do acervo do Arquivo Público Mineiro. Fazia denúncias de forma direta, sem temer o poder econômico do proprietário da Gazeta de Leopoldina, que de tudo fazia para calar a oposição.

Sua primeira edição teve a data de 14 de julho de 1895, três meses após o lançamento do periódico criado por José Monteiro Ribeiro Junqueira.

Durante o período em que O Mediador resistiu à dificuldade de circular num município em que o poder público não aceitava contestações, não foram poucas as matérias que publicou fustigando o Agente Executivo e proprietário da Gazeta de Leopoldina. Numa destas ocasiões o jornal informou que, pela terceira vez, o Agente ameaçara renunciar ao cargo. Na edição de 5 de fevereiro de 1896 o leitor ficou sabendo que o motivo da ameaça foi o “não querer alterações nem modificações” nos planos que pretendia executar à frente da administração municipal, rejeitando qualquer manifestação contrária do poder legislativo que, na prática, era composto majoritariamente por seus aliados.

O jornal denunciava, também, as artimanhas perpetradas pelos empregados da Gazeta de Leopoldina no sentido de desestabilizar os Conselhos Distritais. Um destes casos veio à luz na edição de 18 de março de 1896, em resposta ao órgão de propriedade do Chefe do Executivo municipal que divulgara ter sido o Dr. Guimarães Júnior responsável pela renúncia do presidente do Conselho de Tebas. Os membros do Conselho negaram a interferência de Guimarães Jr e o redator de O Mediador acrescentou que motivos para a renúncia não faltavam, conforme vinha sendo denunciado pela Voz de Thebas, jornal bastante ácido já comentado nesta série de artigos sobre a Imprensa em Leopoldina no final do século XIX.

Além de matérias políticas, a maioria delas denunciando desmandos na administração municipal, O Mediador se ocupava de temas gerais que eram característicos da sua época. No que tange à educação feminina, artigo publicado em março de 1896 deixa clara a posição de seu redator: a mulher não poderia ter todos os direitos permitidos aos homens, devendo ser orientada para o cuidado do lar, dos filhos e do bem estar do marido. Neste aspecto, não se distinguia da maioria.

Em 1896, foi o primeiro órgão de imprensa a denunciar os casos de febre amarela que assolavam o município, notícia claramente contrária ao interesse do administrador municipal. Talvez para interromper suas denúncias, no final daquele ano foi agraciado com matéria do poder público sobre os impostos municipais que seriam cobrados no ano seguinte. Sim, agraciar parece ser o termo mais adequado para aquele momento. As verbas públicas utilizadas para publicação de atos da administração municipal raramente eram destinadas aos demais órgãos de imprensa local, ficando restritas ao jornal de propriedade da família Ribeiro Junqueira.

O assunto poderia ir um pouco adiante. Mas o Trem de História precisa encerrar por aqui. Na próxima edição o Trem seguirá viagem.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de março de 2016

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
  • Share on Tumblr

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *